
O Ministério da Saúde anunciou nessa quinta-feira (21) a incorporação da vacina da dengue ao SUS. A vacinação deve começar em fevereiro de 2024, mas não será utilizada em larga escala em um primeiro momento.
Segundo o ministério, o laboratório Takeda, fabricante da vacina Qdenga, afirmou que tem uma capacidade restrita de fornecimento de doses. Por isso, a vacinação será voltada a público e regiões prioritárias.
“O Ministério da Saúde avaliou a relação custo-benefício e a questão do acesso, já que em um país como o Brasil é preciso ter uma quantidade de vacinas adequada para o tamanho da nossa população. A partir do parecer favorável da Conitec [comissão que avalia a incorporação de tecnologias no SUS], seremos o primeiro país a dar o acesso público a essa vacina, como um imunizante do SUS”, disse a ministra da Saúde, Nísia Trindade.
Em entrevista à Agência Aids, o infectologista Álvaro Furtado, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, afirmou que a dengue é uma doença muito importante no Brasil e a vacina chega em um momento oportuno. “Obviamente, a população que vive com HIV também mora em áreas endêmicas para dengue, por isso, a cobertura vacinal precisa exceder para as populações imunossuprimidas. A vacina da Takeda, que estará disponível SUS, pode ajudar na prevenção e mortalidade.”
Segurança
Falando sobre a segurança da vacina antidengue na população imunossuprimida, dr. Álvaro destacou que o imunizante é contraindicado para pessoas que estão com HIV sintomático, que tem uma doença oportunista, com CD4 abaixo de 200. “Não é para todo mundo que vive com HIV, a pessoa tem que estar indetectável, tratando, com imunidade acima de 200 ou 350… O Ministério da Saúde ainda não definiu a política pública de implementação, talvez para as pessoas que vivem com HIV, que moram em áreas mais endêmicas para dengue, seriam os grupos mais indicados. É claro que a mortalidade em criança também é importante, especialmente o pico de morte entre crianças entre 6 e até 16 anos.”
O médico destacou ainda que a vacina da Takeda é baseada em vírus atenuado, sorotipo 2, e é indicada para prevenção. “A gente está comemorando muito a chegada deste imunizante no SUS, não sabemos como é que vai ser a questão do aquecimento global. Na verdade, já esperamos para os próximos anos um aumento significativo de casos de dengue no mundo, especialmente em áreas como o Brasil; estamos preocupados com a questão do mosquito, sempre foi um desafio enorme a gente controlar o vetor. Lembrando que a vacina não é uma substituta de controle de vetor, é uma prevenção combinada. Precisamos continuar controlando o mosquito, os focos, falar com a população. A vacina vem como estratégia adicional para diminuir a mortalidade em grupos específicos.”
Vacina completa
Do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a infectologista Zarifa Khoury também comemorou a chegada da vacina contra a dengue no SUS. “Essa vacina contempla os quatro sorotipos da dengue, sorotipo 1, 2, 3 e 4, é uma vacina que tem uma resposta imune próxima de 90% para internação contra dengue grave e é a melhor vacina que nós temos até hoje; ela protege e pode ser aplicada inclusive para as pessoas que tiveram dengue. São duas doses de vacina com intervalo de três meses entre uma dose e outra, pode ser dada para a população HIV que não está imunodeprimida, porque é vírus vivo atenuado.”
Segundo explicou dra. Zarifa Khoury, o HIV atinge a imunidade do paciente, comprometendo as células de defesa do organismo, chamadas de grupamento de diferenciação 4, mais conhecidas por CD4. Pessoas com HIV e que possuem menos de 200 células CD4 por milímetro cúbico no sangue não devem ser vacinadas contra a dengue. “Esse índice mostra que o paciente está com uma imunodepressão severa; portanto, sujeito a ter fortes reações com a vacina”, esclareceu. “É importante que as pessoas vivendo com HIV tomem essa vacina porque a dengue está aumentando, principalmente agora no verão e ela pode evoluir como dengue hemorrágica. É uma doença que pode causar febre e é importante que as pessoas se vacinem contra a dengue sim.”
Resposta imunológica
A infectologista Rosana Del Bianco, responsável pelo setor de internação no CRT Santa Cruz, assegurou que “as pessoas elegíveis para tomar a vacina da dengue teria que ter o CD4 maior que 350 para apresentar resposta imunológica adequada para proteção da doença dengue.”
A especialista chamou atenção para a importância das medidas profiláticas para a dengue. “Sempre deve ser feitas, como evitar ter água limpa parada nos vasos, usar roupas leves com manga comprida e até repelentes. Regiões onde a incidência de dengue está muito elevada, oriento que as pessoas vivendo com HIV tomem a vacina, desde que a imunidade esteja adequada e utilizando as drogas antirretrovirais com adesão.”
O imunizante Qdenga tem registro na Anvisa com indicação para prevenção de dengue causada por qualquer sorotipo do vírus para pessoas de 4 a 60 anos de idade, independentemente de exposição prévia. É composto por quatro sorotipos diferentes do vírus, deve ser aplicado em um esquema de duas doses, com intervalo de três meses entre as aplicações.
Em outubro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a recomendar a vacina,
Além da Qdenga, uma outra vacina contra a dengue está sendo produzida no país. O Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica MSD (sigla em inglês para Merck Sharp and Dohme), está desenvolvendo uma vacina de dose única, chamada Butantan-DV.
O imunizante é derivado de uma tecnologia do Instituto Nacional de Saúde (National Institutes of Health, em inglês), dos Estados Unidos, licenciada em 2009. As fases 1 e 2 do ensaio clínico foram desenvolvidas nos EUA (2010-2012) e no Brasil (2013-2015), respectivamente.
Redação da Agência de Notícias da Aids
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