
Em sua apresentação no seminário “Urgências na Aids Avançada: o que há de novo?”, realizada pelo Instituto de Infectologia Emilio Ribas no dia 1º de dezembro, o infectologista Ronaldo Campos Hallal disse que a aids é uma doença com determinação social.
“Quando a Covid-19 surgiu, diziam que era uma epidemia democrática, que afetava igualmente todas as pessoas. Isso, obviamente, é uma grande bobagem. A pandemia afetou desproporcionalmente pessoas que precisavam de alguma forma sair para trabalhar o que não tinham os mesmos recursos que outras para utilizarem máscaras adequadas, para utilizarem álcool em gel, para praticar isolamento. Então, obviamente que a área da da saúde como um todo tem essa determinação social e é bom a gente lembrar disso. Nós não estamos falando apenas de uma condição biológica determinada biologicamente, mas ela é essencialmente determinada socialmente. Isso é importante para a gente fazer algumas reflexões sobre o que nós precisamos formular e construir para poder responder e eliminar essa epidemia como um problema de saúde pública e como uma causa de sofrimento, dor e morte”, explicou ele, que é assessor técnico da Coordenação de HIV/Aids e Hepatite Virais (CGAHV) do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis (DATHI).
O médico informou que se estima que um milhão de pessoas viva com HIV, segundo relatório de 2022. Desse total, 900 mil pessoas foram diagnosticadas e, entre essas, apenas 750 mil ou estão em tratamento com antirretrovirais. “Tem aí já o primeiro gap bem importante, provavelmente este do diagnóstico e o segundo de 82% das pessoas em tratamento é que estabelecem os maiores desafios, já que nós temos tecnologias para a suprimir o vírus e chegar ao objetivo que a gente quer. Nós já temos tecnologia suficiente nesse momento para poder construir a eliminação da epidemia como problema de saúde pública. O nosso desafio maior é, de fato, promover acesso, promover acesso não apenas na entrada – na prevenção, no diagnóstico – mas também ajudar as pessoas que elas permaneçam. Aí, a gente fica lembrando de alguns anos que passaram, enquanto o preconceito é moral se impuseram em relação ao conhecimento científico. Isso é conhecimento científico também, não é só a molécula nova que vai ser produzida ou que já foi desenvolvida e que a gente está aguardando. Tem que construir acesso a elas também quando é pertinente, mas a gente já tem os elementos que poderiam apontar para a eliminação”, prosseguiu.
Hallal ressaltou que a diferença de índices nos gráficos apresentados está relacionada também a questões de sexo e gênero, mulheres têm desfechos inferiores em relação aos homens, tanto no que diz respeito ao diagnóstico e retenção no cuidado. “A gente vê que quem não está conseguindo ficar vinculado justamente são a população negra, indígenas, população com menor tempo de estudo e mulheres cis. O uso de drogas injetáveis tem um papel aí também nessa questão”, observou. O diagnóstico tardio também está relacionado é com sexo, faixa etária com escolaridade e assim por diante”, complementou.
“Nós temos um contingente ainda muito grande de pessoas com CD 4 menor que 200, 17% já com falência imunológica”, salientou. “Quando a gente fala em perda de seguimento, foi preciso que a gente mudasse a denominação de abandono de tratamento, e por razões extremamente justas. Também nos incomodava muito falar sobre usar essa categoria porque são exatamente aqueles que são abandonados, muitas vezes pelo próprio sistema de saúde. Foram abandonados já pela sociedade de uma forma geral e acabam também perdendo o seguimento. Isso reflete um pouco a necessidade de a gente evitar estigmatizar também nos serviços de saúde, porque são aqueles que não suprimem vírus, que não conseguem vir muitas vezes nas consultas e acabam também sofrendo discriminação e estigma nos próprios serviços de saúde”, alertou.
Ele citou um projeto piloto, o Circuito Rápido da Doença Avançada, no qual se busca ter ações mais ágeis para responder ao risco clínico implantado que a falência imunológica e a aids representam. O projeto foi programado para as capitais e suas regões metropolitanas dos Estados com maior índice de mortalidade em cada região do país; Manaus, Fortaleza, Campo Grande, Rio de Janeiro e Porto Alegre. O ponto de partida foi a implantação de testes point of care, tipo de teste de diagnóstico que pode ser realizado remotamente, dentro ou fora de ambientes hospitalares ou laboratoriais.
“Os testes são apenas o começo do assunto. É a partir disto que a gente começa a discutir organização de serviço, chegada tardia das pessoas no serviço, organização da rede de retaguarda, por exemplo, para internação hospitalar quando é preciso, função lombar quando é preciso, acesso a medicamentos para infecção oportunista. Olhar para estas questões e poder discutir com Estados e municípios por meio de uma matriz de planejamento desse processo de implementação, faz com que eles reavaliem as suas ações como um todo, faz com que olhem a resposta à aids como um todo e se busque, a partir daí, estabelecer movimentos para melhorar o acesso dessas populações a recursos existentes e novos”, defendeu.
A mortalidade por aids, segundo o infectologista, segue em altos patamares. Não há estabilidade, mas uma ausência de queda mais profunda, embora existam ferramentas para intervir. “Poucos têm diagnóstico acima de 500 células muito precoce, então, para atingir queda de mortalidade é uma coisa que demora mais tempo para acontecer. Ainda temos 12 mil pessoas que morrem a cada ano por aids no Brasil e uma boa parte delas são mortes evitáveis. O momento em que a pessoa percebe que está infectada interfere na possibilidade de seguir vivo nos anos seguintes. Essa interferência obedece a questões ligadas à raça, cor, sexo, gênero, local de residência, escolaridade, exposição. Então, nós temos elementos que estão para além do aspecto biológico. E a coinfecção TB/HIV potencializa essas questões”, comentou.
“O que a gente deve ir e para onde a gente deve conduzir as nossas ações?”, questiona Hallal. “O CIEDDS, que é uma iniciativa que integra, se eu não me engano, 13 ministérios do governo federal, que se trata da intensificação daquilo que se começou a fazer na década de 80, que é uma resposta, um enfrentamento intersetorial à epidemia de aids, porque essa epidemia não está colocada só no campo da saúde é e o CIEDDS busca intensificar isso. Busca também ter financiamento para olhar para as ações mais amplas que estabelecem o sofrimento, dor e morte relacionada à tuberculose relacionada à aids, relacionadas a essas doenças de determinação social. Isso tem tudo a ver com educação, com renda, emprego e tudo a ver com o desenvolvimento científico e tecnológico.”
Em suas considerações finais, o gestor reforçou que, para avançar no enfrentamento à aids, é essencial considerar os determinantes sociais para subsidiar adoção de estratégias políticas multisetoriais: estigma, preconceito, renda, acesso. Além disso, na opinião dele, é preciso: ampliar o início rápido do Tratamento Antirretroviral e da adesão ao tratamento da tuberculose latente; analisar os resultados do projeto piloto para expandir a resposta à doença avançada em 2024; implementar o acesso adequado à abordagem das doenças oportunistas e coinfecção TB/HIVB; e otimizar o emprego do SIMC (Sistema de Monitoramento Clínico das Pessoas Vivendo com HIV/aids) na resposta à perda do seguimento, tratamento da tuberculose latente e mortalidade.
Assista o evento na íntegra:
https://www.youtube.com/watch?v=ePJPcl8LOfI
Redação Agência de Notícias da Aids



