Pressões por recomeços, estigma persistente e o peso do silêncio tornam o início do ano um período sensível para quem vive com HIV. Doutora Dra. Rosana Zakabi, defende que o cuidado emocional precisa ir além do calendário e fazer parte do acompanhamento integral em saúde.
O início do ano costuma ser associado a recomeços, planos e expectativas renovadas. Mas, para muitas pessoas vivendo com HIV, janeiro pode acentuar sentimentos de angústia, ansiedade e sofrimento emocional. As cobranças simbólicas por “virar a página”, somadas ao estigma ainda presente na sociedade e, em alguns casos, nos próprios serviços de saúde, tornam a saúde mental um desafio permanente. No contexto do Janeiro Branco, especialistas alertam que falar de bem-estar emocional para essa população exige cuidado, escuta e continuidade, não apenas ações pontuais.
Para refletir sobre esse cenário, a Agência Aids ouviu a psicóloga e psicanalista Dra. Rosana Zakabi, que atua no atendimento clínico de pessoas em sofrimento psíquico, incluindo pessoas vivendo com HIV. Com experiência em saúde mental, luto, traumas e relações familiares, ela destaca que, apesar dos avanços médicos, o impacto emocional do diagnóstico e do estigma ainda marca profundamente a vida de muitas pessoas.

O peso simbólico do recomeço
Para a psicóloga e psicanalista, o início do ano carrega um significado que pode ser difícil de sustentar para quem ainda lida com conflitos internos relacionados ao diagnóstico.
“O início do ano dá a ideia simbólica de recomeço, de novos planos para o futuro. Para muita gente que tem HIV e não está bem resolvida com isso, pode surgir a pergunta: ‘recomeçar o quê?’”, afirma.
Ela lembra que esse mal-estar não é exclusivo de pessoas vivendo com HIV, mas pode ser intensificado nesse grupo.
“Janeiro é um período difícil para a população em geral. A ideia de recomeço pode gerar ansiedade, angústia e, em casos mais graves, depressão, principalmente em pessoas que sentem que não conseguem resolver seus problemas, sejam eles concretos ou emocionais.”
Avanços médicos não eliminam o sofrimento emocional
Apesar das transformações no tratamento do HIV ao longo das últimas décadas, o estigma ainda ocupa um lugar central no sofrimento psicológico.
“Por mais que a medicina tenha avançado incrivelmente e hoje não se morra mais da doença com tratamento adequado, além do conceito revolucionário do indetectável=intransmissível, o estigma de viver com HIV ainda existe”, explica Rosana.
Segundo ela, mesmo com o HIV sendo atualmente uma condição crônica controlável, o preconceito continua produzindo dor.
“Ainda existe a ideia equivocada de que ter HIV seria uma escolha. Isso é muito triste. Ninguém escolhe viver com HIV. Mas esse pensamento ainda circula na sociedade.”
Esse cenário leva muitas pessoas ao silêncio.
“Além de conviver com o vírus e com um tratamento para o resto da vida, muitas pessoas sentem que precisam esconder essa condição para não serem rejeitadas, inclusive por pessoas próximas. Isso gera culpa, vergonha e isolamento, sentimentos que não deveriam existir.”
Festas, família e preconceitos silenciosos
O período de festas de fim de ano, que antecede janeiro, também pode intensificar o sofrimento emocional.
“Na maioria das vezes, o preconceito não é verbal. Ele aparece em olhares, em mudanças de comportamento, em julgamentos silenciosos”, relata.
Segundo a psicóloga, essa vivência impacta diretamente a saúde mental.
“A pessoa sente que é tratada de forma diferente, muitas vezes acusatória, e isso machuca profundamente.”
Entre pessoas LGBTQIAPN+, a carga tende a ser ainda maior.
“Nesse caso, o sofrimento pode ser triplo: por ser LGBTQIAPN+, por viver com HIV e por carregar a falsa associação de que o vírus estaria ligado à sua sexualidade. É uma sobrecarga emocional enorme.”

O que não deve ser normalizado
Viver com HIV não significa abrir mão de uma vida plena, reforça a especialista.
“Pessoas vivendo com HIV precisam seguir uma vida normal, com alegrias, tristezas, planos e realizações, como qualquer outra pessoa.”
Alguns sinais, no entanto, exigem atenção.
“Não é normal, nem deve ser normalizada, uma tristeza constante, culpa permanente, vergonha por ter o vírus ou a sensação contínua de não ser igual aos outros.”
Quando buscar ajuda profissional
Para Rosana, o acompanhamento psicológico é um cuidado essencial.
“O sofrimento que exige mais urgência é aquele que se torna constante: tristeza, angústia e sintomas depressivos que não passam e começam a impedir a pessoa de viver, trabalhar ou até sair da cama.”
Quebrando a resistência ao cuidado psicológico
Ela observa que, nos últimos anos, houve uma mudança importante na forma como a saúde mental é encarada.
“Hoje está melhor do que no passado. Vejo pessoas vivendo com HIV buscando mais ajuda psicológica do que antes.”

Segundo ela, essa transformação acompanha um movimento social mais amplo.
“A terapia deixou de ser vista como algo para ‘loucos’. No caso do HIV, campanhas públicas e o trabalho das ONGs tiveram um papel fundamental para reduzir esse medo.”
Cuidar da mente também fortalece o tratamento
O impacto do acompanhamento psicológico vai além do alívio emocional.
“A psicoterapia ajuda a pessoa a lidar com sua condição de forma mais natural e com menos culpa. E quanto menos culpa existe, mais leve a vida pode se tornar.”
Esse processo também reflete no cuidado com a saúde.
“Isso favorece a adesão ao tratamento, porque a pessoa passa a se cuidar não por medo, mas por respeito a si mesma.”
O papel do poder público
Para a psicóloga, o acolhimento emocional deve integrar as políticas públicas de saúde.
“Campanhas constantes nas redes sociais, na imprensa e na mídia ajudam muito a reduzir o estigma.”
Ela ressalta a importância de ampliar a divulgação do conceito de indetectável=intransmissível.
“Essa informação precisa ser divulgada de forma responsável, mostrando que o tratamento vale a pena e que pessoas vivendo com HIV podem ter uma vida normal e saudável.”
No SUS, segundo ela, já existem iniciativas importantes.
“Os centros especializados costumam oferecer um bom acolhimento psicológico. Ainda falta investimento e divulgação, mas, de forma geral, vejo um trabalho sério sendo feito.”

Cuidado que vai além de janeiro
Ao falar de Janeiro Branco, Rosana reforça que a saúde mental não pode ser tratada como um tema restrito ao calendário.
“O cuidado emocional precisa ser contínuo. Não é algo que se resolve em um mês. Para pessoas vivendo com HIV, falar de saúde mental é falar de dignidade, de qualidade de vida e de direito ao cuidado integral.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
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Rosana Zakabi
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