Obra de Bruna Irineu e Larissa Pelúcio denuncia como plataformas digitais reproduzem desigualdades, censuram conteúdos e ampliam vulnerabilidades
As redes sociais se consolidaram como espaços de encontro, mobilização política, produção de conhecimento e construção de comunidades para pessoas LGBTQIAPN+. Mas o mesmo ambiente que possibilita visibilidade também pode reproduzir mecanismos sofisticados de exclusão. É sobre essa contradição que trata o livro ‘Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: Ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital’, das pesquisadoras Bruna Irineu e Larissa Pelúcio, que será lançado no próximo dia 5 de junho, na Livraria Megafauna, no Edifício Copan, em São Paulo.
Resultado de anos de pesquisa desenvolvida no âmbito do Observatório LGBTI+ de Violência Algorítmica e Extrativismo de Dados, a obra analisa como algoritmos, sistemas de inteligência artificial e plataformas digitais contribuem para o silenciamento e a invisibilização de corpos, discursos e experiências LGBTQIAPN+.
Segundo as autoras, a discussão tornou-se ainda mais urgente após a pandemia de Covid-19, quando a hiperconectividade passou a fazer parte da vida cotidiana de milhões de pessoas.
“O debate ganhou urgência diante de um paradoxo contemporâneo em que ao mesmo tempo em que a pandemia empurrou vidas LGBTQIAPN+ para a hiperconectividade, ela sofisticou modalidades de controle menos visíveis, entre as quais a violência algorítmica”, explicam.
O que é violência algorítmica?
Embora o termo ainda seja pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos, seus efeitos são sentidos diariamente por usuários das plataformas digitais.
Bruna e Larissa definem a violência algorítmica como um conjunto de danos produzidos por sistemas automatizados de classificação, recomendação, vigilância e tomada de decisão que operam de forma desigual e pouco transparente. Esses sistemas acabam reproduzindo hierarquias sociais já existentes e determinam quem ganha visibilidade e quem será silenciado.
Na prática, isso pode significar remoção de conteúdos, redução artificial de alcance, o chamado shadowban, restrições injustificadas de perfis e maior exposição a ataques coordenados.
“As plataformas produzem modos específicos de exercício de poder, nos quais códigos, métricas e bancos de dados passam a mediar quem é visível, quem é silenciado e quem circula com segurança”, afirmam as pesquisadoras.
Quando a censura atinge a prevenção ao HIV
Um dos pontos abordados pelas autoras tem relação direta com temas historicamente acompanhados pela Agência Aids: a circulação de informações sobre HIV, prevenção e direitos das pessoas vivendo com o vírus.
De acordo com Bruna e Larissa, conteúdos relacionados à prevenção combinada, ao uso de PrEP e PEP, à redução de danos e às experiências de pessoas vivendo com HIV frequentemente são classificados pelas plataformas como “sensíveis”, sofrendo restrições ou remoções automáticas.
Para elas, esse fenômeno representa uma atualização digital de antigas formas de estigma.
“As plataformas reproduzem, sob a gramática técnica da moderação automatizada, o mesmo pânico moral e sanitário que a imprensa hegemônica ajudou a propagar nos anos 1980 e 1990”, destacam.
As autoras utilizam o conceito de “sorofobia algorítmica” para descrever como sistemas digitais podem reforçar preconceitos históricos contra pessoas vivendo com HIV, dificultando o acesso à informação e a construção de redes de apoio.
Nem todas as pessoas são afetadas da mesma forma
O livro também demonstra que a violência algorítmica não atinge todos os grupos de maneira igual.
Pessoas trans e travestis, especialmente negras e periféricas, aparecem entre as mais vulneráveis. Elas enfrentam simultaneamente a hipervisibilidade punitiva, quando se tornam alvo preferencial de ataques e discursos de ódio, e o apagamento institucional, quando seus conteúdos são removidos ou limitados pelas plataformas.
As autoras ressaltam ainda que raça, gênero, classe social e território atravessam profundamente esse debate.
“O algoritmo não paira acima da história”, afirmam. “Ele é expressão de um modelo técnico que mantém um regime econômico e social racista, misógino e LGBTfóbico.”
Nesse contexto, travestis negras periféricas vivendo com HIV aparecem entre os grupos mais afetados pela combinação entre racismo, transfobia e sorofobia reproduzidos no ambiente digital.
Tecnologia não é neutra
Ao longo dos capítulos, as pesquisadoras questionam uma ideia amplamente difundida pelas grandes empresas de tecnologia: a de que algoritmos seriam ferramentas neutras e objetivas.
Para elas, os sistemas digitais aprendem a partir de dados produzidos em sociedades marcadas por desigualdades históricas. Por isso, acabam reproduzindo e ampliando discriminações já existentes.
Mas o livro não se limita ao diagnóstico.
A obra apresenta experiências de resistência digital, iniciativas de hackerativismo transfeminista e propostas de construção de tecnologias mais inclusivas e democráticas. Entre elas está o conceito de TecnoCuir, que propõe novas formas de relação entre tecnologia, diversidade e cuidado coletivo.
“Se os algoritmos aprendem com as desigualdades do mundo, também podemos disputar os códigos, as infraestruturas e os imaginários que sustentam esse mundo digital”, defendem as autoras.
Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+ convida leitores e leitoras a refletirem sobre quem controla as tecnologias que moldam o cotidiano e quais vidas são consideradas dignas de aparecer, existir e circular livremente no ambiente digital.
Serviço
Debate e sessão de autógrafos do livro Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+
Data: 5 de junho
Horário: 17h
Local: Livraria Megafauna – Edifício Copan
Endereço: Avenida Ipiranga, 200, Loja 53 – Centro Histórico, São Paulo (SP)
Entrada: Gratuita e aberta ao público
Participam do debate Veronyka “Travahacker” Gimenes, Amanda Claro, Ju Motter e Renan Quinalha.
Livro: Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+ – Ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital
Autoras: Bruna Irineu e Larissa Pelúcio
Editora: ABETH
Páginas: 244
ISBN: 978-65-984692-2-1
Preço: R$ 75 (impresso) e R$ 3,99 (e-book)




