
Durante evento realizado paralelamente à 78ª Assembleia Mundial da Saúde, líderes globais em saúde defenderam que o recém-aprovado Acordo de Pandemias seja um marco no enfrentamento das desigualdades que historicamente marcam o acesso a tecnologias e serviços de saúde em contextos de crise — como na resposta à aids e à Covid-19.
A discussão aconteceu durante painel promovido pelo Conselho Global sobre Desigualdade, Aids e Pandemias, convocado pelo Unaids, e reuniu nomes como a diplomata sul-africana Precious Matsoso, copresidente da instância de negociação do Acordo de Pandemias, a diretora-executiva do Unaids Winnie Byanyima, a ex-ministra da Saúde do Brasil Nísia Trindade e o secretário de Saúde da Espanha, Javier Padilla Bernáldez.
Os especialistas refletiram sobre as lições da resposta global ao HIV, muitas delas ignoradas durante a pandemia de Covid-19, e apontaram caminhos para uma ação mais justa em futuras crises sanitárias. “Esse acordo estabelece um princípio fundamental: o compartilhamento de tecnologias financiadas com recursos públicos. Isso é extremamente importante”, afirmou Winnie Byanyima. “Doze milhões de pessoas morreram na África aguardando antirretrovirais para o HIV. Estima-se que 1,3 milhão de vidas poderiam ter sido salvas na Covid-19 se as vacinas tivessem sido distribuídas de forma equitativa. Este acordo lança as bases para que isso nunca mais se repita.”
Para Precious Matsoso, ex-diretora-geral do Departamento Nacional de Saúde da África do Sul, o acordo representa apenas o início de uma transformação necessária na preparação e resposta a pandemias. “Não é preciso esperar para garantir equipamentos de proteção aos profissionais de saúde, ou para fortalecer os sistemas de saúde locais. Podemos começar a implementar agora as medidas previstas.”

Nísia Trindade destacou que, em setembro de 2021, 76% do fornecimento global de vacinas contra a Covid-19 estava concentrado em apenas 10% dos países. Em resposta a esse cenário, o Brasil e o G20 lançaram uma coalizão global para fomentar a produção local e regional de tecnologias em saúde, com foco em doenças negligenciadas, como a dengue, e em doenças que afetam populações vulneráveis, como o HIV.
“Conforme a ciência avança, as desigualdades também aumentam”, alertou Trindade. “Doenças antes consideradas prioridade passam a ser negligenciadas. O problema não é da doença, mas de poder, de interesses econômicos.”
A diretora do Unaids também criticou a lentidão na distribuição de novas tecnologias no enfrentamento ao HIV, como os medicamentos injetáveis de longa duração para prevenção e tratamento. Ela mencionou o lenacapavir, antirretroviral desenvolvido pela Gilead Sciences que exige apenas duas aplicações anuais, mas que ainda enfrenta barreiras de acesso.
“O lenacapavir é uma tecnologia incrível”, afirmou Byanyima. “Mas ainda não está disponível. E pode demorar anos até estar acessível. Isso não é uma forma eficaz de enfrentar uma pandemia.”

O secretário de Saúde da Espanha, Javier Padilla Bernáldez, destacou que as disposições sobre transferência de tecnologia previstas no Acordo podem acelerar o acesso. “Não são os termos ideais, mas certamente nos permitirão avançar mais.”
Encerrando o debate, o moderador Matthew Kavanagh, diretor do Centro de Políticas e Política Global em Saúde da Universidade Georgetown, reforçou o caráter histórico do acordo: “Não é tudo que desejaríamos, mas é o começo de um movimento poderoso. Um sinal de que a saúde global ainda pulsa e pode se tornar mais justa, eficaz e transformadora.”
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações



