Julho das Pretas: Ativista Maria Georgina considera que esteriótipos racistas tem comprometido a saúde de mulheres negras cis e trans, inclusive das que vivem com HIV

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Apesar dos avanços, as mulheres negras ainda enfrentam desafios significativos em relação à saúde. Disparidades na assistência médica, falta de acesso a informações relevantes, discriminação e falta de representação adequada nos serviços de saúde, violências físicas, sexuais e psíquicas, o cuidar do outro negligenciando o autocuidado, carência de rede de apoio, submissão financeira, dentre outras barreiras, são problemas enfrentados diariamente pelas mulheres pretas cis e trans. 

Todos estes aspectos ganham força de discussão no Julho das Pretas, mês da campanha que celebra a existência das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, uma data importante para reconhecer a luta e a resiliência dessas mulheres em suas jornadas pela igualdade, inclusão e pelo direito constitucional à saúde.

Para explorar os desafios que ainda esbarram na saúde e bem-estar integral das mulheres negras na América Latina e no Caribe – especialmente no Brasil –, a Agência Aids conversou com quem tem ampla experiência e vivência de base na nação que abriga quase 22 milhões de cidadãs autodeclaradas negras [junção de pretas e pardas]: Maria Georgina, mulher preta brasileira vivendo com HIV, integrante e representante em instância regional e nacional do MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas) – organização composta por mulheres vivendo com HIV/Aids, que trabalha questões relacionadas à aids, com o principal objetivo de lutar por políticas públicas de promoção a qualidade de vida das mais múltiplas mulheres vivendo e convivendo com o HIV/Aids.

A sergipana que acompanha de perto mulheres vivendo com HIV em situação de vulnerabilidade social, em casas de apoio, relata que o racismo sistêmico tem potencializado as necessidades em saúde das mulheres pretas e pardas, sobretudo das mulheres pretas. 

A militante entende que estas mulheres têm resistido e sido pilares fundamentais nas suas comunidades, enfrentando barreiras e desigualdades com coragem e determinação, apesar da discriminação enfrentada rotineiramente tanto dentro quanto fora dos serviços de promoção à saúde.

‘‘Eu que sou voluntária em casa de apoio e acompanho diariamente mulheres vivendo com HIV/aids vejo, e elas também relatam nas reuniões que temos, que quando entram em algum serviço de saúde as pessoas olham com olhar de julgamento”, falou.  

Corpos pretos

Os estereótipos que existem em torno de corpos pretos femininos se mostram extremamente prejudiciais, podendo implicar em uma série de disfunções na saúde e bem-estar integral, desde diagnósticos imprecisos, falta de confiança no sistema de saúde, até impactos na saúde mental, comprometendo toda uma cascata de cuidados. De acordo com Georgina, renda e nível de escolaridade são uns dos principais determinantes de quem vai ou não acessar um atendimento clínico humanizado e de qualidade.

Apesar de nos últimos anos ter havido progresso constante na escolaridade de mulheres negras, falando de Brasil, as disparidades salariais permaneceram. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que, no país, 63% das casas comandadas por mulheres negras com filhos de até 14 anos, estão abaixo da linha da pobreza, com US$ 5,5 per capita ao dia, o que corresponde a cerca de R$420 mensais. Este índice representa mais que o dobro de pontos percentuais se comparado à média nacional igualmente alarmante: 25% de toda a população está abaixo da linha da pobreza. Para mulheres brancas e com filhos, a proporção de casas abaixo da linha da pobreza é de 39,6%.

Outra pesquisa, denominada: Mulheres no Mercado de Trabalho, liderada pelo Instituto Locomotiva a pedido da consultoria iO Diversidade, revelou que no maior país da América Latina [Brasil], uma mulher negra recebe 55% menos que um homem branco cis. 

“Muitas de nós ainda hoje não chegam a uma faculdade e a um bom trabalho, e quando chegam é a base de muita luta”, explanou Maria. 

“É como se os direitos humanos fossem constantemente negados para nós pretas e pardas”, acrescentou ela que em seguida relatou que a maioria das mulheres assistidas em seu território sobrevivem do trabalho informal. “Pelos menos 80% não concluiu sua qualificação e vive de fazer unha, faxina, do trabalho de cuidadora…”.

“E até mesmo para ser cuidadora muitos não empregam e discriminam pela cor da pele”, complementou.

Cruzamento do machismo e do racismo 

Segundo a ativista, para aquelas que são mães e LGBT+, o cruzamento do machismo e do racismo consegue ser duplamente cruel, e a reprodução de preconceitos, estereótipos sexistas e lgbtfobicos são reais nos serviços e, inclusive dentro dos movimentos sociais. ‘‘Quando veem uma mãe negra questionam coisas que não questionam a uma mãe branca’’.

Ela chamou atenção para o fato, relacionando a questão ao Movimento de Luta contra a Aids, que é o seu principal campo de atuação voluntária e incidência política. “Recentemente um profissional de saúde questionou o que uma mulher queria em arrumar um filho sendo negra e ainda mais vivendo com HIV. Há pouco tempo também, uma pessoa que faz parte do movimento [de aids] me disse que eu não vou chegar a lugar nenhum com a minha cor e com meu jeito de vestir”, dividiu.

“Mulheres são hostilizadas não só pela patologia, mas por serem negras; o companheiro abandona, ficam sem rede de apoio, sofrem discriminação dos profissionais de saúde, e isso faz com que muitas acabem pensando em desistir do tratamento. Este é um embate que sempre temos travado’’.

Cidadania

Ainda segundo a defensora das mulheres pretas, a pandemia de Covid-19 escancarou e potencializou todas estas demandas que já eram emergentes antes do cenário epidêmico. “Na pandemia isso ficou muito claro, e não adianta ficarmos só na assistência, dar uma cesta básica… e a cidadania delas? Essa é uma questão de dignidade!”, destacou e lamentou: ‘‘Temos políticas de combate, mas ainda estamos aqui lutando contra tudo isso”.

Para Maria Georgina, o acesso ao direito básico à saúde segue não sendo equitativo entre mulheres negras e brancas. Este é o primeiro passo para emancipação e vida mais saudável, um compromisso político que requer múltiplos esforços, resgate da história, cultura e memória ancestral, que são ricas e diversas, com raízes que remontam a séculos de resistência, lutas e conquistas. Para a ativista, não há mais tempo a perder e o debate deve ser diário. ‘‘Não podemos falar sobre apenas neste mês, a gente continua sendo mulher negra o resto do ano. Enquanto estamos aqui falando, uma mulher negra pode estar morrendo, sendo agredida…’’, finalizou.

A campanha

O Julho das Pretas é um período de celebrações e reflexões dedicado a destacar vozes pretas femininas latino americanas e caribenhas. A campanha busca visibilizar relevantes contribuições à sociedade e conscientizar acerca das diversas desigualdades e desafios que persistem no dia a dia destas mulheres, trazendo uma reflexão coletiva sobre os avanços necessários na luta das mulheres negras. 

O “Julho das Pretas” teve início como uma iniciativa da Marcha das Mulheres Negras, ocorrida em 2015, em Brasília. Foi então a partir desse marco histórico, que o mês de julho foi escolhido como um momento para chamar a atenção para as questões específicas enfrentadas pelas mulheres negras, combinando a luta contra o racismo e o sexismo. Durante todo o mês, são realizados diversos eventos que englobam palestras, debates, manifestações culturais e outras atividades de conscientização, todas essas ações com o intuito de buscar fortalecer as mulheres afros, promover a igualdade de oportunidades e denunciar as múltiplas formas de discriminação ainda hoje existentes.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Maria Georgina

E-mail: ginamachadocidada@gmail.com

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