
Esta sexta-feira foi o dia da comunidade Trans desfilar suas cores e pautas pelas ruas da cidade de São Paulo. A 7ª Marcha do Orgulho Trans saiu do Largo do Arouche, deu uma volta pelo centro da cidade e voltou ao lardo para as apresentações de Majur, Jaloo, Cidão Furacão e os blocos de carnaval Feminista, Bloco Siga Bem Caminhoneira, Bloco de Lésbicas e Bissexuais e o Bloco Drag.
Diversos ativistas e personalidades estiveram presentes, entre eles o produtor de conteúdo Luca Scarpelli, a candidata a vereadora Carolina Iara, a antropóloga Pisci Bruja e a estilista Issac Silva.
A marcha acontece anualmente de acordo com o calendário internacional em comemoração ao Mês do Orgulho LGBTQIAP+ e é considerada a maior manifestação de protagonismo de Travestis, pessoas Transgêneros Binárias e Não Binárias da América Latina.
Confira alguns destaques.

Ariadne Ribeiro, Oficial de Igualdade e Direitos da UNAIDS: Apesar de a gente aqui no Brasil ter a maior parada LGBT do mundo, as pautas específicas da população trans merecem uma atenção específica pois têm sido as mais atacadas. Os direitos conquistados pela população trans mundialmente têm sido os mais atacados. E é importante que a gente mostre a nossa visibilidade, mostre que nossas reivindicações não cabem nas reivindicações que já estão postas para o resto da comunidade e que a gente merece ser tratado como cidadão, como qualquer outra pessoa. Para isso, é que existe o princípio da equidade. É oferecer um pouco mais, é fazer alguns ajustes para que nosso direito à cidadania. A saúde, os direitos fundamentais de todos os seres humanos sejam assegurados. Eu acho que a gente tá vivendo um momento histórico no qual, pela primeira vez, a gente se vê representada na política. É muito difícil para qualquer população que foi marginalizada socialmente, historicamente apagada, invisibilizada, quando chega na política, existe sim uma percepção de que nós existíamos há muito tempo e que sempre fomos apagadas. Num ano de eleições como esse, o que a gente espera é que cada vez mais a gente tenha sempre os cargos eletivos representativos da população que a gente tem no Brasil, que é diversa, que é multicultural, que é multilíngue, né? A gente tem tantas línguas que não são faladas, mas que são as línguas originárias do nosso Brasil. Então, representação política é tudo. E a gente precisa garantir que as pessoas mais vulneráveis, ou que representam populações mais vulneráveis, também consigam chegar, porque elas fazem a transformação e conseguem ter o olhar de equidade, que muitas vezes não é possível de quem está numa outra perspectiva.”

Isaac Silva, estilista: “É bom a gente ressignificar o que pertence a nós, né? Então, é muito importante a gente saber que a gente sabe quem são as pessoas que não nos quer vivas e que a gente pode pegar os símbolos que pertencem a todo mundo e dizer ‘nós estamos aqui no mundo buscando igualdade’. A gente quer que as pessoas sejam mais humanizadas.

Pajé A-yá da etinia Kukamíria da Amazônia: “Nós, povos indígenas, somos povos que temos uma sabedoria muito simples, mas muito profunda. Entendemos de terra, entendemos de natureza e entendemos que, em sua sabedoria, os frutos, as sementes, as plantas são diversidades, assim como os seres humanos. E entendemos que, apesar de termos tanta diversidade na natureza, quando estamos juntos, a gente constitui harmonia. É isso que é natureza. E assim são as pessoas, se elas quiserem. Podemos todos nos harmonizar e viver bem, se assim quisermos. Eu estou aqui principalmente como uma força da natureza, como uma representante do meu povo, como um ser vivo que respeita outros seres vivos, suas mentes, seus corações, seus corpos e sua fala, sua voz e sua vez. A importância desse momento aqui é a importância de dar força a falas, a pessoas e a vidas que não são entendidas e que não são vividas, que em sua maioria morrem sendo suprimidas. Nós, povos indígenas, sabemos exatamente como é isso, há mais de 500 anos, e a gente não quer ver ninguém mais passando por isso.”

Luca Scarpelli, produtor de conteúdo: “Eu acho que a Marcha Trans é de suma importância. Se a gente pensar que o Brasil é um país extremamente violento para pessoas LGBT, e aí quando a gente faz o recorte trans, isso piora muito. Eu acho que é muito importante as crianças crescerem sabendo que ser trans é uma possibilidade, porque eu acho que é diferente da minha geração, que isso não era apresentado como uma possibilidade. Eu vejo que isso acarretou nas pessoas da minha geração e mais velhas um sofrimento de não se ver em lugar nenhum, de não entender que a sua possibilidade de existência é válida. Eu brinco com os meus amigos que eu vivi duas vidas em uma só. Com certeza, pelo menos pra mim, a transição foi um renascimento, finalmente eu consegui respirar Acho que a renascença tem tudo a ver com a vivência trans porque é quando você consegue se enxergar pela primeira vez na sua pele, se olhar e falar ‘nossa eu sou eu’.”

Carolina Iara, candidata a vereadora pelo PSOL-SP: “A gente precisa falar de HIV, da vivência com HIV, das pessoas trans e de toda a população que vive com HIV, que é mais de um milhão de pessoas aqui no Brasil. É muito importante que esse assunto não seja mais clandestino, não dá pra falar de transfobia, sem falar do estigma e discriminação da aids, e sem falar do papel que a epidemia de movimento de HIV/aids tiveram também na construção dos movimentos sociais LGBTQIA+, historicamente, aqui no país. É por isso que eu estou hoje vestida de prata, porque é um dia e uma noite de gala das travestis, das pessoas trans, das pessoas não binárias, trans -masculinas, e porque o vermelho também do HIV num laço, no meio do meu peito, representa todas as minhas trajetórias que estão no meu corpo.

Pisci Bruja, antropóloga: “Eu acho que esse tema da renascença é muito simbólico, porque o processo de transição diz muito sobre esse encontro com você, para além do que está estabelecido como única possibilidade natural. E quando você se conecta com você, você tem a possibilidade de ressignificar esses processos, transicionar, entender isso como uma possibilidade muito forte, muito bonita. Este momento que a gente está é sobre o fortalecimento coletivo, que ajuda a gente entrar nesse processo de autoconhecimento, e quem sabe inspirar a sociedade a também a transicionar. Transicionar suas instituições, o seu conhecimento, o seu olhar, a forma como as relações acontecem, ou a gente vai afundar num mar de lama, como a gente já está afundando. Então, inspirações para um novo mundo a gente está dando, espero que as pessoas se sensibilizem para também se autoconhecer.”
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)


