Existe uma pergunta que acompanha a seleção inglesa há seis décadas. “Será que agora vai?” Desde a conquista da Copa do Mundo de 1966, diante de sua torcida em Wembley, a Inglaterra acumula gerações talentosas, campanhas promissoras e eliminações dolorosas. O país que inventou o futebol transformou a expectativa em tradição e a frustração em rotina.
Nesta quarta-feira (17), em Dallas, os ingleses iniciam mais uma tentativa de encerrar o jejum mais famoso do futebol mundial.
Do outro lado estará uma seleção acostumada a desafiar todas as probabilidades. Com apenas 3,8 milhões de habitantes, a Croácia tornou-se uma das maiores histórias de sucesso do futebol moderno. Vice-campeã mundial em 2018 e terceira colocada em 2022, a equipe balcânica construiu uma trajetória que poucos países de seu tamanho conseguiram repetir.
O confronto que abre o Grupo L da Copa do Mundo de 2026 reúne duas das seleções mais respeitadas do futebol europeu.
Mas fora dos gramados, Inglaterra e Croácia também representam dois exemplos relevantes de como países com contextos muito diferentes conseguiram avançar no enfrentamento ao HIV.
Enquanto os ingleses discutem como eliminar as últimas transmissões da epidemia, os croatas trabalham para manter uma das menores taxas de HIV da Europa.
A Inglaterra está mais perto do que nunca de derrotar a epidemia

Se dentro de campo a Inglaterra ainda busca repetir a glória de 1966, fora dele o país comemora resultados que há algumas décadas pareciam impossíveis.
Em maio deste ano, o governo britânico divulgou o balanço mais recente do plano nacional de combate ao HIV. Os números colocam a Inglaterra entre os países mais avançados do mundo na resposta à epidemia.
Hoje, 95% das pessoas vivendo com HIV conhecem seu diagnóstico. Entre elas, 95% recebem tratamento antirretroviral. E 98% alcançaram supressão viral, o que impede a transmissão sexual do vírus.
São resultados que colocam o país dentro das metas globais estabelecidas pelo Unaids. O caminho até aqui foi longo.
O primeiro caso de HIV foi registrado em território inglês em 1981, quando a doença ainda era cercada por medo, desinformação e preconceito.
Mais de quatro décadas depois, a epidemia mudou completamente de perfil. Desde 2010, os novos diagnósticos caíram pela metade. As mortes relacionadas à aids diminuíram quase 60%.
Agora, o governo trabalha com uma meta ambiciosa: reduzir em 80% tanto as novas infecções quanto os óbitos até o final da década.
O desafio das desigualdades
Os avanços, porém, não significam que a batalha esteja vencida. O relatório do governo inglês mostra que as desigualdades continuam sendo o principal obstáculo para o fim da epidemia.
Enquanto os novos diagnósticos diminuíram entre homens gays e bissexuais brancos, os casos cresceram 15% entre homens gays e bissexuais negros.
As diferenças também aparecem no acesso à prevenção. A adesão à PrEP entre homens gays e bissexuais brancos se aproxima dos 80%. Entre mulheres negras, o índice é inferior à metade disso.
Entre homens heterossexuais negros, a cobertura também permanece significativamente menor. Além disso, duas em cada cinco pessoas ainda recebem o diagnóstico em estágio tardio.
Para especialistas, a epidemia inglesa deixou de ser um problema de acesso aos medicamentos e passou a ser uma questão de acesso às populações mais vulneráveis.
Uma aposta bilionária para acabar com as transmissões
Determinado a alcançar o objetivo de eliminar novas transmissões, o governo britânico anunciou um investimento adicional de 170 milhões de libras — mais de R$ 1,2 bilhão.
O plano inclui ampliação dos testes em prontos-socorros, distribuição expandida de PrEP, campanhas nacionais de prevenção, combate ao estigma e mecanismos para trazer de volta ao tratamento pessoas que abandonaram o acompanhamento médico.
A expectativa é transformar a Inglaterra em um dos primeiros países do mundo a eliminar a transmissão sustentada do HIV como problema de saúde pública.
A pequena potência do futebol europeu

Se a Inglaterra carrega o peso da expectativa, a Croácia chega à Copa tentando prolongar uma das histórias mais improváveis do futebol contemporâneo. Desde sua independência, em 1991, o país construiu uma trajetória esportiva extraordinária.
Em pouco mais de três décadas, os croatas alcançaram um terceiro lugar mundial em 1998, uma final em 2018 e uma semifinal em 2022.
Nenhuma outra nação com população tão pequena acumulou resultados tão consistentes em tão pouco tempo. Agora, a geração liderada por Luka Modrić se aproxima do fim.
A Copa de 2026 marca a despedida do maior jogador da história do país dos Mundiais. A missão será provar que a Croácia continua competitiva mesmo iniciando uma renovação.
Uma das menores epidemias da Europa
Fora dos gramados, a Croácia também apresenta números que chamam atenção. O país possui aproximadamente 1.800 pessoas vivendo com HIV.
Em 2024, registrou cerca de 120 novos diagnósticos. São índices extremamente baixos para os padrões europeus.
Os resultados são atribuídos à ampla cobertura do sistema público de saúde, ao acesso gratuito ao tratamento e à política de testagem voluntária adotada há décadas.
Ao contrário de diversos países da região, a legislação croata estabelece que o teste de HIV jamais pode ser obrigatório.
A estratégia privilegia confidencialidade, aconselhamento e acesso facilitado aos serviços de saúde. Hoje, 98% das pessoas diagnosticadas estão em tratamento antirretroviral. O mesmo percentual alcançou supressão viral.
O HIV que permanece invisível
Apesar dos bons indicadores, as autoridades sanitárias croatas identificam um desafio semelhante ao enfrentado por outros países europeus.
A epidemia apresenta dois perfis distintos. O primeiro é composto principalmente por homens que fazem sexo com homens, geralmente diagnosticados precocemente.
O segundo envolve homens e mulheres heterossexuais que frequentemente descobrem a infecção mais tarde, quando o sistema imunológico já apresenta sinais de comprometimento.
Essa diferença preocupa especialistas porque mostra que parte da população ainda não se percebe vulnerável ao HIV.
Como consequência, procura menos os serviços de testagem.
Duas histórias de sucesso, dois desafios diferentes
Quando a bola rolar em Dallas, Inglaterra e Croácia disputarão muito mais do que a liderança inicial do Grupo L. Os ingleses tentarão confirmar o favoritismo de uma geração considerada uma das mais talentosas de sua história recente.
Os croatas buscarão mostrar que continuam capazes de desafiar gigantes, mesmo após anos superando expectativas. Fora dos gramados, porém, ambos já conquistaram vitórias importantes.
A Inglaterra transformou-se em referência global na busca pelo fim das transmissões do HIV. A Croácia consolidou uma das menores epidemias da Europa graças à combinação de diagnóstico, tratamento e acesso universal à saúde.
Mas os dois países aprenderam a mesma lição. Assim como uma Copa do Mundo não é vencida apenas pelo talento de alguns jogadores, o combate ao HIV não se encerra apenas com medicamentos.
É preciso alcançar quem ficou para trás. E talvez esse seja o desafio mais difícil de todos.
Redação da Agência de Notícias da Aids



