Lenacapavir: ativistas protestam após simpósio da Gilead e exigem acesso ao novo medicamento contra o HIV

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Manifestação interrompeu o protocolo do evento patrocinado pela farmacêutica e cobrou redução dos preços, acesso às novas tecnologias de prevenção e justiça social para populações mais afetadas pela epidemia

O debate sobre os avanços da prevenção ao HIV ganhou um desfecho inesperado na tarde desta segunda-feira (28), durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026). Logo após o simpósio patrocinado pela Gilead, intitulado Prevention Through Partnership: How Can We Collaborate to Help End New HIV Transmissions?, representantes de movimentos sociais ocuparam o espaço com cartazes e palavras de ordem, denunciando o alto custo dos medicamentos, os cortes no financiamento internacional e a lentidão na incorporação de novas tecnologias para as populações mais vulneráveis.

A mobilização tomou conta do pavilhão principal do Riocentro poucos minutos após o encerramento da sessão, reunindo ativistas de diferentes países que transformaram o corredor da conferência em um ato público.

Entre os gritos mais repetidos estavam: “A ganância das farmacêuticas está nos matando.”; “Comprimidos custam centavos. A ganância custa vidas.”

Os manifestantes também reforçaram que o enfrentamento da epidemia depende de justiça social e acesso universal à inovação. “Não queremos apenas sobreviver. Queremos viver. Não queremos desigualdade. Queremos justiça.”

Após deixarem o espaço onde ocorreu o simpósio, os manifestantes seguiram pelos corredores do Riocentro e chegaram até a sala de imprensa da conferência. No local, permaneceram por alguns instantes, mas não realizaram manifestação nem interromperam o trabalho dos jornalistas.

Discurso de parceria contrastou com reivindicações por acesso

O protesto ocorreu imediatamente após um simpósio que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde e representantes da sociedade civil para discutir estratégias de ampliação da prevenção ao HIV por meio de parcerias entre governos, serviços de saúde e organizações comunitárias.

Na abertura, a pesquisadora Dra. Valdiléa Gonçalves Veloso destacou que acabar com novas transmissões exige a união entre ciência, sistemas de saúde, formuladores de políticas e liderança comunitária. 

Durante a apresentação, a pesquisadora tailandesa Dra. Nittaya Phanuphak alertou que a América Latina está entre as poucas regiões do mundo onde as novas infecções por HIV cresceram desde 2010. Segundo ela, a região ainda enfrenta baixa cobertura da PrEP, persistência do estigma e obstáculos estruturais que impedem o acesso à prevenção. Também ressaltou que o fortalecimento da liderança comunitária e a redução da discriminação são essenciais para alcançar as metas globais da UNAIDS. 

Na segunda parte da sessão, a infectologista Dra. Maria Filipe Medeiros apresentou experiências brasileiras voltadas à população trans, defendendo que a prevenção precisa ser construída junto às comunidades e adaptada às suas realidades.

“Nada sobre nós sem nós”, afirmou ao destacar iniciativas de educação comunitária, comunicação digital e integração da terapia hormonal com os serviços de PrEP para ampliar o acesso dessa população aos serviços de saúde. 

Ao responder a uma das perguntas do painel, Dra. Medeiros também afirmou que muitos serviços de saúde ainda reproduzem práticas transfóbicas e defendeu a inclusão efetiva da população trans na formação dos profissionais de saúde e na construção das políticas públicas. 

Ciência sem acesso não basta

Embora o simpósio tenha enfatizado a importância das parcerias comunitárias, da inovação e da prevenção centrada nas pessoas, o protesto evidenciou uma das principais tensões presentes nesta edição da conferência: a distância entre os avanços científicos e o acesso efetivo às novas tecnologias.

Os manifestantes chamaram atenção para o fato de que medicamentos inovadores, incluindo novas estratégias de prevenção, continuam inacessíveis para grande parte da população mundial devido aos altos preços, barreiras regulatórias e à redução do financiamento internacional para programas de HIV.

A manifestação reforçou uma mensagem recorrente ao longo da AIDS 2026: o fim da epidemia não dependerá apenas do desenvolvimento de novas tecnologias, mas também de decisões políticas capazes de garantir que essas inovações cheguem às pessoas que mais precisam.

Ao ocupar o espaço logo após um simpósio dedicado à colaboração entre diferentes setores, os ativistas deixaram claro que, para eles, parceria também significa compromisso com acesso, equidade e justiça social.

Outro lado

Procurada pela Agência Aids, a Gilead foi questionada sobre as reivindicações apresentadas pelos manifestantes, incluindo o alto custo das novas tecnologias de prevenção e tratamento e as críticas relacionadas ao acesso global aos medicamentos. Até o fechamento desta matéria, a empresa não havia se manifestado, o espaço segue aberto.

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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