
A avenida Paulista, principal palco de manifestações políticas no Brasil, foi ocupada neste domingo (2) pela comunidade LGBT+ durante a 28ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Cenário recorrente de demonstrações da extrema-direita que tem como uniforme a camisa da seleção brasileira e adornos verdes e amarelos, desta vez o local ficou ainda mais colorido com a adição das cores do arco-íris. Inspirada pela apresentação de Madonna no Rio de Janeiro em que ela cantou com Pabllo Vittar vestindo as cores nacionais, a comunidade LGBT+ decidiu ressignificar os símbolos do país e festejou sob o tema “Basta de Negligência e Retrocesso no Legislativo – Vote consciente por direitos da população LGBT+”.
Em recente entrevista , Nelson Matias Pereira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), destacou que ao longo dos anos, os temas abordados pela Parada não foram celebrações apenas, mas aclamações por direitos fundamentais, como a ratificação o do nome para pessoas trans, o casamento homoafetivo, a criminalização da LGBTfobia, entre outras tantas importantes conquistas. “Este ano o tema convoca cada um a refletir sobre o poder do nosso voto e exigir representantes comprometidos com políticas afirmativas inclusivas. Mais do que o voto consciente, nós precisamos ter o voto crítico. Só assim mudaremos esse cenário caótico que vivemos nas casas legislativas, que há anos insistem em nos colocar como cidadãos de segunda categoria”, afirmou.

O evento foi marcado pela presença de diversas figuras políticas de destaque, como a deputada federal Érika Hilton, que discursou à multidão. “Não abriremos mão da nossa humanidade. Marcharemos nesta tarde retomando a bandeira brasileira nas nossas mãos”, disse. Ela também pediu que as pessoas não deixem de votar nas eleições deste ano e de escolher políticos que representem a comunidade. “Um dia todos nós subiremos a rampa do Palácio do Planalto”, também afirmou levando todos ao êxtase. O senador Eduardo Suplicy, que participa do evento desde sua primeira edição em 1997, também esteve presente. “Vim manifestar a minha solidariedade, respeito e carinho para com a população LGBT+”, ressaltou.

Os movimentos sociais que lutam pelos direitos das pessoas vivendo com HIV/aids também desfilaram na avenida. O trio da saúde, como foi apelidado, contou com integrantes do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids), do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e Aids, da Rede Nacional de Travestis e Transexuais Vivendo com HIV e Aids, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/aids e da Rede Nacional de Pessoas Idosas Vivendo com HIV e Aids. Com apoio da AHF Brasil e da Impulse, os ativistas chamaram a atenção para a importância da saúde integral das pessoas vivendo com HIV/aids, que só no Brasil somam mais de 1 milhão. Entre eles estava o infectologista Vinícius Borges, conhecido na internet como Doutor Maravilha, que celebrou o novo momento político do Brasil em que a extrema-direita foi derrotada nas últimas eleições presidenciais de 2022. “A gente está vendo o que a ciência pode fazer para ajudar as pessoas vivendo com HIV. Precisamos mostrar que viver com o vírus é possível e com qualidade de vida, que é o quarto 95 que a gente tem falado agora nos Congressos. Além dos 95% detectados em tratamento e intransmissíveis, precisamos levar qualidade de vida para as pessoas. Será que é medicamento injetável, menos tóxicos, injeções semestrais ou semanais? E, claro, sempre combater o estigma. A ciência também tem que acompanhar esse avanço político”, afirmou.

Lucian Ambrós, psicanalista e criador de conteúdo e idealizador do projeto Posithividades, lembrou a importância de se construir políticas públicas para a comunidade LGBT+. “Pra mim, que vim do Rio Grande do Sul, de uma cidade super transfóbica e homofóbica, falar sobre políticas públicas pra comunidade é importante pra gente conseguir mudar a maneira como as pessoas nos veem. A gente precisa trazer o HIV para a política e encontrar candidatos que queiram falar sobre essa pauta e, claro, votar neles”, disse.

O ativista Américo Nunes, do Instituto Vida Nova, celebrou sua 28ª participação na Parada SP. “É um momento de alegria, felicidade, mas também é um ato político, um momento de reivindicar direitos e não deixar que aconteçam retrocessos no legislativo”. Ele também se disse satisfeito em trazer a temática do HIV/aids para a avenida Paulista. “São milhões de pessoas que vão poder ler a nossa mensagem e perceber que a aids continua afetando a nossa comunidade e a gente precisa dar visibilidade para a pauta e exigir melhores políticas públicas de saúde”.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)



