Jornalistas defendem novas formas de contar a história da aids em meio à crise do financiamento global

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Como manter a epidemia de HIV na agenda da imprensa em um cenário de cortes no financiamento internacional, excesso de informação e mudanças no consumo de notícias? Essa foi a questão central do painel Rebuilding Global Health: HIV Reporting in a Brave New World, realizado nesta terça-feira (28) na 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro.

O debate reuniu jornalistas da Argentina, Estados Unidos, Quênia e Belize, além da presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS) e copresidente da conferência, Beatriz Grinsztejn.

A jornalista do New York Times, Apoorva Mandavilli, afirmou que a cobertura da resposta global ao HIV entrou em uma nova fase. Se no ano passado predominavam as manchetes sobre os cortes promovidos pelo governo norte-americano, agora o desafio é explicar uma realidade muito mais complexa, marcada por programas parcialmente preservados, organizações que desapareceram e países obrigados a assumir maior responsabilidade pelo financiamento de suas políticas de saúde. “Precisamos olhar além das manchetes para entender o que realmente está acontecendo”, resumiu.

O jornalista britânico David Cox observou que as redações têm buscado cada vez mais histórias que ofereçam perspectivas positivas, como pesquisas sobre cura, vacinas e novas formas de prevenção. Para ele, um dos principais desafios é transformar temas técnicos e institucionais em reportagens capazes de despertar o interesse do público sem perder o rigor científico.

Na mesma linha, Karl Schmid, da Plus Life Media, chamou atenção para o peso persistente do estigma. Segundo ele, grandes empresas de comunicação ainda tratam o HIV com cautela, enquanto produtores independentes e criadores de conteúdo conseguem abordar o tema com maior liberdade. Ao mesmo tempo, lembrou que jornalistas hoje disputam a atenção do público em um ambiente dominado por algoritmos e consumo acelerado de informação.

Representando o Quênia, Aidah Munzatsi destacou que muitos países africanos enfrentam outro obstáculo: a falta de jornalistas especializados em saúde e de recursos para acompanhar eventos internacionais como a Conferência de Aids. Para ela, ampliar a capacitação de comunicadores é fundamental para melhorar a qualidade da cobertura sobre prevenção, PrEP e medicamentos de longa duração.

A presidente da IAS, Beatriz Grinsztejn, também defendeu que a imprensa mantenha o foco tanto nos avanços científicos quanto nas barreiras para que essas inovações cheguem às pessoas. Ao comentar o lenacapavir, destacou a importância de acordos que permitam preços compatíveis com a realidade dos sistemas públicos de saúde e manifestou otimismo de que novas negociações possam ampliar o acesso às tecnologias de prevenção. Também alertou que o estigma e a discriminação continuam impedindo muitas pessoas de se beneficiarem dos serviços já disponíveis.

Ao final do painel, os participantes foram convidados a responder qual história gostariam de cobrir nos próximos doze meses. As respostas convergiram para um mesmo objetivo: mostrar não apenas os avanços da ciência, mas como garantir que eles se traduzam em acesso real à prevenção e ao tratamento para quem mais precisa.

Paulo Lyra, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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