Janeiro Branco: saúde mental precisa ser cuidada o ano todo, alerta Instituto Vida Nova

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Ansiedade, depressão, solidão e estigma estão entre as principais demandas emocionais acompanhadas pela equipe da organização, que alerta para a importância do cuidado contínuo em saúde mental.

O Janeiro Branco chama atenção para a importância do cuidado com a saúde mental e da prevenção do sofrimento psíquico ao longo de todo o ano. Para pessoas vivendo com HIV, esse cuidado se torna ainda mais essencial diante do estigma, da solidão, das dificuldades familiares e das pressões cotidianas que podem impactar tanto o bem-estar emocional quanto a adesão ao tratamento.

Neste contexto, a Agência Aids ouviu o Instituto Vida Nova para entender quais são as principais demandas em saúde mental que chegam ao serviço e como esse acompanhamento tem sido realizado na prática. Quem fala é Vanessa Sodré, psicóloga do Instituto Vida Nova, que acompanha cotidianamente pessoas atendidas pela organização.

Ansiedade, depressão e conflitos familiares lideram as demandas

Segundo Vanessa, embora a sorologia para HIV ainda seja a principal porta de entrada das pessoas no Instituto, não é esse o fator que faz com que elas permaneçam em acompanhamento psicológico.

“As maiores demandas são ansiedade, depressão e conflitos familiares. A questão da sorologia aparece no começo, mas o que mais trabalhamos no dia a dia é saúde mental”, explica.

O estigma relacionado ao HIV também surge com frequência, especialmente ligado à dúvida sobre revelar ou não a sorologia para familiares, amigos ou parceiros. Ainda assim, a psicóloga reforça que ansiedade e depressão seguem sendo as questões mais prevalentes.

Estigma, relações afetivas e prevenção também entram na terapia

Quando o HIV e as ISTs aparecem nas sessões, muitas vezes o foco está na prevenção e nas relações afetivo-sexuais, especialmente em contextos de parcerias sorodiferentes.

Vanessa destaca que, mesmo com o conceito de indetectável=intransmissível, é fundamental falar sobre prevenção de outras ISTs. “Não transmite o HIV, mas existem outras infecções. A prevenção continua sendo importante”, afirma.

Ela chama atenção para as mulheres, que muitas vezes enfrentam dificuldade em negociar o uso do preservativo com parceiros. Essas conversas são trabalhadas de forma cuidadosa, respeitando as necessidades físicas, emocionais e individuais de cada pessoa, sempre com o objetivo de promover bem-estar e uma vida sexual segura.

Festas de fim de ano ampliam sofrimento emocional e solidão

O período de festas de fim de ano, segundo a psicóloga, costuma ser especialmente difícil. E isso não se restringe às pessoas vivendo com HIV.

“Existe uma pressão social para estar feliz o tempo todo. Para algumas pessoas é um momento de festa, mas para outras é de solidão, principalmente para quem perdeu familiares ou não tem com quem compartilhar esse período”, explica.

No Instituto Vida Nova, esse impacto é ainda mais sensível porque o espaço funciona como um lugar de convivência e pertencimento. Durante o recesso, muitos assistidos relatam solidão, rebaixamento de humor e sofrimento emocional. A equipe recebe mensagens e ligações mesmo fora do período regular de atendimento.

Com a retomada das atividades em janeiro, a equipe percebe que algumas pessoas que já haviam recebido alta terapêutica solicitam retorno ao acompanhamento, justamente por conta desse rebaixamento de humor pós-festas.

Falas de desesperança e abandono do tratamento acendem alerta

Entre os sinais que mais preocupam a equipe estão falas de desesperança, como o desejo de abandonar a medicação antirretroviral.

“Quando a pessoa fala que vai parar de tomar a medicação, isso é uma forma de autodestruição lenta. É algo que nos deixa muito atentos”, relata Vanessa.

A psicóloga explica que a equipe atua com escuta ativa, orientação e conscientização sobre a importância da adesão ao tratamento, além de ficar atenta a sinais de sofrimento mais intenso. Quando necessário, a rede de apoio é acionada, envolvendo familiares, amigos ou pessoas próximas, sempre com o objetivo de proteger a vida e o bem-estar do assistido.

Resistência ao cuidado psicológico ainda existe

Apesar da demanda crescente, ainda há resistência em buscar apoio psicológico. Segundo Vanessa, isso está ligado à ideia de que saúde mental não é uma “doença visível” e, por isso, acaba sendo desvalorizada.

“Muitas vezes uma gripe é mais valorizada do que uma depressão ou ansiedade. Ainda existe a ideia de que é frescura, falta de fé ou falta do que fazer”, afirma.

No Instituto, não é raro ouvir pessoas dizendo que não precisam de acompanhamento psicológico, que estão bem ou que querem apenas participar de atividades físicas, sem perceber a importância da escuta e do cuidado emocional.

Atendimento gratuito e caminhos de acesso

O Instituto Vida Nova oferece atendimento psicológico gratuito, tanto individual quanto em grupo, para pessoas que procuram a instituição.

Além disso, Vanessa aponta outros caminhos possíveis:

  • Serviços de Atenção Especializada (SAEs), alguns com atendimento psicológico;
  • Unidades Básicas de Saúde (UBSs);
  • CAPS, embora o acesso geralmente exija encaminhamento;

Faculdades com curso de psicologia, que oferecem atendimento à população a custo baixo ou simbólico.

“Quem quiser fazer psicoterapia pode procurar uma faculdade que tenha curso de psicologia. É um caminho acessível”, orienta.

Saúde mental não pode ser assunto de uma única campanha

Para a psicóloga, falar de saúde mental não pode se limitar ao Janeiro Branco ou ao Setembro Amarelo.

“A saúde mental faz parte do nosso corpo. Não existe corpo sem mente, nem mente sem corpo. Esse cuidado precisa acontecer todos os dias, o ano inteiro”, reforça.

Ela conclui destacando a importância de romper com o estigma de que apoio psicológico é “coisa de gente fraca” ou “coisa de gente louca”, e reforça que buscar ajuda é um ato de cuidado e responsabilidade consigo mesmo.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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