Em webinário promovido pela AHF Brasil, ABIA e ANAIDS, convidados reforçam que I=Zero é conquista histórica, mas cobram cuidado integral, investimento em direitos humanos e protagonismo das pessoas vivendo com HIV na construção das políticas públicas.
A afirmação de que pessoas vivendo com HIV em supressão viral não transmitem o vírus – o princípio I=Zero – foi o ponto de partida de um debate denso e político no webinário realizado pela AHF Brasil (AIDS Healthcare Foundation), ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS) e ANAIDS (Articulação Nacional de Luta contra a AIDS) na última quinta-feira (4/12), das 17h às 18h30. Ao longo da atividade, especialistas e ativistas lembraram que a evidência científica é sólida, mas insistiram: sem enfrentamento do estigma, cuidado integral e participação real da sociedade civil, o Brasil não vai eliminar a aids como problema de saúde pública.

Participaram do encontro Ronaldo Hallal, infectologista e coordenador médico nacional da AHF Brasil, Juan Carlos Raxach, médico, ativista histórico e coordenador de projetos da ABIA, e Eduardo Barbosa, secretário político da ANAIDS e coordenador do Mopaids, o Movimento Paulistano de Luta contra a Aids. A mediação ficou com Juliana de Viter, também da AHF Brasil.
Abrindo o webinário, Ronaldo Hallal resgatou o caminho percorrido pela ciência até a consolidação do conceito I=Zero, dos primeiros estudos com casais sorodiferentes aos grandes ensaios clínicos e revisões sistemáticas.
Ele lembrou que, desde a década de 1990, coortes já mostravam redução de mais de 90% na transmissão sexual do HIV quando a pessoa vivendo estava em tratamento. Depois vieram o estudo HPTN 052 e os estudos PARTNER, que não registraram transmissão sexual do HIV quando a carga viral se mantinhabaixa, mesmo em milhares de relações sexuais sem preservativo.
“Essa revisão mostrou que, se a pessoa estivesse com menos de 600 cópias, em tratamento antirretroviral, não houve nenhuma transmissão. A conclusão é que não há risco de transmissão sexual quando a carga viral está menor que 600 cópias.”, explicou Hallal, destacando a importância desse dado para a realidade brasileira.

Ele lembrou a nota técnica elaborada pelo Departamento de HIV/aids do Ministério da Saúde em parceria com a Sociedade Brasileira de Infectologia, que reconhece inexistência de risco de transmissão sexual com carga viral menor que 200 cópias e risco relevante acima de 1000 cópias. Para Ronaldo, o desafio é tirar essa orientação do papel:
“Não é o profissional de saúde, não é o médico que deve ditar comportamentos. Ele deve fornecer informações atualizadas, baseadas em evidência científica. A resposta brasileira deve ser orientada pela ética, pela ciência e pela inclusão.”
Ao mesmo tempo em que celebrou o avanço biomédico, o infectologista insistiu que o cuidado não pode ser reduzido ao número da carga viral.
“Muitas vezes o cuidado vira só exame complementar. A pessoa chega ao serviço, olha-se a carga viral, se está tomando tratamento, e pouco se fala de qualidade de vida, sexualidade, envelhecimento. É preciso recuperar uma dimensão de integralidade mais ampla no cuidado.”
Estigma, interrupção do tratamento e “vazio programático” nos serviços
Ronaldo também trouxe dados de pesquisas nacionais que mostram o impacto do estigma e da falta de acolhimento sobre a adesão ao tratamento.
“As pessoas que vivem com HIV e Aids pouco participam do planejamento e das soluções. O protagonismo ainda é algo a ser buscado.”
Segundo ele, análises recentes de motivos de interrupção de tratamento em projetos apoiados pela AHF apontam com força para dimensões sociais e subjetivas:
“Estigma, preconceito, falta de acolhimento, desânimo com o tratamento, não aceitação do diagnóstico. Isso tudo pesa muito. E as causas estruturais, como dificuldade de acesso geográfico e financeira, respondem por quase 20% das interrupções.”
Ronaldo questionou ainda a quase totalidade do orçamento federal de HIV/Aids destinada a testes, preservativos e medicamentos, com poucos recursos para direitos humanos, combate ao estigma e financiamento da sociedade civil:
“O orçamento para testes e medicamentos é importante, claro. Mas se quase nada vai para ações de promoção de direitos humanos e combate ao preconceito, vale perguntar: assim nós vamos mesmo eliminar a epidemia de aids como problema de saúde pública até 2027 ou 2030?”
Não é a aids que é crônica. É a infecção pelo HIV
Na sequência, Juan Carlos Raxach trouxe uma fala profundamente atravessada pela experiência pessoal de viver com HIV desde 1983. Ele reconstruiu a linha do tempo dos avanços biomédicos como camisinha, AZT, terapia combinada, prevenção da transmissão vertical, testar e tratar, PrEP e PEP, até chegar ao conceito de indetectável=intransmissível.
“Indetectável igual a intransmissível tem um significado muito grande para mim como pessoa vivendo com HIV, independentemente de ser médico ou ativista. Mas não é só uma questão técnica, é uma questão de vida.”

Juan chamou atenção para um equívoco comum no discurso público:
“A gente fala muito que a Aids virou uma doença crônica. Eu discordo. O que é crônica de verdade é a infecção pelo HIV. A infecção continua crescendo, e isso é grave. A Aids diminuiu em alguns contextos, mas a infecção não.”
Ele também problematizou o modo como o I=Zero vem sendo transmitido às pessoas vivendo com HIV:
“Manter a carga viral indetectável devolve saúde, evita doenças oportunistas, dá longevidade. Mas muitas vezes o foco que chega para a pessoa é: ‘você tem que ficar indetectável para não transmitir’. Se não está indetectável, você se sente fracassado, julgado. É uma nova forma de estigmatização.”
Para Juan, o impacto de I=Zero vai muito além da prevenção:
“Quando eu fico indetectável, não é só que eu deixo de transmitir. É a minha saúde mental, a minha autoestima, a possibilidade de ter relações afetivas e sexuais com menos medo. A qualidade de vida e a longevidade são centrais.”
Ele criticou o descompasso entre o nível dos avanços biomédicos e a falta de transformação social:
“A tecnologia cresceu, mas o acesso adequado, o combate ao estigma, o acolhimento integral, tudo isso está aquém.”
Saúde mental, culpabilização e vontade política
Terceiro participante do webinário, Eduardo Barbosa trouxe o olhar de quem vive com HIV desde 1994 e há décadas atua no movimento de aids e em espaços de gestão. Para ele, a principal questão hoje é a falta de prioridade política:
“Muito mais do que estar no departamento ou na sociedade, o enfrentamento do HIV e da Aids passa por vontade política. Nos últimos tempos, a gente tem sofrido porque a epidemia não é prioridade de governo. Acontece com muitas limitações e, às vezes, com retrocessos.”

Ele reforçou que o debate sobre I=Zero não pode ficar preso à planilha de custos do sistema de saúde:
“A indetectabilidade não pode estar relacionada só à questão biomédica ou à economia para o sistema. Ela tem que estar introjetada na minha possibilidade de viver melhor.”
Falando a partir da própria experiência, Eduardo apontou a saúde mental como um dos pontos mais frágeis do cuidado:
“Depois de quase 30 anos tomando medicação, em alguns momentos eu me sinto fragilizado. E hoje, para mim, a saúde mental é o que mais me afeta. Só que os serviços perderam psiquiatras, estão sobrecarregados. É muito difícil ter acompanhamento. Mesmo em serviços de referência, são poucos profissionais para milhares de pessoas.”
Ele também criticou a visão restrita ao laboratório nos atendimentos:
“Nas consultas, muitas vezes se pergunta da carga viral, se eu estou tomando o remédio. Mas pouco se discute a dificuldade real de tomar vários comprimidos por dia, os outros problemas de saúde, a vida concreta. Não adianta ficar só me perguntando se eu estou tomando, porque às vezes eu vou responder ‘estou’ e, na prática, não estou como deveria.”
Sobre o papel da sociedade civil, Eduardo foi direto:
“Não adianta querer fazer política sem que a gente execute, não adianta fazer campanha sem protagonismo de quem vive com HIV. O que eu vivo não é igual ao que vive alguém no Norte ou Nordeste. Cada um precisa ser ouvido. E, para eliminar o HIV como problema de saúde pública até 2030, não tem outro caminho que não seja envolver e financiar de verdade as organizações da sociedade civil.”
Próximos passos: prevenção como direito e crítica ao modelo de patentes
O próximo encontro já tem data: 15 de dezembro, das 16h às 17h30, com o tema “Prevenção como direito”, para discutir patentes, propriedade intelectual, acesso a medicamentos e como o sistema de patentes ameaça o SUS e a prevenção combinada.
Ao final, ficou o recado comum das falas: I=Zero é uma conquista histórica, capaz de mudar a vida de quem vive com HIV e de transformar a resposta à epidemia. Mas, isolado, não resolve tudo. Sem combate ao estigma, sem cuidado integral, sem saúde mental e sem participação real da sociedade civil na formulação das políticas, o risco é que mais uma vez a ciência chegue antes da justiça social.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista
AHF Brasil
Site: ahfbrasil.com.br



