
No Brasil, pessoas que vivem com HIV/aids, além de outros grupos específicos, já têm direito à vacina contra o HPV (Papilomavírus Humano), vírus que está diretamente relacionado ao desenvolvimento do câncer de colo do útero. Contudo, neste Janeiro Verde – mês que marca a Campanha Nacional de Conscientização Sobre o Câncer de Colo do Útero -, vale destacar que a imunização não é exclusiva a elas. Desde julho de 2024, pessoas sob uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) também passaram a ter acesso ao imunizante. Essa ampliação foi oficializada pelo Ministério da Saúde em julho do ano passado e está detalhada na Nota Técnica Nº 101/2024, publicada em 3 de julho. Clique aqui para acessá-la na íntegra.
Onde e como se vacinar?
Para se vacinar, basta comparecer a uma sala de vacinação e apresentar algum tipo de comprovação de uso da PrEP. Isso inclui o formulário de prescrição da vacina, a prescrição da PrEP, o cartão de seguimento ou até mesmo o próprio medicamento.

A Nota Técnica destaca que a oferta da vacina quadrivalente contra o HPV (HPV4) para usuários da profilaxia contempla pessoas de 15 a 45 anos.
Segundo dados do próprio Ministério, no Brasil, a prevalência geral do HPV é de 53,6%, sendo os tipos oncogênicos 16 e 18 os mais incidentes. Grupos como homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres trans são mais vulneráveis à infecção e às complicações relacionadas ao HPV, como o câncer anal. Por isso, o país tem investido na ampliação da cobertura vacinal, incluindo populações imunossuprimidas e aquelas que utilizam a PrEP.

A vacina HPV, disponível no SUS e na rede privada, protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus, prevenindo infecções graves e complicações, como cânceres e verrugas genitais. Sua eficácia e segurança são comprovadas, com resultados significativos na redução de infecções e lesões entre pessoas vacinadas.
Atualmente, o SUS oferece a vacina para os seguintes públicos alvos:
- Crianças e adolescentes de 9 a 14 anos: dose única;
- Pessoas imunocomprometidas de 9 a 45 anos: esquema de 3 doses;
- Vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos: esquema de 3 doses.
A vacina contra o HPV, já amplamente reconhecida como uma ferramenta crucial na prevenção de vários tipos de câncer, agora é foco de campanhas voltadas para usuários da profilaxia pré-exposição (PrEP). Em entrevista à Agência Aids, o infectologista Dr. Mateus Ettori Cardoso, do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids SP e da Casa da Pesquisa CRT, destacou a importância de ampliar a cobertura vacinal desse grupo.

O médico infectologista Mateus Ettori Cardoso do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (crédito: reprodução)
“A vacinação contra o HPV é uma das principais estratégias de prevenção ao câncer de colo do útero e outras complicações graves. Além disso, o HPV está relacionado a cânceres anal, orofaríngeo, de pênis e de vagina”, explicou o especialista. Ele ressaltou que, embora a PrEP proteja contra o HIV, ela não previne outras infecções sexualmente transmissíveis, como o HPV. “Usuários de PrEP, especialmente com múltiplos parceiros sexuais, podem estar mais expostos ao HPV, aumentando o risco de infecções persistentes e desenvolvimento de cânceres relacionados ao vírus”, disse.
Estratégias de prevenção integradas
Para garantir que todos os usuários de PrEP tenham acesso à vacina, o Dr. Mateus defende uma série de ações:
Formação de profissionais de saúde: Médicos, enfermeiros e outros profissionais devem estar bem informados sobre a vacinação contra o HPV e preparados para orientar e encaminhar pacientes.

Protocolos claros de encaminhamento: Facilitar a integração entre os serviços de PrEP e os postos de vacinação.
Campanhas informativas: Sensibilizar os usuários de PrEP sobre os benefícios e a segurança da vacina.
Educação nas unidades de saúde: Promover palestras e distribuir materiais informativos sobre a relação entre HIV e HPV.
Flexibilidade nos horários de vacinação: Adaptar os horários à rotina dos pacientes.

Monitoramento e avaliação: Acompanhar a adesão à vacinação e identificar barreiras ao acesso.
Barreiras ao acesso
Apesar dos esforços, desafios ainda dificultam a vacinação. Muitos usuários de PrEP desconhecem o risco aumentado de HPV, frequentemente associado à falta de informação integrada e ao estigma relacionado ao HIV e à sexualidade. Além disso, barreiras geográficas, custos indiretos, resistência à vacinação e a dificuldade de integrar os cuidados entre PrEP e imunização contribuem para a baixa adesão.
“O câncer de colo do útero e outros relacionados ao HPV são preveníveis. A vacinação, somada ao autocuidado e à realização de exames preventivos, é fundamental para reduzir esses riscos”, destacou o Dr. Mateus. Ele reforçou a importância de quebrar o estigma e garantir um ambiente acolhedor e inclusivo nos serviços de saúde.
Conscientização e prevenção

O especialista concluiu com um apelo: “É dever de todos fortalecer a educação em saúde, eliminar desigualdades e promover práticas de prevenção que salvam vidas. Vamos usar este momento para conscientizar e proteger mais pessoas”.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dr. Mateus Ettori Cardoso
E-mail: mateus.cardoso@crt.saude.sp.gov.br
Instagram: @mateus.cardoso43
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