Ideia segue influenciando diagnósticos tardios, invisibiliza mulheres, idosos e heterossexuais, e ainda impacta até a conduta de profissionais de saúde
“Eu sou casada”, “sou hétero”, “já passei dos 60”, “isso acontece com outras pessoas”. Décadas após o início da epidemia de HIV, a antiga noção de que existe um “grupo de risco” ainda molda a forma como muitos brasileiros enxergam o vírus e ajuda a explicar por que tantas pessoas seguem chegando tardiamente ao diagnóstico.
Para a infectologista dra. Patricia Rady Muller, a ideia permanece viva no imaginário popular e continua afastando pessoas da prevenção e da testagem. “As pessoas hoje em dia não têm noção, às vezes elas subestimam o risco, porque acham que o vírus é mais específico de uma população”, afirma.
Segundo a médica, a origem desse pensamento está diretamente ligada aos primeiros anos da epidemia, quando os casos estavam concentrados principalmente entre homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis. “Isso foi levado de geração para geração”, explica.
Hoje, porém, o reflexo desse estigma aparece justamente entre pessoas que não se enxergam como vulneráveis. Entre os grupos que mais demoram para perceber o risco, a dra. Patrícia destaca mulheres heterossexuais em relações estáveis e pessoas acima dos 50 ou 60 anos. “Esse é um dos principais grupos, porque elas ficam tranquilas no relacionamento, acham que pelo fato de estarem em um casamento, numa relação estável, não correm risco”, diz.
A consequência é silenciosa: muitas dessas pessoas deixam de realizar o teste de HIV durante anos. Em muitos casos, o diagnóstico só acontece quando o sistema imunológico já está comprometido e começam a surgir infecções oportunistas. “Muitas vezes a pessoa só vai descobrir quando a imunidade já abaixou, após muitos anos”, alerta.
Invisibilidade também existe dentro dos consultórios

A infectologista afirma que o problema não está apenas na percepção da população, mas também na forma como parte dos profissionais de saúde ainda associa o HIV a determinados perfis.
“Às vezes até o próprio profissional da saúde não percebe esse risco”, afirma. Segundo a médica, mulheres casadas frequentemente passam anos sem receber sequer a oferta de um teste, mesmo em consultas de rotina.
A dra. Patrícia relata ainda que pacientes já chegaram ao consultório contando experiências marcadas por julgamento moral e preconceito. “Alguns profissionais falaram de forma punitiva: ‘teve relação com mais de uma pessoa e acabou pegando o vírus’”, conta.
Pessoas LGBTQIA+, especialmente homens gays e pessoas trans, seguem relatando medo de procurar serviços de saúde por receio de discriminação. Mas o estigma também atinge heterossexuais, principalmente aqueles que acreditam não “combinar” com a imagem social construída em torno do HIV. “Todos somos vulneráveis a adquirir o HIV”, reforça a médica.
Campanhas ainda deixam parte da população de fora
Embora campanhas de prevenção sejam mais frequentes hoje do que em décadas anteriores, dra. Patricia avalia que muitas continuam direcionadas aos mesmos públicos ou aparecem apenas em períodos específicos, como o Carnaval. “As campanhas ou são focadas para grupos mais vulneráveis, ou em épocas de maior exposição”, afirma.
Enquanto isso, pessoas fora desse imaginário tradicional acabam não se reconhecendo nas mensagens sobre prevenção. O resultado é uma falsa sensação de imunidade.
A médica destaca ainda que muitas pessoas sequer conhecem estratégias atuais de prevenção além do preservativo, como a PrEP (profilaxia pré-exposição) e a PEP (profilaxia pós-exposição). “Muita gente não sabe nem que isso existe”, diz.
Para a infectologista, o combate ao HIV precisa começar dentro dos consultórios, independentemente da especialidade médica. “Nós, profissionais da saúde, devemos conversar sobre isso com todos os pacientes, não importa orientação sexual ou estado civil.”
Relações estáveis ainda dificultam conversas sobre prevenção

Outro obstáculo aparece dentro dos próprios relacionamentos. Segundo relatos, muitas mulheres enfrentam desconfiança ou acusações ao sugerirem o uso de preservativo em relações estáveis.Para Patrícia, isso revela uma dificuldade social em tratar prevenção como cuidado e não como sinal de traição.
“A pessoa maior interessada na nossa prevenção é a gente mesma”, afirma. “Se temos liberdade para ter uma relação sexual com alguém, devemos ter liberdade para conversar sobre prevenção.”
Jovens perderam o medo, mas não o risco
Entre os mais jovens, a médica observa uma relação diferente com o HIV. Ao contrário das gerações que acompanharam o auge da epidemia e viram mortes públicas relacionadas à aids, muitos cresceram já convivendo com a ideia do HIV como uma condição tratável. “O público mais jovem encara o HIV como algo mais habitual, porque conhece pessoas que vivem com o vírus e estão bem fisicamente”, explica.
Apesar dos avanços no tratamento, dra. Patricia alerta que o HIV continua sendo uma infecção crônica sem cura e que exige acompanhamento contínuo. “O fato de viver com HIV é conviver com uma doença crônica. Mesmo com tratamento, o vírus traz impactos para a saúde e exige cuidados”, afirma.
Ampliar o debate sobre testagem e romper de vez com a lógica dos “grupos de risco” é essencial para frear diagnósticos tardios e ampliar a prevenção, comenta Patrícia: “Precisam existir mais campanhas para testagem. Muitas pessoas não testam porque ainda acreditam que só quem está doente pode viver com HIV.”
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dra. Patrícia Rady Müller.
Instagram: @drapatriciaradymuller




