Janeiro Roxo: em 10 anos, cidade de São Paulo reduz em 32% os casos de hanseníase

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Resultado é fruto de um trabalho contínuo e estruturado em toda a rede municipal de saúde da capital. Entre 2015 e 2025, foram capacitados 181.160 profissionais

O mês de janeiro é voltado à conscientização sobre a hanseníase, doença em que o Brasil ocupa a segunda posição mundial em número de diagnósticos, segundo o Ministério da Saúde. Na cidade de São Paulo, entretanto, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio de um trabalho sistemático e permanente, conseguiu reduzir em 32% o número de casos nos últimos 10 anos, tendo atingido a meta de controle estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de menos de um caso por 100 mil habitantes, desde 2010.

Dados da Divisão de Vigilância Epidemiológica (DVE), da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa) da SMS, apontam que a detecção da doença vem apresentando queda consistente ao longo dos anos. Em 2007, foram registrados 311 novos casos; em 2023, esse número caiu para 109, e em 2025, foram 100 novos diagnósticos.

A hanseníase é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, olhos e mucosas. É transmitida de pessoa para pessoa principalmente por secreções das vias respiratórias, como nariz e boca, e pelo contato íntimo e prolongado com indivíduos sem tratamento. A doença apresenta evolução lenta, com sintomas como manchas no corpo e perda de sensibilidade nos locais, que podem levar até cinco anos para se manifestar. A maioria das pessoas possui resistência natural e não desenvolve a doença, mesmo após o contato com pacientes infectados. Embora tenha cura, a hanseníase pode causar incapacidades se não for tratada adequadamente. O tratamento é feito por via oral, com a associação de dois ou três medicamentos, oferecidos gratuitamente na rede municipal de saúde e sem necessidade de internação.

Atualmente, a rede municipal realiza, em média, o tratamento de 180 pessoas por ano e acompanha mais de 600 pacientes após a alta, devido a complicações e incapacidades físicas decorrentes da doença. O tratamento é oferecido nos serviços de saúde e não exige internação. É importante destacar que a hanseníase, causada pelo bacilo de Hansen e que afeta principalmente a pele e os nervos, tem cura e que o paciente assim que inicia o tratamento medicamentoso, não transmite mais a doença.

O Brasil foi o primeiro país do mundo a instituir uma legislação que proíbe o uso de linguagem discriminatória contra pessoas com hanseníase, o que representa um avanço significativo para essa população e combate ao estigma da doença, anteriormente conhecida como lepra.

Queda na incidência reflete ações de prevenção e controle

Segundo Carlos Tadeu Maraston Ferreira, coordenador do Programa Municipal de Controle de Hanseníase (PMCH) da Prefeitura de São Paulo, os resultados obtidos na cidade são consequência direta das estratégias contínuas de controle/monitoramento, prevenção, diagnóstico precoce e orientação à população. “Os avanços alcançados seguem as políticas públicas da gestão municipal baseadas em três pilares: educação, disseminação de informações sobre os sinais da doença e manutenção da rede assistencial”, e, continua, “como também, a sensibilização dos profissionais da rede de atendimento, para o acolhimento, encaminhamento, tratamento e acompanhamento das pessoas acometidas pela hanseníase e seus familiares, seguindo a Linha de Cuidados de Hanseníase estabelecida no município desde 2013.”

Além disso, em São Paulo, uma das estratégias adotadas é a descentralização da vigilância. Com a autorização do paciente, equipes realizam visitas domiciliares para verificar se outros moradores podem ter sido expostos à doença. Também é analisado o histórico dos últimos cinco anos, com o objetivo de identificar contatos e possíveis locais de transmissão. “Por exemplo, se a pessoa mora em Santana, mas teve contato frequente com alguém do Jabaquara, a vigilância em saúde de Santana comunica a do Jabaquara para localizar esse contato e verificar se houve transmissão”, explica o coordenador. “Da mesma forma, se o paciente autoriza a visita em outro município ou estado, o PMCH encaminha essa informação para o respectivo local para que a Vigilância Epidemiológica local realize as ações competentes, visando o diagnóstico precoce, tratamento e controle da doença, pois somente quebrando a cadeia de transmissão e que conseguimos controlar e caminhar para a eliminação da hanseníase.”

São Paulo conta atualmente com 31 Unidades de Referência de Hanseníase (URHs), responsáveis pelo tratamento dos pacientes e de seus familiares. As URHs possuem equipes multiprofissionais capacitadas para atuar na assistência, vigilância e controle da doença. Além do tratamento medicamentoso e do acompanhamento médico, as unidades de referência contam com grupos de autocuidado voltados a pacientes com hanseníase.

No Hospital Dia Dr. Flávio Gianotti, localizado no bairro do Ipiranga, estão em tratamento atualmente 13 pacientes ativos, enquanto outros 30 permanecem em acompanhamento pós-alta. A paciente mais jovem tem 11 anos, mas a faixa etária média é de pessoas na faixa dos 40 anos. Na unidade, os pacientes passam em consulta a cada 29 dias para avaliação, início do tratamento sob dose supervisionada, além de realizar avaliações de incapacidade a cada três meses durante o tratamento. E, após a alta, eles continuam sendo avaliados por um período de cinco anos, passando em consulta periodicamente.

Carlos ressalta que um dos principais desafios enfrentados pelas equipes é o combate ao estigma ainda associado à hanseníase. “No passado, devido ao diagnóstico tardio, a doença causava mutilações e deformidades. Por isso, quanto mais informação e orientação, maiores são as chances de identificação precoce, encaminhamento adequado e início oportuno do tratamento, seguindo os fluxos e Linha de Cuidado de Hanseníase”, enfatiza.

O alcance da campanha Janeiro Roxo

O Programa Municipal de Controle de Hanseníase capacita profissionais da rede de assistência, como médicos, enfermeiros, agentes comunitários e outros trabalhadores das UBSs, para o diagnóstico e manejo da doença. Também recebem treinamento os profissionais das Unidades de Vigilância em Saúde (UVIS), responsáveis pela organização e logística das ações nos territórios. Entre 2015 e 2025, foram capacitados 181.160 profissionais da rede municipal para as atividades do Janeiro Roxo, o que corresponde a uma média anual de 18.116 mil pessoas.

De 2015 a 2025, somente durante as campanhas de hanseníase realizadas ao longo de janeiro, foram confirmados 231 casos entre 8.160 suspeitos avaliados. Em janeiro de 2024, as equipes alcançaram 1.842.155 munícipes, identificando 1.460 casos suspeitos, dos quais 360 foram encaminhados às URHs para investigação diagnóstica, resultando em 24 confirmações. Já na campanha de janeiro de 2025, foram realizadas 2.039.551 abordagens, com 1.649 suspeitos examinados e 14 casos confirmados.

Os profissionais da rede municipal também podem se capacitar por meio da plataforma da Escola Municipal de Saúde (EMS), que oferece um curso a distância com carga horária de 16 horas, dirigido a médicos e demais profissionais da saúde.

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