
Na 13ª Conferência Internacional da Sociedade de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), realizada em julho, em Kigali, Ruanda, a integração dos serviços de HIV ao sistema de saúde mais amplo foi apresentada como resposta prática à redução do financiamento internacional. No entanto, vozes da sociedade civil e especialistas alertaram: sem planejamento, sensibilidade e participação comunitária, a integração pode comprometer décadas de avanços no enfrentamento da epidemia.
“Integrar não é uma solução mágica para os desafios da resposta ao HIV. Precisamos refletir criticamente sobre como chegar a diferentes populações que necessitam de cuidados”, afirmou Caroline Bulstra, pesquisadora da Harvard Chan School of Public Health. “Não existe uma única fórmula. É preciso avaliar o que funciona em cada contexto.”
Modelos de integração: o que está em jogo?
Durante o evento, especialistas destacaram três formas principais de integração:
* No nível do serviço, combinando o atendimento ao HIV com doenças não transmissíveis, saúde sexual e reprodutiva, tuberculose ou saúde mental.
* No nível funcional, incorporando o HIV aos sistemas operacionais do SUS, como financiamento, dados, logística e recursos humanos.
* No nível da direção, definindo se a prestação de cuidados será vertical (separada), horizontal (distribuída) ou diagonal (usando o HIV para fortalecer todo o sistema).
Embora muitos países relatem avanços, como a capacitação de profissionais de saúde generalistas e a continuidade no fornecimento de antirretrovirais, especialistas lembraram que continuidade não significa, necessariamente, qualidade.
“Coordenação logística não é sinônimo de cuidado digno”, alertaram representantes da sociedade civil. Avaliar resultados apenas pelo custo ou pelo volume de atendimento esconde os impactos reais da integração sobre populações vulneráveis.
Quando a integração exclui
David Black, ativista do Malaui, relatou que a falta de sensibilidade de profissionais em serviços integrados pode gerar constrangimento e afastar usuários. “Se sou parte de uma população-chave e procuro atendimento para uma IST anal, o profissional me pergunta por que ela não está na vagina ou no pênis. Isso me afasta do cuidado”, relatou.
Nesse cenário, os serviços liderados por comunidades — que tradicionalmente oferecem apoio livre de estigma e centrado na pessoa — estão entre os mais ameaçados pela queda no financiamento global.
“A única forma de acabar com a aids como ameaça à saúde pública é garantindo que as comunidades permaneçam como coração e cérebro dessa resposta”, afirmou a ativista queniana Rosemary Mburu, na abertura da conferência. “A jornada para o fim da pandemia não está nos papéis de políticas públicas, mas nos ombros das comunidades que sempre sustentaram essa luta.”
O que funciona na prática?
A chamada “integração significativa” exige mais do que eficiência: pede investimento, valorização do conhecimento das redes de pares e mecanismos flexíveis de financiamento.
“Precisamos integrar e financiar o que funciona para garantir equidade”, disse Meghan DiCarlo, consultora independente em HIV. “Se cortarmos o que funciona em nome da eficiência, perderemos vidas.”
Entre as soluções apresentadas, destacam-se:
* Reconhecimento e financiamento das redes de pares, especialmente entre populações-chave. “Como integrar as pessoas que já seguram a maior parte do trabalho? Nós, das redes, precisamos ser incluídas como parte da força de trabalho”, defendeu Patricia Asero, ativista do Quênia. Essas redes oferecem acompanhamento, educação em saúde, rastreamento de contatos e apoio entre gestantes vivendo com HIV.
* Investimento em sistemas de dados desagregados, para revelar desigualdades no acesso e nos resultados da atenção. Isso inclui monitorar os marcos da meta 95-95-95 entre populações-chave e entender os custos reais dos serviços.
* Financiamento flexível e sustentável, que permita autonomia das organizações comunitárias frente à instabilidade de doadores. Alguns grupos, segundo os debatedores, já geram renda por meio de negócios próprios – de serviços de saúde pagos à venda de sistemas de dados ou salões de beleza.
* Inclusão de organizações comunitárias em esquemas de financiamento público, como seguros de saúde e cobertura universal. No entanto, há preocupação de que a prevenção esteja sendo deixada de lado frente ao foco maior no tratamento.
* Aproveitamento do setor privado, especialmente farmácias, para ampliar o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) e ao tratamento antirretroviral. “Mesmo nos EUA, há quem prefira pegar seus medicamentos em redes como Walgreens ou CVS, pela discrição e praticidade”, exemplificou Kenneth Ngure, presidente eleito da IAS.
Centralidade das pessoas, não dos sistemas
Integrar serviços de HIV ao sistema de saúde não pode significar padronizar modelos ou diluir a especificidade do cuidado. Ao contrário, exige respeito à diversidade de ofertas e à experiência acumulada das comunidades mais afetadas.
“Modelos diferenciados e serviços comunitários devem ser parte fundamental da integração”, concluiu a pesquisadora Caroline Bulstra. “E precisam estar conectados aos sistemas nacionais – sem perder sua essência.”
Redação da Agência Aids com informações do Aidsmap


