Inglaterra avança no combate ao HIV, mas desigualdades ameaçam meta de zerar transmissões até 2030

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O governo da Inglaterra divulgou um novo retrato da epidemia de HIV no país — e os dados revelam um cenário de contrastes. Enquanto o país atingiu metas históricas de diagnóstico e tratamento, consolidando-se como uma das referências globais no enfrentamento ao vírus, o avanço da infecção entre populações negras, imigrantes e grupos vulneráveis expõe uma crise silenciosa de desigualdade que pode comprometer o objetivo de eliminar novas transmissões até 2030.

O balanço faz parte do relatório oficial “HIV Action Plan Monitoring and Evaluation Framework: 2026 Report”, publicado pelo governo britânico na última semana. O documento monitora a implementação do novo plano nacional inglês de combate ao HIV para o período de 2025 a 2030.

Segundo o relatório, a Inglaterra alcançou em 2024 a meta global “95-95-95” do Unaids: 95% das pessoas vivendo com HIV já foram diagnosticadas; 95% das diagnosticadas estão em tratamento; e 98% das pessoas em terapia antirretroviral apresentam carga viral suprimida — condição que impede a transmissão sexual do vírus.

Os números colocam o país entre os mais avançados do mundo no controle da epidemia. Ainda assim, autoridades sanitárias alertam que os resultados nacionais escondem profundas desigualdades raciais, sociais e territoriais.

Casos caem entre homens brancos gays, mas aumentam entre negros africanos

O relatório mostra que os novos diagnósticos de HIV caíram 6% entre 2023 e 2024. No entanto, a redução ocorreu principalmente entre homens gays e bissexuais brancos. Entre homens heterossexuais negros africanos, os casos cresceram 15% no mesmo período.

A tendência revela uma mudança importante no perfil da epidemia inglesa. Durante mais de uma década, campanhas de prevenção, ampliação da testagem e o uso massivo da PrEP — medicamento que previne a infecção pelo HIV — reduziram drasticamente a transmissão entre homens gays brancos. Agora, o desafio é alcançar populações historicamente menos atendidas pelos serviços de saúde.

O documento destaca que a adesão à PrEP permanece muito desigual. Entre homens gays e bissexuais, a cobertura se aproxima de 80%. Já entre mulheres heterossexuais negras africanas, o índice despenca para 34,6%. Entre homens heterossexuais negros africanos, a taxa é de 36,4%.

As autoridades britânicas admitem que o combate ao HIV entrou em uma nova fase: menos centrada apenas na ampliação tecnológica da prevenção e mais focada no enfrentamento das desigualdades estruturais.

Quase 6 mil pessoas vivem com HIV sem saber

O relatório estima que cerca de 114 mil adultos viviam com HIV na Inglaterra em 2024. Desses, aproximadamente 6 mil ainda não haviam sido diagnosticados.

Outro dado considerado alarmante é o diagnóstico tardio. Duas em cada cinco pessoas descobriram a infecção apenas em estágio avançado da doença — situação que aumenta o risco de complicações graves e transmissão do vírus.

As autoridades também estimam que entre 14,3 mil e 21,5 mil pessoas no país vivem atualmente com níveis transmissíveis do vírus, seja por desconhecerem o diagnóstico ou por estarem fora do tratamento.

Governo aposta em mega investimento para conter epidemia

Para tentar alcançar a meta de eliminar novas transmissões até 2030, o governo britânico anunciou um investimento adicional de £170 milhões — o equivalente a mais de R$ 1,2 bilhão.

O pacote prevê a ampliação da testagem em prontos-socorros; campanhas nacionais de prevenção; distribuição ampliada de PrEP; combate ao estigma nos serviços de saúde; programas para reinserir pessoas fora do tratamento; e testes domiciliares solicitados diretamente pelo aplicativo oficial do NHS, o sistema público de saúde britânico.

Uma das principais apostas do governo é justamente a testagem em emergências hospitalares. Desde o início do programa, mais de 1,3 milhão de pessoas foram testadas em departamentos de emergência.

A estratégia funciona de forma automática: pacientes que fazem exames de sangue em hospitais localizados em áreas de alta prevalência de HIV são testados também para HIV, hepatites virais e outras infecções, a menos que recusem explicitamente.

“O fim da transmissão é possível”

No relatório, a diretora da divisão de HIV da UK Health Security Agency, Dra. Sema Mandal, afirma que a Inglaterra já possui “todas as ferramentas necessárias” para encerrar a transmissão do vírus.

Mas o próprio documento reconhece que a meta de 2030 dependerá da capacidade do país de reduzir desigualdades persistentes ligadas à raça, gênero, orientação sexual, território e condição socioeconômica.

O governo britânico pretende reduzir os novos diagnósticos anuais de HIV de 2.773, registrados em 2024, para apenas 532 até o fim da década.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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