Quase 200 jovens do Senac Vila Prudente — alunos dos cursos técnicos de Enfermagem, Estética e Jovem Aprendiz — participaram, nesta quarta-feira (5), do projeto “Saúde, Informação e Cidadania”, uma parceria do Senac São Paulo com a Agência de Notícias da Aids.
Conduzido pela jornalista Roseli Tardelli, o encontro foi mais que uma palestra: foi uma roda de conversa que uniu informação, emoção e acolhimento — provando que falar sobre HIV e autocuidado é também falar sobre direitos humanos, respeito e escolhas.
A escuta como ponto de partida
Logo na abertura, Roseli destacou o papel transformador da educação e da escuta.
“Acredito na educação para a saúde. A gente se informando, trocando experiências, ouvindo histórias de vida, sai daqui com a bagagem mais cheia. E é essa bagagem que ajuda a fazer escolhas sensatas, comportamentos adequados, para termos uma vida bacana, com saúde e informação”, afirmou.
A fala deu o tom do evento: aprender também é cuidar — e cuidar exige empatia.
Voz e vivência: quando a experiência vira força
Nesta edição, os estudantes receberam Guggã Taylor, ativista, psicóloga e empreendedora digital de 30 anos que vive com HIV desde o nascimento. Sua presença foi marcante. Com uma voz serena e firme, ela narrou sua trajetória de descobertas, preconceitos e superações.
“Descobri meu diagnóstico aos 14 anos, na escola, de forma cruel. A professora me afastou das aulas de educação física dizendo que eu poderia contaminar outros alunos. A notícia se espalhou pela escola. Naquele dia, eu achei que minha vida tinha acabado.”
Por anos, Guggã tomou os antirretrovirais sem saber que eram o tratamento para o HIV.
“Quando descobri, me revoltei. Aos 18 anos parei de tomar os remédios e acabei internada. Foi no Hospital Emílio Ribas que encontrei um grupo de jovens vivendo com HIV. Ali eu entendi que eu não estava sozinha — e que a informação cura.”
Hoje, Guggã vive uma nova fase: casada, segura e empoderada.
“O HIV não me define. Aprendi o que é o autocuidado, o amor-próprio. Hoje eu ensino outras pessoas a se olharem no espelho e se enxergarem com carinho. Todo dia é um evento especial”, disse, sob aplausos. “Se eu tivesse tido essa conversa na adolescência, minha jornada teria sido diferente.”
O preconceito nasce da falta de informação
Ao lado de Guggã, participou também a psicóloga Regiane Garcia, com longa experiência em sexualidade e prevenção às IST/HIV/aids. Em sua fala, ela foi direta:
“Preconceito é conceito prévio, antes de conhecer. E muitas vezes, é acompanhado da generalização — que é um tipo de ignorância. Estamos aqui para quebrar isso. Precisamos aprender a ouvir sem julgar, desenvolver o autocuidado e o respeito. Quando a gente se acolhe, acolhe o outro.”
Regiane lembrou ainda que falar sobre sexualidade continua sendo um desafio no Brasil:
“Vivemos num país conservador. Falar de sexualidade é falar da vida, da saúde e da prevenção. Não dá pra tratar o tema como tabu. Precisamos naturalizar a conversa, assim como falamos sobre qualquer outro assunto do cotidiano.”
Mandala da Prevenção: proteção em todas as formas
Entre os momentos mais aguardados esteve a apresentação da Mandala da Prevenção, ferramenta do Ministério da Saúde que mostra que se proteger vai muito além do uso da camisinha. O conceito de prevenção combinada inclui testagem regular, uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), da PEP (Pós-Exposição) e o tratamento como prevenção (I=0) — ou seja, pessoas em tratamento com carga viral indetectável não transmitem o vírus.
“Hoje, com seis meses de tratamento, a pessoa pode ficar indetectável e não transmitir o vírus. É o tratamento que quebra o ciclo da transmissão”, explicou Roseli. “Informação salva vidas, e o SUS é exemplo mundial nesse acesso.”
Os jovens também conheceram uma inovação pioneira: as máquinas automáticas de dispensação de PrEP instaladas em estações do metrô de São Paulo. O equipamento, acessado via QR Code e consulta médica online, distribui gratuitamente o medicamento. “É uma revolução silenciosa na prevenção”, destacou Roseli.
Perguntas que transformam
O diálogo seguiu intenso. De mãos levantadas, os alunos participaram com perguntas diretas e curiosas — transformando o encontro em um verdadeiro espaço de troca.
Uma estudante de Estética quis saber se pessoas vivendo com HIV podem fazer tatuagens ou colocar piercings com segurança.
“Podem sim”, respondeu Guggã. “Tenho tatuagens, alargador, piercing… tudo com segurança. O importante é buscar profissionais que sigam as normas de biossegurança. Informação é proteção.”
Um aluno de Enfermagem perguntou sobre a adesão ao tratamento. “Quem faz o tratamento corretamente atinge carga viral indetectável e não transmite o vírus. Isso é ciência e é revolução”, explicou Regiane.
Outra dúvida abordou a maternidade: pessoas vivendo com HIV podem ter filhos? “Hoje, com o acompanhamento médico e o pré-natal adequado, o Brasil praticamente erradicou a transmissão vertical do HIV”, respondeu Roseli. “Mulheres que vivem com o vírus podem ter filhos saudáveis. Isso é fruto do avanço da medicina e do SUS.”
A lição da “manteiga” — e o riso como aprendizado
O clima leve e acolhedor teve também seu momento de humor. Ao ouvir a explicação sobre o uso de lubrificantes, um dos professores lembrou de um erro comum e arrancou gargalhadas:
“Tem gente que ainda acha que manteiga serve de lubrificante. E não, por favor! A manteiga estoura o látex da camisinha. O único tipo seguro é o lubrificante à base de água.”
Entre risos, Regiane completou: “Essas informações parecem pequenas, mas salvam vidas. É assim que a gente fala de prevenção: com leveza, mas com responsabilidade.”
Afeto, autoestima e autocuidado
As falas convergiram num mesmo ponto: gostar de si é o primeiro passo para se cuidar.
“Nosso processo educacional é voltado pra fora, pra agradar o outro. A gente precisa aprender a gostar da gente, a cuidar da gente”, disse Regiane. “O protagonista da nossa história somos nós.”
Guggã reforçou: “Autoestima é autocuidado. É se olhar no espelho e gostar do que vê. Todo dia é um evento especial. O HIV me ensinou a me amar e a me respeitar. Se chegasse a cura hoje, nem sei quem eu seria, porque aprendi muito com o vírus.”
Ao final, Roseli retomou o propósito do projeto — levar informação como forma de cuidado e cidadania:
Falar de HIV é falar de cidadania. É entender que informação é uma forma de cuidado e que a escuta transforma. Educação e saúde caminham juntas, e é isso que queremos levar a cada escola, a cada grupo de jovens: a coragem de falar e a liberdade de escolher.”
O bate-papo terminou com um convite aos alunos para conhecer o guia “Toques descolados: a informação chegando antes que o HIV entre no seu rolê”, publicação da Agência Aids voltada a jovens que buscam se informar de forma leve e prática.
Confira algumas fotos a seguir:

Mais um encontro do ciclo “Saúde, Prevenção e Cidadania”, parceria do Senac e da Agência Aids: a unidade da Vila Prudente recebeu a equipe.

Alunos acompanhando e conhecendo novos conceitos de prevenção.

Guggã Taylor e Regiane Garcia trazem informações e explicam os conceitos da Mandala da Prevenção.

Guggã conta sua história e ressalta a importância do autocuidado e da responsabilidade com a própria saúde.

Regiane Garcia: “Falar sobre afetividade e sexualidade faz parte da nossa vida e promove saúde.”

A unidade tem um dispensador de insumos de prevenção.

Também oferecemos aos alunos que participam do encontro.

As unidades também oferecem nos banheiros, pelo Programa Senac de Qualidade de Vida, absorventes íntimos.

A self com todos juntos no final do encontro: momento de descontração e alegria.

Self no encontro da tarde também.

A equipe do Senac Vila Prudente — o gerente Etori Poleti, a Jéssica, a Chantelle e o Vinicius, que vieram da sede acompanhar o encontro — recebeu nossa equipe com acolhimento, profissionalismo e muito carinho!
Redação da Agência de Notícias da Aids



