
A sífilis, uma das infecções sexualmente transmissíveis mais antigas da humanidade, continua a ser um desafio de saúde pública em pleno século XXI. Apesar de existir tratamento eficaz e gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS), a doença ainda cresce em número de casos no Brasil e no mundo, afetando populações diversas, com destaque para homens que fazem sexo com homens, mulheres grávidas e suas parcerias.
Esse paradoxo — uma doença antiga, com tratamento conhecido, mas em expansão — foi tema central do 13º Encontro de Relações Humanas em HIV/Aids “Prevenção da Sífilis: Conhecimento e Ação”, iniciativa do Instituto Vida Nova. Na mesa mediada pelo ativista Jaime Marcelo, o infectologista Dr. Álvaro Furtado, do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT), trouxe uma reflexão provocativa: mais do que o acesso ao medicamento, o enfrentamento da sífilis exige uma mudança na forma como os profissionais de saúde se relacionam com os pacientes.
A relação médico-paciente como determinante de saúde
“Quando alguém entra em um consultório com um diagnóstico de sífilis, muitas vezes não é bem acolhido. O paciente chega com medo, cheio de dúvidas, mas encontra julgamentos sobre sua vida sexual ou uma comunicação fria e apressada. Isso afasta, assusta e compromete o tratamento”, afirmou o Dr. Álvaro.
Ele destacou que a comunicação deve ser clara, respeitosa e motivadora. Ao invés de reforçar o estigma com frases como “se não tratar, vai ficar cego” ou “vai transmitir para todos os parceiros”, o ideal é explicar o ciclo da doença e suas consequências de forma serena, mostrando que há tratamento e possibilidade de cura.
“O acolhimento precisa ser centrado no paciente, com opções terapêuticas que respeitem suas condições e escolhas. A penicilina continua sendo excelente, mas não é a única possibilidade. A doxiciclina, por exemplo, tem eficácia equivalente. É preciso oferecer alternativas, não impor. Esse poder de escolha muda a adesão”, pontuou o médico.
Dúvidas que não são respondidas
Dr. Álvaro também chamou atenção para temas que ainda são tratados como tabus dentro dos serviços de saúde. “Uma das perguntas mais comuns e que muitas vezes não são respondidas é: a sífilis pode ser transmitida pelo sexo oral? A resposta é sim. Mas quando o profissional evita essa conversa, deixa de fornecer informação essencial para a tomada de decisão do paciente. Informação é cuidado.”
Esse silêncio, segundo ele, acaba alimentando inseguranças e repetição de infecções. Muitos pacientes relatam já terem tido sífilis diversas vezes — reflexo não só de comportamentos de risco, mas de falhas no diálogo e na orientação sobre prevenção e tratamento.
A cascata do cuidado e o risco do abandono
Outro ponto destacado é a chamada cascata do cuidado: a oportunidade de diagnóstico, tratamento e acompanhamento. Quando o acolhimento falha, o paciente pode abandonar o tratamento logo após a primeira dose de penicilina, sem completar o ciclo. “Não é só porque doeu a injeção. Muitas vezes é porque não entenderam a importância da continuidade, não foram motivados a voltar. Se o paciente não se sente respeitado, não retorna”, explicou o médico.
A consequência é grave: sífilis não tratada adequadamente pode evoluir para formas mais severas, inclusive com complicações neurológicas e cardiovasculares.
A urgência da prevenção da transmissão vertical
Entre os desafios mais delicados está a sífilis congênita, transmitida da mãe para o bebê durante a gestação. O Brasil tem metas de eliminação até 2030, mas enfrenta obstáculos. “O momento crítico é identificar e tratar adequadamente a gestante. Mas não basta: é preciso testar e tratar a parceria sexual. Muitas vezes a mulher é tratada, mas o parceiro não, e ocorre reinfecção. Isso mostra que o cuidado não pode ser individual, precisa incluir a rede de relações”, ressaltou Dr. Álvaro.
Os impactos da falha são devastadores. “É muito triste ver um bebê nascer com malformações graves porque a mãe não foi testada de forma adequada no pré-natal. Não se trata apenas de um problema clínico, mas de um fracasso do sistema de saúde e da comunicação com essa gestante”, alertou.
Estigma secular, desafios contemporâneos

A fala do infectologista também resgatou a história da sífilis, que desde sua origem foi cercada de estigma e preconceito. Desde o poema de Girolamo Fracastoro, no século XVI, que associava a doença a personagens amaldiçoados, até os apelidos de “praga dos franceses”, “praga dos espanhóis” ou “doença das prostitutas”, a sífilis carrega uma carga simbólica que se renova com o tempo.
“Esse peso histórico ainda influencia a forma como a sociedade e até mesmo profissionais de saúde olham para a sífilis. Romper com esse estigma é fundamental para avançarmos no cuidado. O paciente não precisa de julgamento, precisa de acolhimento e informação”, reforçou Dr. Álvaro.
Inovação e estratégias de saúde pública
O médico também apresentou experiências inovadoras, como iniciativas internacionais de notificação anônima via aplicativos de mensagem, que aumentaram significativamente a testagem de parceiros expostos à sífilis. Além disso, destacou perspectivas futuras como o uso de antibióticos pós-exposição (doxyPEP) e a necessidade de campanhas mais criativas de comunicação em saúde.
“Não basta falar a mesma linguagem de sempre. Se quisermos alcançar populações mais jovens, precisamos entrar nos espaços onde elas estão — das redes sociais aos salões de beleza e barbearias. Precisamos de campanhas com impacto real, com artistas e influenciadores que falem a língua do público”, defendeu.
Ao final, Dr. Álvaro deixou uma reflexão: “A sífilis escancara as falhas do nosso sistema de saúde e da nossa comunicação. Mostra como o estigma, a falta de informação e a negligência com populações vulnerabilizadas ainda ditam o rumo de uma doença que poderia estar sob controle. Falar de sífilis é falar de direitos, de equidade, de cuidado humano.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Dr. Álvaro Furtado
Instagram: @dr.alvarocosta
Instituto Vida Nova
Tel.: (11) 2297-1516




