Com o aumento de casos e a intensificação da vacinação em São Paulo, infectologista do CRT IST/Aids e do Instituto Emílio Ribas esclarece que o HIV, sozinho, não contraindica a tríplice viral; condição imunológica, contagem de CD4 e histórico clínico devem orientar a decisão
Com novos casos de sarampo registrados em São Paulo e a intensificação da vacinação em municípios da Região Metropolitana, uma dúvida ganha importância entre as pessoas que vivem com HIV: é seguro receber a vacina contra o sarampo? Na maioria dos casos, sim.
Segundo o infectologista Dr. Mateus Cardoso, que atua no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo (CRT) e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, viver com HIV não representa, por si só, uma contraindicação à vacina. O que precisa ser avaliado é a condição imunológica de cada pessoa.

“Pessoas vivendo com HIV podem tomar a vacina contra o sarampo, mas a indicação precisa ser individualizada. O HIV, por si só, não significa automaticamente que a pessoa não possa receber a vacina”, explica.
A distinção é importante porque a vacina contra o sarampo faz parte da tríplice viral — que também protege contra caxumba e rubéola — e é produzida com vírus vivos atenuados. São versões enfraquecidas dos vírus, capazes de estimular o sistema imunológico sem provocar a doença em pessoas com imunidade preservada.
Por isso, diferentemente de várias outras vacinas, a tríplice viral exige atenção especial quando existe imunossupressão importante.
CD4 é um dos pontos que precisam ser observados
De acordo com Dr. Mateus, o maior cuidado ocorre entre pessoas com imunodeficiência grave, especialmente quando a contagem de linfócitos T-CD4 está abaixo dos limites recomendados pelos protocolos.
Na avaliação clínica, uma contagem de CD4 inferior a 200 células merece atenção especial e pode representar contraindicação temporária para vacinas contendo vírus vivos atenuados. Isso significa que a contraindicação não decorre simplesmente do diagnóstico de HIV.
A história clínica, o acompanhamento da infecção, o tratamento antirretroviral e exames como a contagem de CD4 ajudam a equipe de saúde a determinar se a vacina pode ser administrada com segurança naquele momento.
“Ter HIV não significa automaticamente não poder receber a vacina. A decisão deve considerar a situação imunológica e clínica de cada pessoa, garantindo uma vacinação segura”, reforça o infectologista.
Quem está indetectável pode tomar?
Para pessoas em tratamento antirretroviral, com carga viral indetectável e boa recuperação imunológica, a orientação é tranquilizadora. “Na grande maioria das vezes, sim”, afirma Dr. Mateus.
O especialista explica que o tratamento antirretroviral não serve apenas para controlar a multiplicação do HIV. Com a recuperação da função imunológica, o organismo também passa a responder melhor às vacinas e fica menos vulnerável a diferentes infecções e doenças preveníveis.
Pessoas vivendo com HIV que estão em tratamento, apresentam boa recuperação imunológica e mantêm acompanhamento regular podem, portanto, receber a vacina quando indicada.
A situação exige maior atenção quando a pessoa não sabe como está sua imunidade, interrompeu o tratamento, começou recentemente a terapia antirretroviral ou possui histórico de imunossupressão importante.
Nesses casos, Dr. Mateus recomenda procurar o serviço responsável pelo acompanhamento antes da vacinação.
Precisa falar com o infectologista antes?
Nem toda pessoa vivendo com HIV precisa obrigatoriamente marcar uma consulta com o infectologista antes de procurar a vacinação.
Quem está em acompanhamento regular, conhece sua situação imunológica e não possui contraindicações conhecidas pode procurar um serviço de vacinação para que sua situação vacinal seja avaliada.
Quando houver dúvidas, além das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), existem serviços especializados que podem orientar a vacinação.
Entre eles estão os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIEs) e os Serviços de Atendimento Especializado (SAEs). Em muitos locais, esses serviços possuem salas de vacinação e equipes preparadas para avaliar a indicação de imunizantes para pessoas vivendo com HIV.
Para Dr. Mateus, uma preocupação importante é evitar que o diagnóstico de HIV se transforme, por desconhecimento ou excesso de cautela, em uma barreira ao acesso à vacinação. “O mais importante é que ninguém deixe de procurar orientação por medo ou desinformação.”
Já tomou a vacina? Veja quando pode haver indicação de nova dose
Outra dúvida frequente diz respeito às pessoas que foram vacinadas contra o sarampo na infância. No calendário de rotina, pessoas de 12 meses a 29 anos devem ter duas doses comprovadas da tríplice viral ou de vacina que contenha o componente contra o sarampo.
Entre 30 e 59 anos, é necessário ter pelo menos uma dose comprovada.
Para pessoas com 60 anos ou mais, a situação deve ser avaliada individualmente, considerando histórico vacinal e condições clínicas.
Mas o atual cenário epidemiológico trouxe uma orientação adicional.
Diante do aumento de casos, existe recomendação de uma dose de intensificação ou dose extra para pessoas de 6 meses a 59 anos nos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos.
Essa dose adicional não substitui o esquema de rotina. Trata-se de uma estratégia de saúde pública destinada a aumentar rapidamente a proteção da população diante da circulação do vírus.
No caso das pessoas vivendo com HIV, entretanto, a condição imunológica também deve ser considerada antes da aplicação.
Perdeu a carteira de vacinação? Isso não deve impedir a procura pelo serviço
Quem não sabe se tomou a vacina ou perdeu a carteira de vacinação também não deve simplesmente presumir que está protegido — nem deixar de buscar orientação.
A primeira medida é procurar uma UBS ou o serviço no qual realiza o acompanhamento para verificar se existe registro eletrônico das doses recebidas.
Quando não há comprovação, a orientação é avaliar o calendário correspondente à idade e à condição clínica e atualizar a vacinação quando houver indicação.
Na avaliação do infectologista, é preferível atualizar a vacinação de alguém sem comprovação do que manter uma pessoa suscetível ao sarampo, sobretudo em um momento de maior circulação do vírus.
Antirretrovirais não interferem na vacina
Outra informação importante para quem vive com HIV é que não é necessário interromper o tratamento antirretroviral para receber a vacina.
“Os antirretrovirais não interferem na ação da vacina e a vacina também não reduz a eficácia do tratamento do HIV”, esclarece Dr. Mateus.
As medicações devem, portanto, ser mantidas normalmente antes e depois da vacinação.
As reações também são semelhantes às que podem ocorrer na população em geral, incluindo dor no local da aplicação, febre baixa ou mal-estar nos dias seguintes.
A vacina funciona da mesma maneira em pessoas com HIV?
A resposta imunológica pode variar de acordo com a situação do sistema imunológico.
Pessoas com contagem baixa de CD4 podem apresentar uma resposta menos intensa à vacina e, consequentemente, produzir uma quantidade menor de anticorpos protetores.
A situação muda significativamente quando o HIV está tratado.
Segundo Dr. Mateus, em pessoas em terapia antirretroviral, com carga viral controlada e recuperação imunológica, a resposta à vacinação costuma ser muito semelhante à observada na população geral.
É mais uma razão, segundo o especialista, para associar vacinação, diagnóstico precoce, adesão ao tratamento e acompanhamento contínuo.
O próprio sarampo pode representar um risco maior
Se a vacina exige avaliação em situações específicas de imunossupressão, contrair sarampo também pode representar um risco significativo — especialmente para quem apresenta comprometimento importante do sistema imunológico.
O sarampo está entre as doenças infecciosas mais contagiosas. Além de febre e das manchas avermelhadas características, pode provocar pneumonia, encefalite, necessidade de internação e, nos casos mais graves, levar à morte.
Há ainda outro fenômeno que merece atenção: a chamada “amnésia imunológica”.
O vírus do sarampo pode provocar uma redução temporária da memória do sistema imunológico, tornando o organismo mais vulnerável a outras infecções durante semanas ou até meses depois da doença.
Em pessoas vivendo com HIV que não estão em tratamento ou apresentam imunidade muito comprometida, essas complicações podem ser mais frequentes e graves.
Já quem está em tratamento, mantém carga viral indetectável e apresenta boa recuperação imunológica tende a ter risco menor.
“É momento de revisão da situação vacinal, e não de medo”
Diante dos casos registrados em São Paulo, Dr. Mateus recomenda que as pessoas vivendo com HIV aproveitem o momento para conferir a carteira e verificar se a vacinação está atualizada.
“Minha principal orientação é que este seja encarado como um momento de revisão da situação vacinal e não de medo.”
Para o infectologista, os avanços alcançados no tratamento do HIV também precisam mudar a maneira como se pensa a vacinação dessa população.
Hoje, a terapia antirretroviral permite que a maioria das pessoas vivendo com HIV mantenha boa recuperação imunológica, receba as vacinas recomendadas e desenvolva proteção adequada.
“O HIV não deve ser visto como uma barreira para a vacinação, mas sim como uma condição que exige acompanhamento contínuo e cuidado integral.”
E conclui: “A vacinação, o tratamento antirretroviral e o acompanhamento médico caminham juntos. Essas são ferramentas complementares que ajudam a proteger não apenas a pessoa vivendo com HIV, mas também toda a comunidade.”
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dr. Mateus Cardoso
Instagram: mateus.infectologia




