Cem anos depois de sua morte, Emílio Marcondes Ribas voltou a ocupar o centro do palco onde sua história nunca deixou de pulsar. Na manhã desta sexta-feira (19), no auditório do Instituto de Infectologia que leva seu nome, ciência, memória e emoção se encontraram em uma homenagem histórica ao médico sanitarista que marcou a saúde pública brasileira, reunindo autoridades da saúde, pesquisadores, gestores públicos, profissionais do SUS, familiares e representantes da sociedade civil para celebrar um legado construído com coragem, ética e compromisso com a vida coletiva.
Mais do que uma cerimônia comemorativa, o encontro reafirmou o papel do Instituto Emílio Ribas como herdeiro direto de uma trajetória marcada pela defesa da ciência, da ética médica e do cuidado coletivo — valores que seguem orientando, até hoje, a atuação da instituição 100% SUS.

A programação teve início com um pocket show de chorinho da Banda Musical Zequinha de Abreu, da cidade de Santa Rita do Passa Quatro (SP), território profundamente ligado à história de Emílio Ribas. A escolha da apresentação não foi casual: Zequinha de Abreu e Ribas foram contemporâneos e vizinhos na cidade, simbolizando o encontro entre cultura, ciência e vida comunitária que marcou aquele período histórico.
“Celebrar Emílio Ribas é reafirmar nosso compromisso com a ciência e com o SUS”

Na abertura oficial, o diretor do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Dr. Luiz Carlos Pereira Júnior, destacou o caráter simbólico e político da homenagem. “Este evento não é apenas um marco histórico, mas um tributo necessário ao patrono da saúde do Estado de São Paulo. Celebrar os 100 anos de sua partida é reafirmar nosso compromisso com a ciência, com a ética médica e com a luta incansável contra as doenças infecciosas — algo absolutamente atual”, afirmou.
Segundo o diretor, o legado de Emílio Ribas não pertence apenas ao passado, mas está inscrito na identidade institucional do hospital. “O comprometimento com a saúde pública, com o SUS e com o cuidado coletivo não é apenas uma diretriz de gestão. É uma construção histórica, que atravessa décadas, desde o tempo de Emílio Ribas.”
Dr. Luiz Carlos também destacou a importância da comunicação e da preservação da memória institucional, citando iniciativas como a série *Emílio Ribas em Preto e Branco*, publicada semanalmente nas redes sociais do hospital, que aproxima a trajetória do sanitarista das novas gerações.
Santa Rita do Passa Quatro e o resgate da história

Presente ao evento, o prefeito de Santa Rita do Passa Quatro, Dr. Marcelo Simões, ressaltou a profunda ligação do município com Emílio Ribas — que foi o primeiro intendente (prefeito) da cidade — e apresentou iniciativas locais voltadas ao resgate histórico e ao fortalecimento da saúde pública.
“Santa Rita respira cultura, história e saúde pública. Emílio Ribas viveu ali, construiu laços e deixou marcas profundas. Hoje, temos orgulho de resgatar essa história e de seguir investindo em um projeto de saúde pública forte, com impacto regional e estadual”, afirmou.
O prefeito também anunciou investimentos do Governo do Estado na reestruturação do antigo hospital da cidade, que será transformado em referência estadual, com recursos do SUS Paulista, reforçando a continuidade do legado sanitarista iniciado ainda no início do século XX.
Emílio Ribas, o Guerreiro da Saúde

O ponto alto da programação foi a palestra magna “Emílio Marcondes Ribas, o Guerreiro da Saúde”, ministrada pelo médico, historiador e biógrafo Dr. José Lelis Nogueira, referência nacional nos estudos sobre a vida e a obra do sanitarista. Visivelmente emocionado, o pesquisador afirmou:
“Nós somos a família emiliana. Emílio Ribas se confunde com a própria história da saúde pública brasileira. Ele foi um precursor, um visionário, alguém que enfrentou o negacionismo científico de sua época com coragem e compromisso ético.”
Com mais de 50 anos dedicados à pesquisa sobre Ribas, Dr. José Lelis foi enfático ao denunciar a invisibilização histórica do sanitarista. “Posso afirmar, sem medo de errar, que Emílio Ribas ainda não recebeu o reconhecimento que merece. Ele foi o pioneiro da renovação sanitária no Brasil. Foi aqui, em São Paulo, que nasceu uma nova doutrina de combate às doenças infecciosas que impactou o mundo.”

O pesquisador lembrou que São Paulo declarou a febre amarela extinta em 1903, cinco anos antes do Rio de Janeiro, mas que, ainda assim, o nome mais associado à luta contra a doença segue sendo o de Oswaldo Cruz. “Quando se fala em febre amarela no Brasil, o primeiro nome que vem à mente é Oswaldo Cruz. Mas foi Emílio Ribas quem pavimentou esse caminho. Ele foi o precursor. E a história, por muito tempo, foi injusta com ele.”
Segundo o biógrafo, essa desigualdade de reconhecimento não se deu por disputas pessoais, mas por fatores políticos e simbólicos. “Oswaldo Cruz atuava no Rio de Janeiro, então capital da República. Emílio Ribas atuava em São Paulo. Além disso, Ribas não era um homem da mídia. Ele não se preocupava em construir sua própria memória. Ele se preocupava em fazer.”
Coragem científica e ética radical
Durante a palestra, Dr. José Lelis detalhou episódios emblemáticos da trajetória de Ribas, como a decisão histórica de se deixar picar por mosquitos infectados, ao lado de Adolfo Lutz e voluntários, para comprovar cientificamente a transmissão da febre amarela. “Foi aqui, neste prédio, que nasceu uma nova doutrina de combate à febre amarela — não apenas para São Paulo ou para o Brasil, mas para o mundo.”
O pesquisador também destacou a postura ética do sanitarista, que recusou honrarias financeiras e privilégios políticos. “Emílio Ribas acreditava que o Estado não deveria carregar no colo seus bons servidores. Ele aceitou apenas um diploma de honra ao mérito. Isso diz muito sobre quem ele era.”
Entre os episódios lembrados estiveram a histórica Batalha de Jaú, quando Ribas isolou doentes para conter a epidemia; a criação das bases do Instituto Butantan; o incentivo à construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão, voltada ao tratamento da tuberculose; e a defesa de uma abordagem humanizada no cuidado de pessoas com hanseníase.
O biógrafo apresentou ainda novos achados históricos, como o registro de casamento de Emílio Ribas, realizado em São Paulo, e documentos raros que ajudam a compreender sua relação com Santa Rita do Passa Quatro e com a capital paulista.
Ao longo do evento, foi exibido um vídeo institucional produzido com apoio de inteligência artificial, inspirado em relatos científicos da época, que retrata os experimentos conduzidos por Emílio Ribas e Adolfo Lutz para comprovar a transmissão da febre amarela. A produção emocionou o público e reforçou o caráter ousado, científico e ético das ações do sanitarista.
Reflexões sobre ciência, política e SUS

Na sequência, sob mediação da Dra. Glória Brunetti, um debate reuniu Dr. José Lelis, Dr. Eduardo Pandini, Kleber Bortolo e o diretor do Instituto, aprofundando reflexões sobre a relação entre ciência, política e saúde pública.
Para Dr. José Lelis, Ribas foi, acima de tudo, um homem político — no sentido mais nobre da palavra. “Ele não fazia política pequena. Ele fazia política da vida, da saúde coletiva. Seu maior medo não era enfrentar epidemias, mas ser contaminado pelo vírus da inércia, ficar preso à burocracia.”
Já o diretor do Instituto, Dr. Luiz Carlos Pereira Júnior, fez a ponte entre passado e presente ao afirmar que o SUS carrega, em sua essência, os valores defendidos por Ribas. “Emílio Ribas não conheceu o SUS, mas sonhou com ele. A defesa intransigente da saúde pública, universal e gratuita, é herança direta desse pensamento.”
As bisnetas de Emílio Ribas: o legado que cuida de quem cuida

Um dos momentos mais sensíveis e simbólicos da manhã foi a homenagem às bisnetas de Emílio Marcondes Ribas – Maria Alice Ribas e Lucilia Ribas – presentes no evento não apenas como herdeiras de uma história centenária, mas como agentes ativas do cuidado no presente. Atuantes como voluntárias no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, elas desenvolvem um trabalho voltado ao acolhimento dos profissionais de saúde, oferecendo sessões de reiki para quem cuida.
“Cuidar de quem cuida também é saúde pública” foi uma das mensagens reforçadas durante a homenagem, em consonância com a visão humanista que marcou a trajetória do sanitarista.
A Dra. Glória Brunetti, emocionada, destacou a força simbólica do momento ao lembrar que o cuidado sempre esteve no centro da história do Instituto. “As primeiras enfermeiras deste hospital foram freiras. O cuidado sempre foi parte da nossa identidade. Ver hoje as bisnetas de Emílio Ribas atuando como voluntárias, oferecendo reiki aos trabalhadores da saúde, é uma continuidade viva desse compromisso.”
Ela ressaltou ainda que a iniciativa dialoga diretamente com os desafios atuais da saúde pública. “Vivemos tempos de exaustão, adoecimento mental e sobrecarga das equipes. Emílio Ribas nos ensina que saúde não é apenas combater doenças, mas criar condições para que as pessoas sigam inteiras.”
Ao final, a mensagem foi unânime: Emílio Marcondes Ribas precisa ocupar o lugar que lhe é de direito — nos livros didáticos, na formação em saúde, nas escolas e na memória coletiva. “Os gênios costumam ser reconhecidos cem anos depois”, lembrou Dr. José Lelis. “Talvez estejamos, finalmente, vivendo esse tempo.”
Ao celebrar o centenário da morte de seu patrono, o Instituto de Infectologia Emílio Ribas reafirma que sua missão vai além da assistência: é também preservar a memória, defender a ciência e fortalecer o SUS, honrando um legado que segue mais atual do que nunca.
Redação da Agência de Notícias da Aids




