
Na manhã desta quinta-feira, 5 de junho, especialistas reuniram-se no Rio de Janeiro durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids para debater os desafios persistentes e emergentes no enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Com mediação do professor José Eleutério Jr., do Ceará, a mesa “Desafios Persistentes e Emergentes no Campo das Infecções Sexualmente Transmissíveis: Um Olhar Clínico-Epidemiológico” trouxe contribuições fundamentais sobre a sífilis, as novas ISTs de transmissão sexual e o HPV em populações vulnerabilizadas.
Sífilis: uma velha conhecida que ainda impõe desafios
A médica Angélica Espinosa apresentou um panorama histórico e atual da sífilis, chamando atenção para o atraso tecnológico no diagnóstico e para o impacto social da doença. “Estamos no século XXI e ainda usamos testes que têm como base protocolos de 1906. A sífilis ainda é diagnosticada com ferramentas ultrapassadas diante da complexidade que ela apresenta”, afirmou. Espinosa destacou que o Brasil continua enfrentando altos índices da infecção, incluindo sífilis congênita, e criticou os entraves logísticos no acesso a testes e ao tratamento com penicilina. Para ela, o enfrentamento da sífilis exige inovação diagnóstica, investimento em educação permanente e reconhecimento de seus determinantes sociais. “Não é só uma questão biomédica, é uma questão ética e social”, completou.
ISTs emergentes: hepatites e enterobactérias ganham destaque

Na sequência, Estevão Portela Nunes (RJ) abordou as ISTs emergentes, com foco na transmissão sexual de enterobactérias e hepatites virais. Segundo ele, práticas como sexo em grupo, uso de substâncias (chemsex), e a ausência de orientação em saúde sexual têm potencializado a disseminação dessas infecções por vias como oral-anal, digital-anal e anal-genital. “Patógenos que antes eram associados a outras vias de transmissão estão se comportando como ISTs. Precisamos reconhecer essas mudanças e adaptar nossas respostas de vigilância e cuidado”, alertou.
Ao falar sobre hepatites, Portela reforçou o papel da hepatite B e C na história da resposta às ISTs, especialmente em populações-chave. Ele destacou a importância da vacinação contra hepatite B e os avanços no tratamento da hepatite C, mas alertou para os surtos recorrentes em redes sexuais, especialmente entre homens que fazem sexo com homens (HSH). “Há uma necessidade urgente de ampliar estratégias de prevenção e educação para populações em maior vulnerabilidade”, defendeu.
HPV e as lacunas no cuidado às minorias de gênero e sexuais
Encerrando a mesa, Roberta Meneguetti trouxe uma discussão contundente sobre a infecção por HPV em minorias sexuais e de gênero. Ela chamou atenção para as lacunas nas diretrizes clínicas e a ausência de políticas de rastreio voltadas a pessoas trans, especialmente no rastreamento anal e cervical. “É uma população extremamente marcada pela exclusão, inclusive pelos próprios profissionais de saúde”, afirmou.
Meneguetti detalhou os desafios do tratamento de lesões causadas pelo HPV, sobretudo em áreas sensíveis como a região anal, e defendeu o uso de tecnologias como terapia fotodinâmica e auto-coleta para rastreio como formas de ampliar o acesso. “A vacinação ainda é nossa principal estratégia de prevenção, mas precisamos avançar no diagnóstico precoce e no cuidado integral, com respeito às especificidades dessas populações”, concluiu.
Um chamado à ação

A mesa reafirmou a urgência de atualizar práticas clínicas e políticas públicas frente às ISTs. “Estamos repetindo estratégias antigas e esperando resultados diferentes”, alertou Angélica Espinosa, citando a necessidade de criatividade, inovação e compromisso político. O debate evidenciou que os desafios vão além da medicina: são também sociais, estruturais e éticos. A mesa encerrou com o chamado à inclusão das pautas negligenciadas, como o HPV, na agenda nacional de saúde pública.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids
Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp
* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde



