O protagonismo da juventude brasileira esteve no centro do 1º Encontro Estadual da Juventude no Advocacy em HIV e Tuberculose, realizado nos dias 19 e 20 de março, no Pará. O evento, segundo os organizadores, se consolidou como um marco político e formativo ao reunir jovens, movimentos sociais, gestores públicos e instituições na construção de estratégias para enfrentar duas das principais epidemias de saúde pública no país.
Ao longo da programação, foi reforçado que respostas efetivas ao HIV e à tuberculose passam, necessariamente, pela participação ativa da juventude, sobretudo aquela mais impactada por desigualdades sociais.
Na abertura, a promotora de Justiça Elaine Carvalho Castelo Branco destacou o caráter estratégico do encontro. “Este é um espaço de advocacy. É dar visibilidade ao que muitas vezes permanece invisibilizado e transformar informação em mobilização”, afirmou.
Juventude no epicentro das epidemias
No Brasil, o HIV e a tuberculose atingem de forma significativa a população jovem, especialmente entre 20 e 34 anos, faixa etária que concentra grande parte dos novos casos. Esse cenário é agravado por fatores como racismo estrutural, pobreza e desigualdade no acesso a direitos básicos.
Representando o Ministério da Saúde, Thaís Rolla de Caux ressaltou que as doenças não podem ser dissociadas das condições sociais. “Mais do que falar de pessoas vulneráveis, precisamos compreender as condições que produzem essas vulnerabilidades”, disse.
Ela também destacou a importância de respostas intersetoriais, como o Programa Brasil Saudável, lançado em 2023, que articula diferentes ministérios no enfrentamento dos determinantes sociais dessas doenças. Apesar do avanço, apontou a necessidade de maior foco e investimento específico na juventude.

Cenário no Pará exige respostas urgentes
No Pará, a situação é considerada crítica. O estado registrou mais de 5 mil casos de tuberculose no último ano, com média de quase um óbito por dia. Para Cleison Martins, da coordenação estadual, o enfrentamento precisa ir além da abordagem clínica.
“Não podemos discutir tuberculose apenas sob a perspectiva da saúde. É preciso envolver educação, cultura e políticas sociais”, afirmou.
A relação entre HIV e tuberculose também foi destacada como um dos principais desafios. A tuberculose segue entre as principais causas de adoecimento e morte de pessoas vivendo com HIV, o que reforça a necessidade de estratégias integradas, especialmente voltadas à população jovem.
Juventude como agente de transformação
Durante o encontro, jovens ocuparam não apenas o lugar de público, mas de sujeitos políticos centrais. As discussões evidenciaram que, além de vivenciarem os impactos dessas epidemias, eles também constroem soluções, mobilizam territórios e ampliam o acesso à informação.
Para Laisa Souza, Coordenadora de IST/Aids do município de Ananindeua, o papel da juventude é estratégico, especialmente na comunicação e mobilização social. “Este encontro marca o início de um movimento mais estruturado da juventude no enfrentamento ao HIV e à tuberculose”, afirmou.
Representando a Rede de Juventudes Afetadas pela Tuberculose (RJAT), Igor Rosa destacou a importância da educação e da articulação entre redes. “Não há transformação social sem educação. Este é um espaço de formação e articulação entre grupos que compartilham desafios comuns”, disse.

Já Katiana Rodrigues, da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens vivendo com HIV/Aids, chamou atenção para barreiras persistentes no acesso à saúde. “Medo, estigma e discriminação ainda afastam muitos jovens do cuidado”, afirmou.
Desigualdade social como desafio central
A necessidade de considerar as condições de vida da juventude foi um dos pontos centrais do debate. A fala de Maria Elias, sobrevivente da tuberculose, evidenciou esse cenário. “Não é possível falar em adesão ao tratamento quando as pessoas não têm o que comer. A fome é uma das maiores violências”, declarou.
O debate reforçou que o enfrentamento ao HIV e à tuberculose depende de políticas públicas que garantam direitos básicos, como alimentação, moradia, educação e acesso à saúde de qualidade.
Articulação nacional e próximos passos
O encontro também marcou o fortalecimento da articulação entre redes juvenis em nível nacional, como a RJAT-Brasil e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens vivendo com HIV/Aids, apontando para uma agenda coletiva de incidência política.
A parceria entre gestão pública e sociedade civil foi apontada como fundamental para avançar nas respostas. “O movimento social nos provoca a avançar, e esse diálogo é essencial para garantir ações mais efetivas”, afirmou Reginaldo Júnior, da Secretaria Municipal de Saúde de Belém.

Mais do que um evento, o encontro consolidou uma diretriz: não há enfrentamento possível sem colocar a juventude no centro das políticas públicas. A expectativa é que as discussões se desdobrem em ações concretas, ampliando o acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento, além de fortalecer o controle social.
Como resumiram participantes, o advocacy não se encerra no encontro — ele começa a partir dele.
Igor Rosa, de Belém do Pará – especial para a Agência de Notícias da Aids




