Infectologistas asseguram que é possível envelhecer com HIV e ter qualidade de vida, mas o diagnóstico tardio ainda é um problema

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Grande parte das campanhas de prevenção ao HIV e outras ISTs tem a população jovem como público-alvo, o que criou a impressão de que somente essa parcela da população transa e está exposta a contrair o vírus. Mas pessoas mais velhas também estão vulneráveis: a cada ano, cresce o número de idosos vivendo com HIV/aids no Brasil, e isso não acontece apenas pelo envelhecimento dos pacientes. É preciso falar abertamente sobre o tema e alertar esse grupo sobre a importância de se prevenir.

Segundo dados do Boletim Epidemiológico de Aids 2023, do Ministério da Saúde, a maior concentração dos casos de aids no Brasil, no período de 1980 a junho de 2023, foi observada nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos, com predomínio no sexo masculino (50,1%). No entanto, a faixa etária de 60 anos e mais apresentou aumento de 20,3% no número de casos quando comparados os anos 2015 e 2022 (de 2.209 para 2.657 casos).

Outro dado que chama atenção diz respeito aos óbitos. Os coeficientes de mortalidade por aids apresentaram queda nos últimos dez anos em todas as faixas etárias, com exceção da faixa de 60 anos ou mais, na qual o coeficiente aumentou 19,1%, passando de 4,7 em 2012 para 5,6 óbitos/100 mil habitantes em 2022. Esse aumento na última faixa etária foi observado para ambos os sexos.

A ciência 

Os avanços da ciência já são capazes de manter a qualidade de vida das pessoas HIV+. Contudo, especialista consideram que é preciso debater com profundidade a sexualidade entre os mais velhos, além do uso da camisinha e da prevenção combinada, que ainda é tabu e contribui para aumentar a vulnerabilidade da terceira idade frente a infecção pelas ISTs (infecções sexualmente transmissíveis).

O diagnóstico tardio é outro tema que desperta preocupação entre os especialistas no assunto. Na última semana, o envelhecimento com HIV foi debatido durante encontro promovido pelo Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo. Com o tema “Envelhecer Para Além do HIV/aids: Desafios do Cuidado nos Serviços Especializados”, profissionais de saúde falaram sobre a carência de informações e de ajuda para pessoas idosas.

A doutora, professora e coordenadora do Programa de Assistência Domiciliar ao Idoso, Naira Dutra Lemos, chamou atenção da plateia para os estereótipos, preconceitos e discriminações direcionadas às pessoas, apenas com base na sua idade e como isso impacta na saúde e no diagnóstico de HIV da pessoa idosa.

“O envelhecimento é um processo universal, todos envelhecem, é irreversível e não tem volta, cada um de nós tem a própria forma de envelhecer. E por conta da idade aparece a falta de preocupação em não usar camisinha ou outro método contraceptivo, fazendo com que haja descuidos e o diagnóstico positivo apareça. Muitos idosos nem pensam que são suscetíveis ao diagnóstico do HIV/aids.”

O infectologista Mateus Ettori Cardoso explicou, em entrevista exclusiva para a Agência Aids, que os fatores estão interligados, pois além de não acreditarem nos riscos de infecção, a testagem de HIV em pessoas com idade avançada é baixa. “As pessoas mais idosas não acreditam que podem se infectar, por isso é baixo o uso de preservativos nesta faixa etária, a pouca lubrificação e a fragilidade das barreiras do organismo se tornam mais comuns com o envelhecimento e facilitam a entrada do HIV. Há desconhecimento de métodos da prevenção combinada e a falta de campanhas específicas para esse público.”

Falha na comunicação

A infectologista Laura Azevedo, Gerente de Assistência Integral à Saúde no CRT e presente no evento, acrescentou que ainda não há uma forma de abordagem com uma linguagem voltada para as pessoas idosas que tenham foco na prevenção ou na testagem. “Não pensamos na abordagem e enxergamos como algo invisível, falamos sobre esses assuntos de uma forma geral, como se todos os públicos entendessem da mesma forma. É preciso que ter uma linguagem voltada para os de mais idade para eles entenderem a importância de ter métodos de proteção para evitar um diagnóstico tardio. ”

Também do CRT, a infectologista Roberta Schiavon Nogueira, especialista em aids na terceira idade, disse que a falta de instigação de projetos para aconselhar e ajudar idosos faz com que os diagnósticos ocorram tardiamente, trazendo problemas para a pessoa. “Não vemos campanhas estimulando a testagem de pessoas de mais idade, não vemos campanhas de profissionais da área de saúde para orientar esses idosos. As pessoas se infectam e não sentem a vulnerabilidade, acham que é natural ou o efeito da velhice, quando acontecem as testagens esse paciente tem um diagnóstico tardio e chega no serviço de saúde muito tardiamente, precisando de mais atenção do que se fosse diagnosticado mais cedo.”

Sobre o diagnóstico tardio, o dr. Mateus destacou que implica inclusive na qualidade de vida da pessoas idosas. “Quando uma pessoa é diagnosticada tardiamente pode apresentar uma queda acentuada da imunidade, levando a infecções oportunistas em diversos órgãos e acarretando um risco de morbimortalidade que não existiria caso o diagnóstico ocorresse mais cedo.  Além disso, pessoas idosas tendem a apresentar outras comorbidades que necessitarão de manejo farmacológico, aumentando o risco de interação medicamentosa.”

Também em entrevista para a Agência Aids, a infectologista Luísa Andrade disse que o tabu de que as pessoas idosas não têm relações sexuais precisa acabar, pois esse é um dos empecilhos para o diagnóstico tardio. “Precisamos tirar a invisibilidade das pessoas de certa idade no âmbito de relacionamento sexual, as pessoas idosas fazem sexo e é preciso que haja um investimento e projeto para falar sobre a testagem, sobre os medicamentos. Não podemos parar de enxergar esse processo e não orientar esse público com mais idade, precisamos incorporar estratégias de apoio para que as metodologias de prevenção possam chegar nas pessoas de mais idade.”

A médica continua: “Muitas vezes esses idosos são abandonados, vivem de forma precária e precisam de uma ajuda para ter acesso à saúde e aos medicamentos, o acolhimento resgata essas pessoas com mais idade e as trazem para um local onde ficam aos cuidados de pessoas que se dedicam a isso. Além de ações médicas, são importantes as ações sociais para que exista um acolhimento além do diagnóstico.”

Projetos sociais para idosos com HIV/aids

Na contramão da invisibilidade, Luís Baron, da Associação LGBTQIA + Eternamente SOU, contou no evento promovido pelo CRT que o seu projeto tem investido no debate sobre sexualidade da pessoa idosa. “Desde que a aids foi descoberta houve um preconceito com a comunidade, que ainda perdura. Muitas das pessoas que acolhemos não foram aceitas em suas respectivas famílias, tendo envelhecimentos solitários e tristes. Por isso, a associação foi criada, para ajudar as pessoas LGBT de mais idade que têm aids/HIV com tratamentos psicossociais, com atividades recreativas, programas e oficinas. É preciso haver o acolhimento dos idosos LGBTQIA + para ajudá-los a ter uma vida saudável apesar do diagnóstico.”

A artista plástica Adriana Bertini, do Instituto Cultural Barong, trouxe para o debate a experiência do Projeto ART em Casa. “Essa é uma estratégia que implementamos na pandemia, quando não se podia sair de casa, mas precisávamos que os medicamentos fossem entregues para os idosos que têm HIV. Resolvemos então fazer entregas comunitárias e domiciliares, onde o paciente não precisa sair de casa para nos receber, as entregas são feitas pelos Correios e, em casos de medidas de seguranças em lugares de risco, são feitos por veículos do Barong. O projeto visa pessoas de mais idade vivendo com HIV, que não podem se locomover para consultas, exames e para pegar os remédios, pois esta população, muitas vezes, vive sozinha, isolada e sem apoio, ajudamos com o acesso e a inclusão dessas pessoas à saúde e o uso do serviço. Nosso objetivo é o acesso, inclusão, retenção, adesão e legislação para pessoas de mais idade.”

Assim como na educação sexual entre jovens, ignorar o tema sexualidade entre pessoas da terceira idade reflete no avanço da aids nesta parcela da população. Por isso, que os especialistas afirmam que envelhecer com qualidade também inclui vida sexual com autonomia, autocuidado e saudável.

Lygia Cavalcante

 Dicas de entrevista

Instituto Cultural Barong

Tel.: (11) 96636-3897

ONG Eternamente SOU

Tel.: 96843-1177

Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de SP

Tel.: (11) 5087-9937

Dr. Mateus Ettori Cardoso

Facebook: Mateus Ettori Cardoso

 

 

 

 

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