O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) lançou um apelo contundente aos líderes africanos durante a 23ª Conferência Internacional sobre Aids e DSTs na África (ICASA), realizada em Accra, Gana. A diretora-executiva do programa, Winnie Byanyima, afirmou que “acabar com a aids é uma escolha política” e enfatizou que o continente tem todas as condições científicas e tecnológicas para atingir a meta até 2030, caso haja compromisso firme dos governos.
Segundo Byanyima, a África continua a carregar a maior parte do peso global da epidemia. “O nosso continente tem a maior incidência de HIV no mundo — representamos apenas 19% da população mundial, mas correspondemos a 65% do total de pessoas que vivem com HIV”, destacou. Mais da metade das pessoas que ainda aguardam tratamento e mais da metade das novas infecções anuais por HIV também se concentram em países africanos.
Progresso ameaçado por cortes de financiamento e retrocessos em direitos humanos
O Unaids alertou para uma “tempestade perfeita” que ameaça reverter conquistas recentes: cortes rápidos no financiamento internacional, aumento da dívida externa e um movimento crescente contra os direitos humanos e a igualdade de gênero. Esses fatores, segundo o programa, afetam sobretudo serviços de prevenção e iniciativas lideradas por comunidades, peças-chave da resposta ao HIV.
Mesmo assim, Byanyima resistiu à narrativa de que a queda da ajuda externa estaria condenando o continente. Em seu discurso, defendeu que muitos países africanos já avançam para respostas mais sustentáveis, inclusivas e financiadas internamente. Ela ressaltou que o Unaids tem apoiado governos na mobilização de recursos domésticos e no desenvolvimento de roteiros para a sustentabilidade financeira, além de pressionar por alívio da dívida destinado à saúde.
Retrocesso nas leis que criminalizam pessoas LGBTQIA+
Um dos alertas mais contundentes da conferência foi sobre o avanço de legislações que criminalizam as relações entre pessoas do mesmo sexo. Pela primeira vez desde que o Unaids começou a monitorar esses números, o total de países que criminalizam pessoas LGBTQIA+ aumentou.
Para Byanyima, além de violar direitos fundamentais, essas políticas afastam populações vulneráveis dos serviços de prevenção e tratamento. “Essas leis não são de origem africana, são importações da era colonial”, afirmou. “Para proteger a saúde das pessoas, devemos proteger seus direitos. Isso está no cerne dos nossos valores africanos, o Ubuntu: ‘eu sou porque nós somos’.”

Inovações podem transformar prevenção e tratamento
Outro ponto-chave do apelo do Unaids é o potencial das novas tecnologias médicas para acelerar o fim da epidemia. A agência destaca especialmente os antirretrovirais de longa duração, que podem revolucionar a prevenção do HIV da mesma forma que a terapia antirretroviral transformou o tratamento nos últimos 30 anos.
Entre as inovações, está a PrEP injetável de longa duração, capaz de prevenir a infecção com apenas duas doses por ano. Byanyima fez um pedido direto às empresas farmacêuticas — particularmente à Gilead, produtora do medicamento lenacapavir — para que permitam a fabricação de versões genéricas na África Subsaariana e na América Latina, ampliando o acesso. Ela também pediu a governos e parceiros internacionais que invistam para que essas tecnologias cheguem a todos que delas necessitam.
Produção local e cooperação internacional ganham destaque
Em sua fala, Byanyima elogiou iniciativas regionais de produção farmacêutica, destacando o caso do tratamento de primeira linha para HIV fabricado no Quênia e atualmente utilizado em Moçambique. Ela também celebrou a criação da Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, lançada sob a presidência do Brasil no G20 — um esforço para enfrentar desigualdades no acesso a tecnologias de saúde.
O Unaids defende que investir em produção regional é fundamental para garantir resiliência e autonomia em crises futuras, além de reduzir custos e ampliar o alcance de medicamentos essenciais.
ICASA 2025: ciência, política e mobilização comunitária

A ICASA, que ocorre a cada dois anos, é um dos maiores eventos sobre HIV e DSTs no continente. A edição de 2025 reuniu representantes de governos, agências multilaterais, cientistas e organizações comunitárias entre 3 e 8 de dezembro, na capital ganesa. O encontro teve como objetivo definir caminhos e manter o ímpeto global para acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030.
Encerrando sua participação, Byanyima reforçou que as soluções já existem, mas dependem de vontade política: “A aids não é mais um desafio médico. Acabar com a aids é uma escolha política.”
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações



