Julho Amarelo: Vacina contra hepatite B protege contra um dos cânceres mais letais do fígado e reforça importância da imunização

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Disponível gratuitamente pelo SUS, imunização impede a infecção pelo vírus da hepatite B, reduz o risco de cirrose e carcinoma hepatocelular e segue como uma das principais estratégias de prevenção durante o Julho Amarelo

Uma vacina capaz de prevenir câncer. Embora pouca gente saiba, essa é uma das vantagens da imunização contra a hepatite B, disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ao impedir a infecção pelo vírus, ela interrompe um processo que pode evoluir silenciosamente durante anos e resultar em cirrose e carcinoma hepatocelular, o tipo mais frequente de câncer de fígado. Durante o Julho Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre as hepatites virais, especialistas reforçam que ampliar a vacinação e a testagem continua sendo uma das estratégias mais eficazes para reduzir a doença e suas complicações.

Não se trata de um risco distante. A infecção crônica pelo vírus da hepatite B está entre as principais causas de câncer hepático no mundo e continua sendo um importante desafio para a saúde pública, apesar da existência de vacina eficaz há décadas e de tratamento disponível gratuitamente no SUS.

Segundo a infectologista e pesquisadora clínica em HIV, Dra. Patrícia Rady Müller, o desenvolvimento do câncer ocorre como consequência de um processo contínuo de inflamação e de alterações provocadas pelo próprio vírus nas células do fígado.

“O vírus da hepatite B é uma das principais causas do câncer de fígado. Quando o organismo tenta combater o vírus, ocorre uma inflamação persistente no fígado, que leva à morte e regeneração contínua das células, aumentando o risco de alterações genéticas. Além disso, a infecção pode evoluir para fibrose e cirrose, que por si só já são fatores de risco para o câncer”, explica.

A especialista destaca que o vírus também interfere diretamente no funcionamento das células hepáticas.

“O DNA do vírus pode se integrar ao DNA humano e ativar genes relacionados ao desenvolvimento do câncer. Além disso, algumas proteínas virais dificultam que o organismo elimine células alteradas, favorecendo sua multiplicação descontrolada”, afirma.

Como a vacina interrompe o desenvolvimento do câncer

A relação entre vacinação e prevenção do câncer ainda desperta dúvidas entre muitas pessoas. No entanto, o mecanismo é relativamente simples: ao impedir a infecção pelo vírus da hepatite B, evita-se toda a cadeia de eventos que pode culminar em cirrose e, posteriormente, em câncer de fígado.

“Quando fazemos uso da vacina contra a hepatite B, reduzimos muito a chance de adquirir o vírus e, consequentemente, diminuímos o risco das formas graves da doença e da evolução para o câncer de fígado”, explica a infectologista.

O princípio é semelhante ao da vacinação contra o HPV, amplamente reconhecida por prevenir diferentes tipos de câncer relacionados à infecção pelo papilomavírus humano.

Vacina é indicada para todas as idades

A vacina contra a hepatite B integra o Calendário Nacional de Vacinação e deve ser administrada ainda nas primeiras horas de vida. Em seguida, novas doses são aplicadas aos dois, quatro e seis meses de idade, por meio da vacina pentavalente.

Mas a proteção não é exclusiva da infância. Quem não foi vacinado ou não sabe se completou o esquema vacinal também pode — e deve — procurar uma Unidade Básica de Saúde.

“Adultos que não sabem se foram vacinados ou perderam a carteira de vacinação devem procurar uma Unidade Básica de Saúde para atualizar o esquema vacinal. Em geral, são indicadas três doses. Já pessoas imunocomprometidas podem necessitar de esquemas diferenciados, com quatro doses em maior concentração, conforme avaliação médica”, orienta.

A médica lembra ainda que trabalhadores da saúde precisam manter a vacinação atualizada devido ao maior risco de exposição ocupacional.

Pessoas vivendo com HIV exigem atenção especial

Embora a vacinação seja recomendada para toda a população, alguns grupos demandam acompanhamento diferenciado por apresentarem maior vulnerabilidade à infecção ou resposta imunológica reduzida.

Entre eles estão pessoas vivendo com HIV, pacientes com doença renal crônica, diabetes, doenças hepáticas graves, transplantados, pessoas em uso de medicamentos imunossupressores, pacientes oncológicos, indivíduos com doenças autoimunes e pessoas com erros inatos da imunidade.

“Nesses casos, pode ser necessário avaliar se a vacina produziu anticorpos suficientes por meio do exame anti-HBs, realizado geralmente entre 30 e 60 dias após o término do esquema vacinal”, explica Dra. Patrícia.

Nas pessoas vivendo com HIV, essa avaliação é especialmente importante. Dependendo do grau de imunossupressão, a resposta à vacina pode ser menor, tornando fundamental verificar se houve produção adequada de anticorpos e, quando necessário, adotar esquemas vacinais específicos e acompanhamento contínuo.

Hepatite B ainda é um desafio para a saúde pública

Mesmo com vacina eficaz disponível há décadas e tratamento oferecido gratuitamente pelo SUS, a hepatite B continua representando um importante desafio para a saúde pública brasileira.

Hepatite B - Portal Drauzio Varella

Entre 2000 e 2024, o Ministério da Saúde registrou mais de 302 mil casos confirmados da doença. O número real, porém, pode ser muito maior. Estima-se que cerca de um milhão de brasileiros convivam com o vírus, muitos sem sequer saber que estão infectados.

“A hepatite B pode permanecer assintomática por muitos anos. Estima-se que seis em cada dez pessoas infectadas desconhecem sua condição, o que reforça a importância da testagem e do diagnóstico precoce”, alerta a especialista.

O caráter silencioso da doença faz com que muitas pessoas só descubram a infecção quando já apresentam alterações importantes no fígado, o que aumenta o risco de cirrose e câncer hepático.

Prevenção vai além da vacinação

Embora a imunização seja a principal forma de prevenção, ela não é a única medida necessária para conter a transmissão do vírus.

O uso de preservativos nas relações sexuais, a não utilização compartilhada de objetos perfurocortantes — como lâminas de barbear, alicates de unha e escovas de dente —, o uso de materiais esterilizados em procedimentos como tatuagens, piercings e acupuntura, além da realização periódica de testes para hepatite B, continuam sendo medidas fundamentais.

No caso das gestantes, o pré-natal exerce papel decisivo para impedir a transmissão do vírus ao bebê.

“A vacinação completa, o acompanhamento durante a gestação e a realização dos testes disponíveis nas unidades de saúde são medidas fundamentais para reduzir a transmissão da hepatite B e proteger toda a população”, reforça a médica.

Diagnóstico precoce e acompanhamento salvam vidas

Para quem já vive com hepatite B, o acompanhamento médico periódico é indispensável para reduzir o risco de complicações e identificar precocemente alterações no fígado.

Esse seguimento inclui exames laboratoriais, ultrassonografia hepática, avaliação de marcadores tumorais, como a alfa-fetoproteína, e monitoramento da função do fígado. Dependendo das características de cada paciente, os exames podem ser realizados a cada seis meses ou em intervalos definidos pela equipe médica.

Em um cenário em que milhares de brasileiros ainda desconhecem que vivem com o vírus, especialistas defendem que ampliar a vacinação, incentivar a testagem e garantir o acompanhamento das pessoas diagnosticadas são medidas capazes não apenas de controlar a hepatite B, mas também de evitar cirrose, insuficiência hepática e um dos cânceres mais agressivos do aparelho digestivo.

“O acompanhamento adequado permite identificar precocemente alterações no fígado, reduzindo o risco de complicações como cirrose e carcinoma hepatocelular”, conclui Dra. Patrícia.

Hepatite B: entenda mais sobre a doença

Saiba como se proteger da hepatite B

A vacina contra a hepatite B é gratuita e está disponível nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) para pessoas de todas as idades.

Recém-nascidos
A primeira dose deve ser aplicada preferencialmente nas primeiras 24 horas de vida. Em seguida, o esquema é completado aos dois, quatro e seis meses de idade por meio da vacina pentavalente.

Crianças, adolescentes e adultos não vacinados
Quem nunca recebeu a vacina ou não sabe se completou o esquema vacinal deve procurar uma UBS para atualizar a caderneta. Na maioria dos casos, são recomendadas três doses.

Pessoas com maior risco de adoecimento
Pessoas vivendo com HIV, pacientes com doença renal crônica, diabetes, doenças hepáticas, transplantados, pessoas em tratamento com medicamentos imunossupressores, pacientes oncológicos, pessoas com doenças autoimunes e indivíduos com erros inatos da imunidade podem necessitar de esquemas vacinais diferenciados e avaliação da resposta à vacina por meio do exame anti-HBs.

Profissionais da saúde
Devem manter a vacinação sempre atualizada devido ao maior risco de exposição ocupacional ao vírus.

Gestantes
A realização do pré-natal, da testagem para hepatite B e da vacinação, quando indicada, é fundamental para evitar a transmissão do vírus para o bebê.

Fique atento

A hepatite B pode permanecer sem sintomas por muitos anos. Por isso, além da vacinação, é importante realizar a testagem quando houver indicação, utilizar preservativos nas relações sexuais, não compartilhar objetos perfurocortantes — como lâminas de barbear, alicates de unha e escovas de dente — e procurar atendimento médico em caso de dúvida sobre o esquema vacinal.

 

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista

Dra. Patrícia Rady Müller.

Instagram: @drapatriciaradymuller

Apoios