Entre risos tímidos, perguntas inesperadas e histórias que atravessam gerações, muitos jovens do Senac São Miguel Paulista — dos cursos técnicos de Administração, Farmácia, Jovem Aprendiz e do Ensino Médio — viveram, nesta sexta-feira (14), um dia inteiramente fora da rotina. O que se anunciava como uma simples palestra acabou se transformando em uma grande roda de conversa sobre vida, escolhas, direitos, autocuidado e responsabilidade coletiva. Um encontro onde informação, afeto e futuro dividiram o mesmo espaço de forma vibrante e acolhedora.
A atividade integrou as ações do Dezembro Vermelho, mês de mobilização na luta contra a aids, e marcou o encerramento do ciclo de palestras do projeto “Saúde, Informação e Cidadania” em 2025. Após percorrer unidades do Senac no interior, litoral e capital, o Senac São Miguel foi o palco final dessa jornada que buscou aproximar jovens de debates essenciais sobre saúde, sexualidade e prevenção.
“Quando falamos de educação, falamos de saúde”

A manhã começou com a fala do gerente da unidade, Sergio Silva, que ressaltou que o projeto — fruto da parceria entre o Senac São Paulo e a Agência de Notícias da Aids — não é uma ação isolada, mas parte da missão institucional de preparar estudantes para o mundo do trabalho de forma integral. Isso significa, enfatizou, tratar temas de saúde com seriedade, honestidade e linguagem acessível.
“Quando a gente fala de mundo do trabalho, a gente fala de saúde. Quando fala de educação, a gente fala de saúde”, afirmou, destacando ainda a urgência de combater fake news, sobretudo quando podem afetar diretamente a vida e o bem-estar dos jovens.
História, memória e afeto: a palavra que abre caminhos

A condução da roda ficou por conta da jornalista Roseli Tardelli, fundadora da Agência de Notícias da Aids. Com a sensibilidade que marca sua trajetória, Roseli narrou a perda do irmão Sérgio para a aids na década de 1990 e sua luta para enfrentar o estigma desde então. Sua fala transformou o auditório em um espaço de escuta, memória e acolhimento.
“Hoje vamos conversar sobre vida. Vida é amor. Somos resultado do amor dos nossos avós, dos nossos pais. Quando falamos de cuidado, falamos de afeto”, disse, enquanto resgatava manchetes sensacionalistas que alimentaram o pânico moral, o abandono de famílias inteiras e a desinformação que, até hoje, sustenta preconceitos e silêncios.
Da dor ao recomeço: o ativismo que nasce da experiência

A fala mais aguardada pelos estudantes era a do influenciador digital e publicitário Lucas Raniel, 33 anos, que vive com HIV há mais de uma década. Ele contou como recebeu o diagnóstico ainda muito jovem e como isso impactou diretamente sua vida.
“Eu descobri o HIV muito cedo. Pensei que minha vida tinha acabado. As primeiras coisas que vêm à cabeça da gente são aquelas imagens antigas, aquela capa da revista Veja com o Cazuza, aquela ideia de morte”, relatou. “Eu fiquei dois anos sem me relacionar com ninguém, estudando muito, tentando entender o vírus.”
Sem referências próximas e sem acesso facilitado a informações atualizadas, Lucas enfrentou o peso do estigma quase sozinho. Mas foi justamente ali que encontrou um caminho: transformar a dor em ação e o silêncio em comunicação. “Quando eu entendi que a comunicação sobre HIV era a parte mais falha da prevenção no Brasil, usei minha formação em Comunicação Social pra falar disso todos os dias nas redes.”
A decisão veio após uma experiência traumática. “Eu levei um cara pra minha casa pra tomar um vinho. No meio da conversa, resolvi contar que vivia com HIV. Ele surtou e me bateu dentro da minha própria casa. Ali eu entendi o tamanho da desinformação.”
A violência virou força. A vergonha virou posicionamento. Hoje, Lucas é uma referência na defesa de direitos, no combate ao estigma e na divulgação de informação acessível sobre HIV, prevenção e saúde sexual.
Ele explicou aos estudantes a importância do tratamento: “Eu tomo meu medicamento todos os dias. Hoje são três cápsulas pequenas. Estou indetectável, tenho zero risco de transmissão e levo uma vida normal. Eu beijo, eu namoro, eu vou pra balada, faço tudo o que qualquer pessoa faz.”
Sexualidade ainda é tabu — e isso custa caro

A psicóloga Regiane Garcia, especialista em sexualidade, saúde e prevenção, trouxe reflexões importantes sobre o contexto brasileiro. “A gente vive num país extremamente conservador. Mesmo com toda a tecnologia e avanço científico, falar de sexualidade ainda é um tabu.”
Ela explicou que a falta de informação deixa jovens mais vulneráveis e reforçou que conhecimento não é luxo, mas proteção. “O conhecimento liberta: liberta do preconceito, do medo e da infelicidade.”
Para Regiane, saúde sexual não é algo separado da vida — ela compõe o projeto de futuro de cada pessoa. “Pra viver bem, eu preciso me cuidar. E autocuidado passa por conhecer o próprio corpo, entender sentimentos, fazer perguntas.”
Quando os jovens perguntam, a roda ganha força

Após as falas iniciais, o auditório se transformou em um grande espaço de troca. As mãos se levantaram sem parar, e cada pergunta abria novas janelas de diálogo. Muitas dúvidas individuais eram ecoadas por dezenas de colegas.
Uma das primeiras perguntas foi sobre amizades e preconceito: “Você perdeu amigos?”
Lucas respondeu com honestidade: “Minha família foi respeitosa, mas outras pessoas não. Já perdi trabalho, já perdi oportunidades. Teve gente que me tratou como aberração. Por isso eu falo: informação salva.”
A diferença entre HIV e aids foi um dos temas mais mencionados. “Eu vivo com HIV. Nunca desenvolvi aids porque descobri cedo e tratei cedo. O diagnóstico precoce salva vidas”, reforçou Lucas.
Surgiu também a dúvida sobre contar — ou não — o diagnóstico. “O método de prevenção é individual. O diálogo é importante, mas ninguém é obrigado a revelar nada.”
Outras perguntas trataram de violência, medo, relações afetivas, futuro profissional, terapias, impactos emocionais e autonomia. Cada uma delas virava gancho para reforçar conceitos fundamentais e oferecer acolhimento.
Prevenção combinada: escolhas, direitos e tecnologia a favor da vida

Roseli, Lucas e Regiane apresentaram de forma clara o conceito de prevenção combinada e os métodos de disponíveis no Brasil: preservativos internos e externos, testagem regular, autoteste, PrEP, PEP, redução de danos e o conceito de que uma pessoa em tratamento e indetectável não transmite o HIV em relações sexuais.
Regiane reforçou com firmeza: “Se a pessoa faz o tratamento corretamente e se torna indetectável, ela não transmite o vírus. É ciência.”
Lucas complementou: “Quando a pessoa está indetectável, ela não transmite o HIV. Zero risco. Pode ter filhos, relações sexuais, construir família, estudar fora, trabalhar onde quiser. A ciência avançou — só falta a comunicação avançar junto.”
Roseli também destacou avanços na saúde pública, como a eliminação da transmissão vertical na cidade de São Paulo e a robustez do SUS em vacinação, testagem e cuidado integral.
Os jovens se surpreenderam com as máquinas instaladas no metrô que, após teleconsultas, liberam PrEP, PEP e autotestes. “É algo que nem Nova York, Londres ou Paris têm. E São Paulo tem”, comentou Roseli, despertando murmúrios de espanto entre os alunos.
Multiplicar: o compromisso que continua

Ao final, a roda de conversa se converteu em um chamado coletivo ao autocuidado e ao cuidado com o outro. “A vida tem curvas. Mas as retas podem ser muito bonitas quando a gente aprende a se cuidar”, disse Regiane.
Em seguida, Roseli deixou um pedido direto aos jovens: “Vocês são multiplicadores. Vocês levam essa informação pra frente. Isso muda vidas. Nosso trabalho é motivar vocês. Informação é afeto. Informação salva.”
O encontro chegou ao fim com um convite especial aos estudantes: conhecer o guia “Toques descolados: a informação chegando antes que o HIV entre no seu rolê”, uma publicação da Agência de Notícias da Aids que reúne informações sobre prevenção e sexualidade de forma leve, direta e feita especialmente para o público jovem.
Galeria de fotos

Auditório da unidade lotou com a presença de jovens de várias turmas

Jovens atentos e conhecendo novas tecnologias de prevenção

Talita Martins presente e participando do evento

Equipe do Senac São Miguel, apsicóloga Regiane Garcia, o ativista Lucas Raniel e as educadoras da Secretaria Municipal de Educação Sandra e Márcia Matsushita prestigiando e conhecendo o trabalho

Selfie registrando o fim do encontro
Redação da Agência de Notícias da Aids




