Da prevenção à transferência de tecnologia, painelistas defenderam que o futuro da resposta ao HIV depende da participação efetiva da juventude, da redução das desigualdades e de decisões políticas baseadas em direitos.
A resposta global ao HIV precisa ser redesenhada para enfrentar uma nova realidade política, econômica e social. Esse foi o consenso da sessão “O que vem a seguir? Jovens líderes moldando o futuro da resposta ao HIV”, realizada durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026).
Em formato de conversa, o painel reuniu jovens lideranças que atuam na linha de frente da resposta ao HIV na África, América Latina e América do Norte. O debate mostrou que o futuro da epidemia dependerá menos de considerar a juventude apenas como público-alvo e mais de reconhecê-la como protagonista na formulação de políticas, no financiamento, na organização dos serviços e na construção de soluções.
Participaram da discussão Nomonde Ngema (HER Voice Fund, África do Sul), Karl Schmid (Plus Life Media & K-ABC Television, Estados Unidos), Horacio Barreda (Jóvenes Positivos LAC, Argentina), Shamin Jr Mohamed (LetsStopAIDS, Canadá), Silvia Okoth (Bar Hostess Empowerment and Support Program, Quênia) e Levi Barak Singh (SRHR Africa Trust, África do Sul).
Financiamento precisa deixar de ser temporário
Logo no início da sessão, Karl Schmid afirmou que a resposta ao HIV deveria ser planejada considerando que o financiamento internacional pode desaparecer.
“Se estivéssemos projetando a resposta ao HIV do zero, eu faria isso como se o financiamento fosse acabar. Isso mudaria completamente nossa forma de pensar.”
De acordo com o ativista, muitos programas alcançam excelentes resultados, mas desaparecem quando os recursos terminam. “Quando o dinheiro acaba, o programa acaba.”
Para Schmid, organizações comunitárias deveriam deixar de depender exclusivamente de financiamentos externos e passar a integrar permanentemente os orçamentos nacionais.
“As organizações comunitárias deveriam ser um item de linha nos orçamentos nacionais.”
Ele também criticou a forma como o acesso às novas tecnologias vem sendo negociado. “O acesso deveria ter sido negociado desde o início de todo esse processo.”
“Somos mais do que estatísticas”
A ativista queniana Silvia Okoth chamou atenção para a distância entre formuladores de políticas e as comunidades mais afetadas.
“Os tomadores de decisão nos veem como estatísticas. Quero dizer a eles que somos mais do que estatísticas. Somos mais do que números.”
Ao defender uma resposta ao HIV mais centrada nas pessoas, Silvia Okoth ressaltou que os indicadores epidemiológicos não podem ocultar as histórias e vulnerabilidades vividas por quem está por trás deles. Segundo ela, cada dado representa jovens que convivem diariamente com violência, pobreza, estigma e poucas oportunidades.
“Por trás de cada número há uma jovem enfrentando violência, pobreza, estigma e opções limitadas.”
Nesse contexto, argumentou que as comunidades afetadas devem deixar de ser apenas consultadas e passar a participar efetivamente dos espaços de decisão, definindo os rumos das políticas que impactam suas vidas.
“Vocês não precisam tomar decisões por nós. Precisamos estar à mesa para tomar nossas próprias decisões.”
Falando a partir da experiência de mulheres em situação de rua e trabalhadoras do sexo, ela afirmou que políticas de prevenção não podem ignorar necessidades básicas.
“Você não pode dar um preservativo para alguém que está com fome, porque não podemos comer preservativos.”
E acrescentou:
“Você não pode dar PrEP para alguém que não tem abrigo.”
Segundo ela, programas eficazes precisam considerar moradia, alimentação, proteção social e dignidade.
Política, e não apenas ciência
Levi Barak Singh afirmou que o maior desafio da resposta ao HIV atualmente não é científico, mas político.
“Não estamos necessariamente em um momento de transição científica. É mais uma transição política.”
Ele alertou que restam poucos anos para alcançar as metas de 2030.
“Faltam 55 meses de hoje até dezembro de 2030. Estamos ficando sem tempo.”
Na avaliação do ativista sul-africano, o movimento do HIV precisa aprender a dialogar com agendas mais amplas, como mudanças climáticas, conflitos, cobertura universal de saúde e segurança global.
“Precisamos nos reinventar como um movimento do HIV mais politicamente astuto.”
Ao refletir sobre os desafios para a próxima década, Levi Barak Singh argumentou que os avanços científicos, por si só, não serão suficientes para mudar o curso da epidemia. Na sua avaliação, transformar inovação em benefício concreto para as pessoas depende, sobretudo, de decisões políticas.
“A ciência pode nos mostrar o que é possível, mas a política determina quem pode acessar essas inovações.”
Essa discussão, acrescentou, passa necessariamente pela redução das desigualdades globais no acesso às novas tecnologias. Para o ativista, não é possível debater o futuro da resposta ao HIV sem enfrentar as barreiras à produção e ao compartilhamento de conhecimento entre os países.
“Não podemos falar sobre ciência sem falar sobre transferência de tecnologia.”
Saúde mental precisa ocupar lugar central
Horacio Barreda afirmou que a saúde mental ainda recebe menos atenção do que deveria dentro da resposta ao HIV.
“Todos estão falando sobre saúde mental, mas realmente não temos um conteúdo sobre o que isso significa.”
Segundo ele, o cuidado psicológico influencia diretamente a prevenção, o diagnóstico e a adesão ao tratamento.
“A saúde mental faz a diferença entre alguém que não vai ao serviço e alguém que o acessa.”
O argentino também relacionou sofrimento emocional, dificuldades econômicas e exclusão social às vulnerabilidades vividas pelos jovens.
Prevenção precisa falar a linguagem dos jovens
Na discussão sobre prevenção, Nomonde Ngema chamou atenção para a necessidade de adaptar a comunicação às realidades da juventude. Segundo ela, uma das perguntas que mais ouve de jovens evidencia o desafio de tornar a prevenção mais compreensível e relevante no cotidiano.
“Por que eu deveria ir à clínica para prevenção do HIV se não estou doente?”
Para a ativista, esse questionamento mostra que a resposta ao HIV ainda não conseguiu traduzir a prevenção para uma linguagem conectada aos modos de vida das novas gerações.
“Como comunicamos a prevenção do HIV de uma forma que se encaixe nos estilos de vida dos jovens?”
Ngema defendeu que estratégias sejam construídas observando comportamentos, cultura, mídia e formas de expressão das novas gerações.
“Quando dizemos que os jovens não são apenas beneficiários, mas cocriadores, isso é verdade.”
Ela também afirmou que jovens vivendo com HIV não querem apenas compartilhar histórias pessoais. “Não estamos aqui apenas para causar impacto emocional.”
Como exemplo de uma abordagem mais acolhedora, Nomonde Ngema compartilhou a experiência de criar um espaço de convivência para meninas vivendo com HIV. A proposta não estava centrada em consultas ou intervenções clínicas, mas em oferecer um ambiente onde elas pudessem conviver, criar vínculos e viver a adolescência sem o peso constante do diagnóstico.
“Eu queria um espaço social para que as meninas simplesmente existissem.”
O impacto da iniciativa, contou, ficou evidente na avaliação feita por uma das participantes, que resumiu a experiência em uma frase que a marcou profundamente:
“Pareceu um longo e pesado suspiro de alívio.”
Criminalização continua sendo obstáculo
Representando o Canadá, Shamin Jr Mohamed alertou que a criminalização da exposição ao HIV continua crescendo.
Ao abordar o impacto da criminalização na vida das pessoas vivendo com HIV, Shamin Jr Mohamed chamou atenção para a realidade canadense, onde, segundo ele, o país registra algumas das mais altas taxas de processos judiciais relacionados às leis que obrigam a divulgação do status sorológico.
“No Canadá temos algumas das maiores taxas de processos relacionados às leis de divulgação do status de HIV.”
Apesar desse cenário, o ativista observou que a maioria dos jovens sequer conhece a existência dessas legislações, o que evidencia a distância entre as normas e a informação disponível para a população.
“Em nosso estudo, 96% dos jovens canadenses não conhecem as leis de divulgação.”
Na avaliação de Mohamed, o problema não se restringe ao Canadá. Ele lembrou que o relatório mais recente do UNAIDS aponta, pela primeira vez, um aumento dos indicadores relacionados à criminalização do HIV, reforçando a necessidade de enfrentar esse tema como parte da resposta global à epidemia.
Música não é culpada
Durante debate com a plateia, Horacio Barreda respondeu a uma pergunta sobre músicas que abordam sexo sem preservativo.
Ao responder a uma pergunta da plateia sobre letras de músicas que abordam o sexo sem preservativo, Horacio Barreda rejeitou a ideia de que artistas ou influenciadores sejam responsáveis pelo aumento das infecções por HIV. Para o ativista argentino, a produção cultural apenas reflete as transformações e dificuldades vividas pelos jovens em seus territórios.
“A música reflete o que está acontecendo nas comunidades.”
Na avaliação de Barreda, o foco do debate deve estar no enfraquecimento das políticas públicas de prevenção e no desinvestimento em saúde sexual, e não na responsabilização dos músicos.
“Não podemos culpar os músicos por um orçamento que está diminuindo.”
Ele lembrou que campanhas de prevenção também desapareceram em muitos países. “O governo parou de falar sobre campanhas de prevenção há muito tempo.”
Juventude não é futuro: é presente
Uma das falas mais marcantes da sessão foi feita por Levi Barak Singh ao criticar a forma como a juventude costuma ser tratada.
“Os jovens não são difíceis de alcançar. Nós é que somos difíceis de alcançar.”
Segundo ele, muitos serviços continuam organizados conforme horários, linguagens e prioridades das instituições, e não das pessoas.
Levi Barak Singh também provocou uma reflexão sobre a maneira como a juventude costuma ser retratada na resposta ao HIV. Para ele, a ideia frequentemente repetida de que “os jovens são o futuro” acaba adiando o reconhecimento de seu papel no presente.
“‘Os jovens são o futuro’ é o elogio mais caro que existe.”
Na avaliação do ativista, jovens lideranças já sustentam boa parte da resposta à epidemia e precisam ser reconhecidas, valorizadas e remuneradas por esse trabalho.
“A liderança jovem não é apenas uma etapa de preparação. É uma força de trabalho.”
Um exercício de futuro: como os jovens imaginam a resposta ao HIV em 2036
Ao final da sessão, o moderador lançou um desafio aos participantes: imaginar qual seria a principal manchete sobre a resposta ao HIV em 2036. As respostas revelaram uma visão compartilhada de um futuro construído com mais integração, justiça e protagonismo juvenil.
Para muitos dos painelistas, a transformação começa pela forma como os sistemas de saúde se organizam. A expectativa é que, na próxima década, a integração deixe de ser apenas um conceito e se torne uma realidade capaz de oferecer um cuidado mais completo às pessoas vivendo com HIV. “Daqui a dez anos, a manchete que espero que estejamos discutindo é a integração. Quão bem-sucedida foi a integração, como desafiamos nossas próprias suposições e como tudo se resolveu”, afirmou Nomonde Ngema, acrescentando que espera ver a liderança juvenil “deixar de ser abstrata” e se concretizar de fato.
O debate também apontou que o futuro da resposta à epidemia dependerá menos da velocidade das descobertas científicas e mais da capacidade política de transformá-las em acesso. Levi Barak Singh resumiu essa expectativa ao afirmar que espera viver o momento em que “a coragem política e a clareza moral finalmente alcancem a velocidade vertiginosa com que a ciência está avançando”, lembrando que adolescentes africanos continuam morrendo de uma doença evitável.
A visão de um cuidado verdadeiramente centrado nas pessoas também apareceu entre os desejos para a próxima década. A expectativa é que nenhuma pessoa seja excluída dos avanços científicos por causa de sua origem ou condição social. “Vamos garantir que adotemos uma abordagem centrada na pessoa, de modo que qualquer pessoa, independentemente de sua origem, de onde vive ou de seu histórico, possa desfrutar dessas intervenções”, destacou Silvia Okoth.
As projeções para 2036 também incluíram metas ousadas. Horacio Barreda afirmou esperar um mundo sem recém-nascidos adquirindo HIV e defendeu “uma cura acessível e gratuita para todas as pessoas com HIV”. Na mesma linha, Shamin Jr Mohamed imaginou uma década inteira sem novas transmissões entre menores de 25 anos, a ponto de a discussão sobre quem financiou essa conquista perder importância diante do resultado alcançado.
Fechando o exercício, Nomonde Ngema sintetizou o sentimento que permeou todo o debate. Sua manchete para 2036 seria simples: “Conseguimos. Eliminamos a AIDS até 2036”, seguida de uma nova conversa, desta vez dedicada a compreender como essa conquista foi possível.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.



