
A Academia Americana de Pediatria alterou recentemente suas diretrizes de maneira histórica, permitindo que mulheres vivendo com HIV amamentem, desde que mantenham uma carga viral indetectável de forma consistente. Segundo os pediatras, o risco de transmissão do HIV para o bebê é inferior a 1% quando uma pessoa está em terapia antirretroviral e mantém a carga viral abaixo de 50 cópias por ml de sangue.
A Agência Aids consultou especialistas brasileiros para repercutir a flexibilização. Assim como a Academia Americana de Pediatria, os infectologistas reconhecem a importância crucial da amamentação para o desenvolvimento saudável dos bebês, fornecendo nutrientes essenciais e fortalecendo o sistema imunológico desde os primeiros dias de vida. No entanto, alertam que a recomendação deve ser feita de forma individualizada.
“O benefício da amamentação é enorme, mas deve ser liberado apenas para mulheres vivendo com HIV com carga viral indetectável, sob controle médico e boa adesão aos medicamentos antirretrovirais por mais de 6 meses. O abandono da medicação na gestação pode infectar o bebê, por isso, essa pessoa deve ser sempre acompanhada e monitorizada”, explicou o infectologista Rosana Del Bianco, diretora de internação do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo.
Ainda na avaliação da médica, é essencial que essa mãe também receba acompanhamento no pós-parto. “Não podemos desconsiderar que há um grande risco de infecção quando a mãe abandona o tratamento para cuidar do bebê, deixando de tomar a medicação. Sem o remédio, o vírus volta a ficar detectável, atingindo uma alta carga viral, com risco de infecção pelo leite materno”, alertou.
Do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, a dra. Marinella Della Negra, responsável pelo atendimento das primeiras crianças vivendo com HIV/aids no Brasil, também disse ser a favor da flexibilização da amamentação “desde que a mulher se mantenha indetectável e seja corretamente informada que existe uma margem pequena de possibilidade de transmissão. A flexibilização deve levar em conta o acompanhamento de pré-natal e adesão da gestante. Um levantamento de dados sobre a carga viral no parto pode ajudar na decisão.”
De acordo com a orientação da Academia Americana de Pediatria, os médicos devem estar prontos para adotar uma abordagem centrada na família. As mães que desejam amamentar devem receber orientação, especialmente de pediatras. Eles consideram essencial informar à mãe e ao seu parceiro ou parceira que ainda há uma pequena possibilidade de transmissão do vírus. Certas situações podem aumentar esse risco, como o uso inadequado da terapia antirretroviral.
No Brasil, o aleitamento por pessoas vivendo com HIV é contraindicado, mesmo para quem faz uso de terapia antirretroviral e tem carga indetectável. As opções de alimentação que eliminam o risco de transmissão do HIV são a fórmula láctea infantil, que é fornecida pelo SUS até que o bebê complete 6 meses de vida, e o leite humano pasteurizado de doadores.
“A amamentação por mulheres vivendo com HIV é uma possibilidade que vem acumulando cada vez mais evidências científicas. No entanto, segundo o CDC, para mães em uso de terapia antirretroviral, com carga viral indetectável sustentada durante e após a gravidez, o risco de transmissão através da amamentação é inferior a 1%, mas não é zero. O estado de São Paulo no ano de 2023 alcançou a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV graças ao esforço e mobilização de gestores, profissionais de saúde e sociedade civil, mas é importante manter essa mobilização e as boas práticas implantadas, nesse sentido parece que manter os protocolos atuais ainda é necessário, mas colocar essa questão em debate é fundamental para avaliar a possibilidade de incorporação e o melhor momento para isso. Lembramos que atualmente amamentação é contraindicada no Brasil”, disse a infectologista Rosa Alencar, coordenadora-adjunta do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo.
Já infectologista Zarifa Khoury, da Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, acredita que ainda é preciso ter precaução diante dos riscos de transmissão do HIV através do aleitamento materno. “Embora a taxa de infecção seja considerada baixa quando as mães HIV+ seguem corretamente o tratamento antirretroviral, ainda há um pequeno risco de transmissão do vírus. Portanto, é mais seguro não recomendar a amamentação, a fim de reduzir ao máximo qualquer possibilidade de transmissão do HIV para o bebê.”
Aconselhamento individualizado
A flexibilização vai de encontro com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que enfatiza a importância de uma abordagem individualizada para garantir a segurança e o bem-estar tanto da mãe quanto do bebê. “Quando a amamentação não é viável ou segura, a substituição do leite materno por fórmula infantil adequada é recomendada para prevenir a transmissão do HIV para o bebê.”
Atualmente, estima-se que haja aproximadamente 1,5 milhão de crianças menores de 15 anos vivendo com HIV em todo o mundo, segundo o Unaids. Essas crianças enfrentam desafios significativos no acesso ao tratamento antirretroviral e nos cuidados de saúde necessários para gerenciar sua condição. A maioria dessas crianças foram infectadas durante a gravidez, parto ou amamentação, destacando a importância de estratégias eficazes de prevenção da transmissão vertical e de cuidados contínuos para melhorar sua qualidade de vida e expectativa de vida.
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Redação da Agência de Notícias da Aids
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