“Inovação sem acesso é injustiça”: Ministro Padilha anuncia incorporação de PrEP injetável ao SUS e endurece discurso contra preços de medicamentos na AIDS 2026

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Ministro da Saúde afirma que Brasil não aceitará valores “estratosféricos” para novas tecnologias de prevenção do HIV, anuncia ampliação do acesso a exames e defende que inovação só faz sentido quando chega às pessoas

Em uma das declarações políticas mais esperadas da abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o Brasil não aceitará pagar preços considerados abusivos pelas novas tecnologias de prevenção do HIV e anunciou que o Ministério da Saúde encaminhará, já na próxima semana, à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), a proposta para incorporar a profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável de longa duração ao Sistema Único de Saúde.

Diante de representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), pesquisadores e jornalistas de diferentes países, Padilha fez um discurso que combinou balanço da resposta brasileira ao HIV, defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e críticas diretas ao modelo internacional de precificação dos medicamentos inovadores.

O ministro resumiu sua posição em uma frase que se tornou a principal mensagem de sua participação na conferência:

“Eu digo que inovação sem acesso não deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é injustiça.”

A declaração sintetiza o posicionamento do governo brasileiro em um momento em que medicamentos de longa duração despontam como uma das maiores revoluções da prevenção ao HIV, mas ainda permanecem inacessíveis para grande parte dos países devido aos altos preços praticados pela indústria farmacêutica.

Brasil chega fortalecido à conferência

Ao abrir sua fala, Padilha destacou o simbolismo de o Brasil sediar, pela primeira vez na história, uma Conferência Internacional de Aids na América do Sul. Infectologista de formação, ele lembrou sua trajetória profissional ligada ao enfrentamento da epidemia.

“É uma grande honra que o Brasil, o Ministério da Saúde, acolha pela primeira vez na América do Sul esta Conferência Internacional de Aids. Eu me sinto duplamente honrado porque sou médico infectologista e fui fazer a especialização em infectologia nos anos 90 exatamente por ser movido pela luta contra a Aids.”

Segundo o ministro, o país vive um momento de retomada da força da resposta nacional ao HIV.

Entre os avanços destacados estão:

* a maior redução da mortalidade por aids da história brasileira;
* menos de 10 mil mortes por aids registradas em 2024;
* aumento de 150% na oferta da PrEP pelo SUS;
* crescimento de 100% da testagem rápida nos últimos três anos;
* início do tratamento no mesmo dia do diagnóstico para 22% das pessoas diagnosticadas;
* mais da metade iniciando terapia antirretroviral em até 30 dias após a confirmação da infecção.

Para Padilha, esses resultados demonstram que ampliar diagnóstico e tratamento salva vidas e reduz a mortalidade.

“Não pagaremos valores estratosféricos”

O trecho mais aguardado da coletiva ocorreu quando o ministro abordou as negociações para incorporar a PrEP injetável ao SUS.

Padilha confirmou que o Ministério defenderá oficialmente a incorporação da tecnologia, mas deixou claro que isso dependerá de preços compatíveis com a realidade de um sistema público universal.

Segundo ele, o governo brasileiro aceitou negociar valores até dez vezes superiores aos oferecidos a países como Indonésia e Tailândia. Ainda assim, afirmou que outra tecnologia de aplicação semestral permanece financeiramente inviável.

“Mesmo o Brasil se dispondo a pagar até dez vezes o valor que foi oferecido para países similares ao nosso, como Indonésia e Tailândia, a indústria ainda diz que não pode oferecer o sistema nacional público com esse valor. Então, nós não pagaremos valores estratosféricos. Não vamos drenar o recurso, que é fruto dos impostos dos cidadãos brasileiros, para o interesse de lucro de uma empresa apenas.”

O ministro ressaltou que aproximadamente 200 mil brasileiros utilizam atualmente a PrEP oral e afirmou que a versão injetável poderá ampliar significativamente a cobertura, sobretudo entre pessoas que enfrentam dificuldades para utilizar comprimidos diariamente devido ao estigma associado ao HIV.

“Acreditamos que com essa nova tecnologia injetável vamos conseguir avançar, sobretudo naquelas pessoas que, por conta do estigma, ainda têm muita dificuldade de usar a profilaxia pré-exposição.”

Acesso não se resume ao medicamento

Padilha também anunciou um novo programa de financiamento para ampliar o acesso a exames complementares destinados às pessoas vivendo com HIV.

Segundo ele, embora o diagnóstico da infecção e o monitoramento laboratorial estejam consolidados, muitos pacientes ainda encontram dificuldades para realizar exames de imagem, procedimentos especializados, além de obter órteses e próteses necessárias ao longo da vida.

“Estamos criando um programa específico de financiamento do Ministério da Saúde para acelerar o acesso também a outros exames de doenças associadas à infecção pelo HIV/aids.”

Fiocruz participará do desenvolvimento de nova tecnologia

Outro anúncio foi a assinatura de uma parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e uma empresa farmacêutica internacional para acompanhar o desenvolvimento de uma nova profilaxia oral de longa duração, ainda em fase de estudos clínicos.

Segundo Padilha, a participação brasileira poderá abrir caminho para futura produção nacional e incorporação ao SUS.

“A Fiocruz vai participar dos estudos clínicos e com a perspectiva de, no futuro, podermos também colaborar com a produção e inclusão no Sistema Único de Saúde.”

Estigma, negacionismo e direitos humanos permanecem desafios

Apesar dos avanços, o ministro ressaltou que o Brasil ainda enfrenta obstáculos importantes.

Ele citou três frentes prioritárias: o combate ao estigma e à discriminação, o enfrentamento ao negacionismo científico e a garantia do acesso universal às novas tecnologias.

“Temos muitos desafios ainda. Primeiro, a luta constante contra a discriminação, contra o estigma e sobretudo contra movimentos internacionais que atacam os direitos humanos das pessoas que vivem com HIV. A luta constante contra o negacionismo, contra a negação da ciência e contra a desinformação em saúde.”

Brasil critica exclusão de acordos internacionais

Questionado sobre a ausência do Brasil entre os países contemplados em acordos internacionais de licenciamento para novas tecnologias, Padilha afirmou que essa não é a primeira vez que o país fica de fora desse tipo de iniciativa.

Mesmo assim, disse que o governo continuará negociando diretamente com as empresas para garantir acesso e eventual produção nacional.

O ministro reiterou que o país não abrirá mão do princípio da universalidade do SUS e que as negociações sempre levarão em consideração o impacto regional.

Segundo ele, quando o Brasil consegue preços mais baixos, isso também fortalece as negociações conduzidas pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e beneficia outros países da América Latina e do Sul Global.

Transparência e negociação internacional

Ao ser questionado sobre a criação de um comitê para negociar medicamentos de alto custo utilizando o modelo de desconto confidencial, Padilha defendeu a medida.

Segundo ele, o sigilo será apenas comercial, permanecendo integralmente transparente para os órgãos de controle do Estado.

O ministro argumentou que essa estratégia fortalece a capacidade de negociação do SUS diante das pressões internacionais exercidas sobre os preços dos medicamentos.

“É um preço silenciado para o mercado, mas totalmente transparente para os órgãos de controle, e que vai significar a possibilidade de acesso maior a um país como o Brasil.”

OMS e Opas alertam: sem financiamento e acesso, o mundo pode desperdiçar a maior oportunidade da história para controlar o HIV

Se Alexandre Padilha levou à Conferência Internacional de Aids os anúncios concretos do governo brasileiro, as intervenções do diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Jarbas Barbosa, e do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, ampliaram o debate para além das fronteiras nacionais. Em comum, os dois fizeram um alerta contundente: a ciência nunca produziu ferramentas tão eficazes para controlar a epidemia de HIV, mas elas só terão impacto se forem acompanhadas de financiamento, acesso equitativo e fortalecimento dos sistemas públicos de saúde.

Dr. Jarbas Barbosa afirmou que as Américas acumulam avanços importantes na resposta ao HIV. Segundo ele, 14 países da América Latina e do Caribe já foram certificados pela eliminação da transmissão vertical do HIV, representando quase dois terços de todas as certificações concedidas no mundo. O Brasil recebeu esse reconhecimento em dezembro do ano passado, e outros países da região devem alcançar a mesma certificação até o fim de 2027.

O diretor da Opas destacou ainda que mais de 325 mil pessoas utilizam atualmente a PrEP nas Américas, número que demonstra a expansão da prevenção combinada. No entanto, ressaltou que quase um milhão de pessoas que poderiam se beneficiar dessa estratégia ainda permanecem sem acesso.

Para Jarbas, o principal desafio já não é científico, mas social, econômico e político.

“Se não removermos as barreiras econômicas, mas também as barreiras culturais e sociais; se não facilitarmos o acesso desses grupos mais vulneráveis, essa tecnologia não salvará as vidas que deveria salvar.”

Ele chamou atenção ainda para outro obstáculo persistente: cerca de 30% dos casos de HIV nas Américas continuam sendo diagnosticados tardiamente, quando a doença já apresenta manifestações avançadas. Segundo Barbosa, ampliar a integração do HIV à atenção primária, expandir o uso de testes rápidos e autotestes e fortalecer o trabalho das organizações comunitárias são medidas fundamentais para mudar esse cenário.

“Progredimos muito, mas esse progresso também nos mostra que ainda há muito mais a ser feito. Esta conferência é um momento para reafirmarmos nosso compromisso de acabar com o HIV como ameaça à saúde pública, colocando as pessoas e as comunidades no centro da resposta.”

Na sequência, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, apresentou um panorama global que reforçou tanto os avanços quanto a urgência do momento. Ele lembrou que as novas infecções por HIV caíram 42% desde 2010, enquanto as mortes relacionadas à aids diminuíram 57% no mesmo período. Também destacou a expansão histórica do tratamento antirretroviral, que passou de cerca de 7 milhões de pessoas em 2010 para mais de 30 milhões atualmente.

Para o dr. Tedros, esses números representam muito mais do que indicadores epidemiológicos.

“Esses não são números simples. Eles representam milhões de pessoas que estão vivas hoje, criando seus filhos e construindo seus futuros graças a décadas de ciência, solidariedade e compromisso humano.”

Ao citar o surgimento de novas tecnologias de prevenção de longa duração, o diretor-geral da OMS afirmou que o mundo vive uma oportunidade histórica para acelerar o controle da epidemia. Mas advertiu que esse cenário corre risco diante da redução do financiamento internacional.

“Há agora um sério desafio. A queda significativa do financiamento pode reverter os ganhos conquistados nas últimas décadas.”

Tedros listou quatro prioridades que, segundo ele, definirão o futuro da resposta global ao HIV: restabelecer o financiamento internacional, proteger as organizações lideradas pelas comunidades, enfrentar a criminalização das populações mais vulneráveis e impedir que a epidemia seja tratada como um problema já resolvido.

Encerrando sua participação, fez um dos alertas mais contundentes da coletiva:

“Não podemos tratar esta luta como se estivesse terminada, porque ela ainda não terminou. Ela continua frágil. E coisas frágeis precisam de financiamento.”

Redação da Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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