Se aprovada e incorporada ao SUS, alternativa poderá contribuir para esforços do país em direção à meta global da Unaids
Apesar dos significativos avanços científicos com tratamentos que permitem que pessoas vivendo com HIV tenham vidas longas e saudáveis, ainda encaramos números que nos lembram que a epidemia existe como um significativo problema de saúde pública. Dados recentes do Ministério da Saúde estimam que mais de 1 milhão de pessoas vivem com HIV/Aids no país e, em 2024, até novembro, mais de 60 mil novas pessoas foram vinculadas aos serviços de saúde pela primeira vez.
Diante desse cenário, a pergunta que nos move na infectologia não é mais apenas “como tratar”, mas “como oferecer prevenção para que as pessoas consigam, de fato, não contrair a doença”. A prevenção é, sem dúvida, um pilar estratégico nessa equação, tanto para a saúde individual quanto para o controle da epidemia em nível populacional, visando reduzir a transmissão e proteger populações vulneráveis.
Há, atualmente, diversas opções de prevenção disponíveis, que incluem: preservativos, PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) oral diária, uma ferramenta que ajuda a reduzir consideravelmente novos casos, PEP (Profilaxia Pós-Exposição), indicada para situações de risco, reduzindo a chance de infecção se iniciada idealmente nas primeiras 24h, não passando de 72h da exposição, e a mais recente é a PrEP injetável de longa ação.
A forma de prevenção deve ser uma escolha estratégica de cada indivíduo de acordo com o que mais se adequa ao seu estilo de vida. Mas ter mais opções disponíveis é fundamental para que essa escolha possa ser feita conforme as necessidades de cada um. Por isso, afirmo que o que estamos vivenciando é uma nova era de prevenção e combate ao HIV – que não somente pode aumentar a autonomia dos indivíduos, mas que também ajuda no enfrentamento de estigmas.
O estigma em relação ao HIV ainda é uma barreira monumental. Apesar do papel fundamental da PrEP oral, estudos mostram que 58% das pessoas escondem seus remédios por medo de julgamentos. Outras 30% perdem doses simplesmente porque não se sentem confortáveis em tomar comprimidos em determinadas situações.4 Fatores como esses podem ter um impacto direto na adesão.
A chegada da PrEP injetável de longa ação, como uma nova opção de prevenção, endereça essa dor. Com o acompanhamento regular para PrEP injetável, questões como estigma e desafios de adesão podem ser supridas, e a ação preventiva acontece no consultório, de modo que a vida cotidiana da pessoa transcorra sem estar permanentemente pautada pelo risco de infecção.
A prevenção moderna deve ter múltiplas opções: a pessoa escolhe o que melhor se adapta ao seu momento de vida, podendo migrar do oral para o injetável conforme sua necessidade. Independente da opção escolhida, há uma questão logística importante a ser lembrada: a pontualidade. Se no método oral o desafio é o “esquecimento diário”, no injetável é o “esquecimento bimestral”. Por isso, no consultório, criamos estratégias ativas, como tabelas de agendamento e lembretes digitais, para garantir que a pessoa não perca a janela de aplicação.
Curiosamente, essas vindas recorrentes ao serviço de saúde abrem uma porta valiosa para a prevenção combinada. O momento da aplicação é a oportunidade ideal para testagem de outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), atualização vacinal e conversas francas sobre saúde sexual. O usuário de PrEP é, hoje, um dos perfis mais conscientes e bem cuidados do sistema de saúde.
Sabemos que o Brasil é exemplo mundial na resposta à epidemia de Aids e tem um histórico de vanguarda na democratização do acesso à saúde. A avaliação de alternativas injetáveis para prevenção do HIV vem sendo discutida como uma possibilidade para ampliar opções de cuidado, especialmente para populações vulneráveis e regiões mais afastadas dos grandes centros.
Se aprovada e incorporada ao SUS, essa alternativa poderá contribuir para os esforços do país em direção à meta global da Unaids de reduzir o impacto do HIV até 2030. O futuro da prevenção não é mais uma promessa; ele já chegou e tem o potencial de mudar o curso da história da saúde no país.
* Álvaro Costa é médico infectologista do Hospital das Clínicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids




