Iniciativa já reúne 27 assinantes, promove encontros semanais e pretende destinar parte da arrecadação a organizações que acolhem pessoas vivendo com HIV
Antes de liderar uma comunidade para pessoas vivendo com HIV, Djair Gomes sentiu falta de encontrar uma comunidade que também o acolhesse. Durante cerca de sete anos falando abertamente sobre HIV nas redes sociais, o sergipano se acostumou a receber mensagens que nem sempre procuravam uma resposta sobre tratamento ou prevenção. Muitas chegavam carregadas de outras questões: solidão, medo da rejeição, dificuldades nos relacionamentos, receio de contar o diagnóstico e, sobretudo, vontade de encontrar alguém que compreendesse experiências que ainda podem ser difíceis de compartilhar fora de espaços considerados seguros.
Djair tentava responder. Com o crescimento da demanda e a rotina de trabalho, já não conseguia conversar individualmente com todos. Mas reconhecia naquelas histórias sentimentos que também haviam atravessado sua própria vida. “Eu também me senti sozinho por muito tempo e ainda me sinto sem apoio em alguns momentos; sinto que não existe uma comunidade que me abrace”, conta.
Foi desse encontro entre uma experiência pessoal e uma demanda percebida nas redes que começou a nascer a comunidAIDS, iniciativa liderada por Djair e voltada à criação de vínculos entre pessoas vivendo ou convivendo com HIV.
A ideia ganhou forma durante o Empretec, seminário de desenvolvimento de comportamentos empreendedores criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizado no Brasil pelo Sebrae, em uma imersão de cinco dias.

Mas a comunidAIDS não foi construída apenas por Djair. Durante o curso, o projeto foi desenvolvido pelo grupo formado por Gabis Amaral, Fabio Atual, Ste Maria e Djair Gomes. Djair levou para o trabalho coletivo uma ideia que já carregava havia muito tempo e, hoje, está à frente da comunidade.
“Decidi criar a minha própria para fortalecer pessoas como eu, para que se sintam pertencentes a um espaço que vai acolhê-las e ouvi-las quando for preciso”, afirma.
Em poucos dias, aquilo que começou como um desafio de empreendedorismo saiu da sala de aula e encontrou público. A comunidAIDS já reúne 27 assinantes, mantém um grupo privado no WhatsApp e realizou seu primeiro encontro virtual na quinta-feira, 20 de agosto. A intenção inicial era testar o projeto durante um mês. Depois do primeiro encontro, Djair diz que decidiu continuar.
Uma ideia que começou antes do curso
O Empretec ofereceu o empurrão necessário para tirar uma ideia antiga do papel. Djair já empreende no setor de alimentação e, durante o seminário, foi desafiado a desenvolver uma proposta diferente daquela em que atuava profissionalmente.
Foi quando voltou a pensar em algo que havia imaginado anteriormente: uma rede social voltada a pessoas vivendo com HIV. “Eu tinha essa ideia há muito tempo, mas receio de não dar certo. Quando iniciei o curso, fui desafiado a criar algo diferente do que já faço atualmente, empreender no ramo alimentício, e aí despertei essa ideia antiga que faz total sentido para a minha comunidade.”
O plano original era desenvolver um aplicativo de relacionamento e convivência entre pessoas vivendo com HIV. Cinco dias, porém, eram insuficientes para estruturar a tecnologia necessária.
A solução encontrada pelo grupo foi transformar a essência da proposta em algo que pudesse começar imediatamente. “Tive a ideia de criar uma rede social para pessoas vivendo com HIV, mas, como eu só tinha 5 dias, não haveria tempo hábil. Então, decidi fazer a comunidade, que ganhou o nome de comunidAIDS.”
O que poderia ser apenas uma adaptação para cumprir uma atividade do curso acabou dialogando diretamente com uma realidade que Djair já observava havia anos. “As pessoas que me seguem mandam mensagens com um sentimento de amizade, mas, com a demanda de trabalho, eu não conseguia dar atenção a todas. Então, a comunidade seria um local de acolhimento, assim como o aplicativo.”
A diferença é que, agora, pessoas que chegavam individualmente até ele começam a encontrar também umas às outras.
A trajetória de Djair ajuda a explicar a iniciativa
A busca por pertencimento mencionada por Djair não aparece apenas nos relatos de seus seguidores. Ela atravessa sua própria história vivendo com HIV.
Djair vive com HIV, ele descobriu o diagnóstico aos 19 anos, quando trabalhava em um restaurante em Sergipe. Segundo relatou na ocasião, depois de confiar sua sorologia a uma colega, a informação foi compartilhada com outros funcionários sem seu consentimento. Dias depois, após sofrer um pequeno corte enquanto trabalhava, enfrentou uma reação discriminatória no estabelecimento e foi demitido.
Foi também depois dessas experiências que começou a produzir conteúdo sobre HIV para as redes sociais. Mais tarde, ao criar seu próprio negócio de alimentação em Aracaju, o preconceito voltou a aparecer. Djair recebeu comentários de pessoas que associavam falsamente o fato de ele viver com HIV ao risco de transmissão pelo preparo de alimentos. Ele decidiu tornar os ataques públicos e usar a repercussão para divulgar informações sobre o vírus.
A ciência é inequívoca: HIV não é transmitido por alimentos ou pelo compartilhamento de talheres e utensílios.
Djair continuou falando publicamente sobre o tema. Com o tempo, a exposição deixou de significar apenas contar a própria história e passou a aproximá-lo de outras pessoas vivendo com HIV.
É justamente dessa trajetória — diagnóstico, preconceito, exposição pública, produção de informação e contato diário com relatos semelhantes — que surge a dimensão mais pessoal da comunidAIDS.
“A comunidAIDS nasce literalmente como uma resposta a essas experiências que percebo ao receber relatos de pessoas com essas dores”, afirma.
Quando a solidão deixa de ser uma conversa individual
A estrutura inicial da comunidAIDS é relativamente simples. Há um grupo privado no WhatsApp no qual participantes podem conversar, conhecer outras pessoas e trocar experiências. Também estão previstos encontros virtuais semanais com Djair e os demais membros.
A proposta inclui ainda a participação de profissionais da área jurídica para conversar com os integrantes e prestar orientações relacionadas a direitos. O primeiro encontro aconteceu na quinta-feira, 20 de agosto. Dos 27 assinantes cadastrados naquele momento, 15 participaram.
Djair conta que a reação das pessoas mudou sua avaliação sobre o futuro do projeto. “Os 15 participantes presentes — dos 27 assinantes atuais — se sentiram muito felizes por fazer parte da comunidade. Isso me fez enxergar que a iniciativa já foi bem acolhida e com certeza tem um caminho longo pela frente.”
A experiência, segundo ele, confirmou algo que já observava nas mensagens recebidas pelas redes: para parte das pessoas vivendo com HIV, os avanços biomédicos conquistados ao longo das últimas décadas não eliminaram questões relacionadas ao afeto, ao estigma e ao pertencimento.
São pessoas que podem estar em tratamento, estudar, trabalhar, construir relações e levar uma vida com qualidade, mas que ainda relatam medo de contar o diagnóstico ou de serem rejeitadas quando o HIV aparece em uma conversa ou relação afetiva.
É nesse espaço que Djair pretende atuar. “Eu também me senti sozinho por muito tempo e ainda me sinto sem apoio em alguns momentos”, diz.
Como funciona a entrada na comunidAIDS
A comunidAIDS é uma iniciativa paga. No primeiro mês, o valor da assinatura foi definido em R$ 14,90. Djair explica que o preço levou em consideração o caráter experimental dessa fase e o momento em que a proposta foi lançada.
“O primeiro mês está custando R$ 14,90 porque a comunidAIDS foi criada durante um projeto que precisava ser entregue em 5 dias, no fim do mês — período em que nem todos têm condições, ainda mais ao falarmos de uma comunidade vulnerável.”
Para os próximos meses, a ideia é trabalhar com um valor inicial de pelo menos R$ 15.
Podem participar pessoas vivendo com HIV e também aquelas que convivem diretamente com essa realidade. O acesso ocorre por meio do link da comunidAIDS disponibilizado na bio do Instagram de Djair.
Depois da inscrição, há uma etapa adicional. Segundo Djair, antes de autorizar a entrada no grupo destinado a pessoas vivendo ou convivendo com HIV, ele conversa individualmente com o interessado.
“O grupo é totalmente privado. A pessoa só recebe o link após realizar o pagamento e, antes de aceitar a solicitação para entrar, faço uma entrevista com a pessoa para conhecê-la e me certificar de que ela realmente vive ou convive com o HIV.”
A preocupação com privacidade tem peso especial em um espaço no qual podem circular informações sobre diagnóstico, relacionamentos e aspectos íntimos da vida.
Para Djair, que já teve a própria sorologia compartilhada sem consentimento no ambiente de trabalho, estabelecer critérios de entrada também dialoga com uma experiência pessoal de perda de controle sobre essa informação.
Pessoas que não vivem com HIV, mas desejam apoiar financeiramente a iniciativa, também podem fazer uma assinatura. Elas não são direcionadas ao mesmo grupo. Segundo Djair, após a conversa inicial, passam a integrar outro espaço, no qual recebem conteúdos produzidos por ele, entre eles receitas.
Primeira arrecadação será destinada a uma associação de Aracaju
A comunidAIDS também incorporou uma proposta de apoio a organizações que atuam junto a pessoas vivendo com HIV. Djair afirma que o valor arrecadado com as primeiras assinaturas será destinado à Associação O Bom Samaritano, em Aracaju.
A escolha, novamente, não foi aleatória. “Eu escolhi essa associação porque é a única que conheço na minha cidade, Aracaju, que presta serviços sociais para pessoas vivendo com HIV em vulnerabilidade social. Como fui ajudado por eles, quero utilizar minha visibilidade para ajudar também.”
Com o encerramento da atividade do Empretec nesta sexta-feira, 21 de agosto, Djair pretende contabilizar as assinaturas feitas até as 14 horas e divulgar quanto foi arrecadado e o total destinado à organização.
A proposta muda a partir dos próximos meses. Se a comunidAIDS continuar funcionando, 30% do valor arrecadado com as assinaturas deverá ser destinado a uma associação que trabalhe com pessoas vivendo com HIV, segundo Djair.
Ele afirma que pretende divulgar nas redes sociais o número de assinantes e os valores envolvidos nas doações. Também deverá ser disponibilizado um canal para quem quiser contribuir voluntariamente com valores destinados a instituições de apoio a pessoas vivendo com HIV.
A comunidade existe; o aplicativo ainda é um projeto

O que nasceu em cinco dias não termina com o curso. Depois da primeira reunião virtual e da adesão inicial, Djair diz ter concluído que a comunidAIDS deve permanecer.
“Com o primeiro encontro online que aconteceu nesta quinta-feira, percebi que a comunidAIDS vai continuar e tem um grande potencial de crescimento. A comunidade já é uma realidade: nasceu a partir do curso e vai continuar após ele.”
A ideia original de desenvolver um aplicativo também continua nos planos. Segundo Djair, três pessoas decidiram entrar como sócias depois de conhecer o projeto, perceber a resposta do público e identificar potencial para o desenvolvimento do negócio.
“O aplicativo também será desenvolvido o mais breve possível, pois consegui três sócios que acreditaram no meu negócio, viram o potencial de mercado e notaram a boa aceitação do meu público. Acredito que só precisa de mais planejamento para fazer com que o aplicativo comunidAIDS seja uma realidade.”
Por enquanto, portanto, é importante separar as duas etapas: o aplicativo ainda precisa ser desenvolvido; a comunidade, com grupo no WhatsApp e encontros online, já está funcionando.
Do lugar que faltava ao espaço que começa a existir
Há uma diferença importante entre o projeto concebido no início do Empretec e aquilo que surgiu ao final dos cinco dias. A primeira ideia era uma plataforma.
O que Gabis Amaral, Fabio Atual, Ste Maria e Djair Gomes construíram durante o curso foi a possibilidade de testar antes aquilo que deveria existir por trás da tecnologia: se pessoas vivendo com HIV querem um espaço para se encontrar, conversar e criar vínculos umas com as outras.
Os primeiros 27 assinantes não são suficientes para determinar o futuro da iniciativa. O aplicativo ainda precisa de planejamento, a comunidade começa agora a enfrentar o desafio de crescer e preservar a privacidade dos integrantes, e o modelo de financiamento terá de mostrar se consegue se sustentar para além da experiência inicial.
Mas há algo que o primeiro encontro já permitiu a Djair perceber. Aquelas pessoas que durante anos chegavam separadamente à sua caixa de mensagens começaram a conversar entre si.
E isso devolve a comunidAIDS à frase que talvez melhor explique por que ele decidiu liderar o projeto. “Sinto que não existe uma comunidade que me abrace.”
Para Djair, pelo menos, o teste já deixou de ser apenas um exercício de empreendedorismo. É também uma tentativa de construir, coletivamente, o lugar que ele próprio diz ter procurado por tanto tempo.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Djair Gomes
Instagram: @soudjair




