13/056/2014 – 15h20
A cena de idosos frequentando reiteradamente os balcões das farmácias para comprar medicamentos ao sabor da própria vontade não é assim comum quanto parece. Pelo menos no Brasil, onde os maiores adeptos da automedicação são, na verdade, os jovens. A comprovação foi feita pela segunda fase da “Pesquisa sobre o Uso Racional de Medicamentos no Brasil”, realizada pelo Instituto de Ciência Tecnologia e Qualidade (ICTQ).
O trabalho calculou que o consumo de medicamentos sem qualquer critério médico muda radicalmente de acordo com a faixa etária dos brasileiros. Entre os 16 e os 24 anos, 90,1% das pessoas chegam a se medicar sozinhas. Dos 56 anos em diante, o índice cai para 51,8%.
Consulta na internet
Na faixa de 25 a 40 anos, a automedicação chega a 77,5%. Já entre aqueles cuja idade varia de 41 a 55 anos, o total é de 66,7%. Segundo Marcus Vinicius de Andrade, diretor de pesquisas do ICTQ, esses dado podem ser atribuídos ao amadurecimento e a uma maior consciência sobre riscos entre os mais velhos:
"Na análise dos dados, vimos que, na terceira idade, há mais consciência sobre o uso inadequado de remédios, justamente porque os idosos podem já ter sofrido experiências negativas anteriores. Eles tendem a procurar mais os médicos, pois costumam ter problemas de saúde mais complicados. Isso impede o autoconsumo. Os jovens são mais desavisados, mais imediatistas. Eles não têm paciência de esperar consultas, vão direto aos sites de pesquisas e procuram o que acham que devem usar."
O risco à saúde, no entanto, ele ressalta, não é menor entre os mais jovens.
"Pode ocorrer até o contrário. Em grande parte dos casos, os jovens ainda não conhecem as predisposições genéticas que seus organismos apresentam para determinadas doenças. Assim, o risco pode ser maior, pois eles podem fazer uso de medicamentos totalmente desaconselhados", pondera.
Os dados do ICTQ também indicam que a automedicação está relacionada ao grau de instrução e à renda dos brasileiros. Paradoxalmente, quanto maior o nível de ensino, maior é o índice de autoconsumo de medicamentos. Entre os que têm ensino fundamental, o índice chega a 50,9%; para os que completaram o ensino superior, o total é de 84,8%.
Na disputa entre os sexos, homens e mulheres têm a mesma tendência percentual à prática: 76,7 % entre eles, 75,1 % para elas, na média de todas as idades.
Ter sempre um medicamente ao alcance das mãos para o consumo imediato faz parte do cotidiano de 54,4% da população no país. Essa parcela costuma carregar as pílulas diariamente na bolsa ou na carte ira — quase sempre, em condições inadequadas de armazenamento.
"Trata-se de um grupo que apresenta certa fobia de não carregar alguns medicamentos consigo. Eles querem ter algo sempre ao seu alcance. Nesses casos, além da automedicação, ainda há o risco de esses usuários estragarem os remédios, devida às más condições em que são guardados", avalia Andrade.
Não conferir a data de fabricação e vencimento também é hábito de 32,2% dos brasileiros, sendo que 75,5% dos homens e 76,5% das mulheres guardam as sobras dos remédios para consumo posterior, a qualquer tempo. Ao todo, 46,1% não leem as bulas, e 23,9% revelaram não entender as informações que elas trazem.
Uso abusivo de analgésicos
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores está relacionado ao uso de analgésicos. No total, 16,5% da população declaram consumir esse tipo de medicamento toda semana, para qualquer sintoma de desconforto. Para 65%, não há o hábito de consultar farmacêutico. Nessas situações, eles procuram somente o balconista ou o vendedor da farmácia.
"É um consumo extremamente abusivo. Essas pessoas provavelmente estão mascarando quadros clínicos mais complicados. Uma ação paliativa para resolver dores de cabeça, por exemplo, pode esconder problemas graves, como tumores", cogita o diretor do ICTQ.
O uso de antibióticos sem receita ainda é prática entre 18,4% da população; e o de medicamentos controlados, de tarja preta, atinge 8,2%.
A pesquisa quantitativa foi feita com 1.480 pessoas, entre os dias 25 de março e 3 de abril de 2014, em 12 capitais brasileiras. Na primeira fase do trabalho, avaliou-se que a automedicação no Brasil é praticada por 76,4% da população em geral.



