Indetectável é igual a intransmissível na gestação, mas risco persiste na amamentação, aponta estudo

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Um dos maiores levantamentos científicos já realizados sobre transmissão vertical do HIV concluiu que mulheres que iniciam o tratamento antirretroviral (TARV) antes da concepção e mantêm carga viral indetectável até o nascimento não transmitem o vírus para seus bebês. A análise reuniu 138 estudos e dados de 82.723 crianças expostas ao HIV, e foi publicada nesta semana na revista The Lancet.

O estudo, liderado pela Dra. Caitlin Dugdale, da Universidade de Harvard, confirma que o princípio “Indetectável=Intransmissível” (I=I) se aplica integralmente à gestação, desde que a supressão viral seja garantida durante toda a gravidez. No entanto, a mesma regra não se aplica à amamentação, onde o risco de transmissão, embora baixo, continua existindo.

Risco zero no parto, risco acumulado na amamentação

Segundo a análise, quando a mãe iniciou a TARV antes da gestação e manteve a carga viral abaixo de 50 cópias/ml até o parto, o risco de transmissão foi zero entre mais de 4.600 participantes avaliadas. Já entre as mulheres que começaram o tratamento apenas durante a gravidez, mesmo alcançando carga viral indetectável, o risco de transmissão foi de 0,4%.

Na amamentação, o cenário é diferente. Os pesquisadores identificaram que, para cada mês em que a mãe amamenta com carga viral suprimida, o risco de transmissão é de 0,1% — o equivalente a um caso a cada mil meses de aleitamento. Após um ano de amamentação, o risco cumulativo chega a 1,2%, e pode dobrar após dois anos.

“Essas descobertas são particularmente importantes em um momento em que países de alta renda começam a adotar decisões compartilhadas sobre amamentação por mulheres que vivem com HIV”, destacaram em artigo de opinião as pesquisadoras Grace John-Stewart e Irene Njugana, da Universidade de Washington. Elas reforçam que, embora o risco seja baixo, não é inexistente.

Via de parto não altera risco

Outro dado relevante é que o tipo de parto — vaginal ou cesáreo — não influenciou na taxa de transmissão vertical, desde que a carga viral estivesse abaixo de 1.000 cópias/ml no momento do nascimento.

Uma segunda revisão sistemática, publicada no Lancet HIV por pesquisadores do Imperial College de Londres, reforça a importância da adesão ao tratamento e da escolha terapêutica. O uso de inibidores da integrase durante a gestação, por exemplo, reduziu em 64% o risco de transmissão vertical em comparação a outros esquemas. Além disso, cada semana adicional em uso de TARV antes do parto reduziu o risco em cerca de 6%.

Desafios para o futuro

Apesar dos avanços, especialistas alertam que falhas no fornecimento de antirretrovirais ou na adesão ao tratamento ainda representam ameaças à eliminação da transmissão vertical. “O diagnóstico precoce, a adesão à TARV e a supressão viral são cruciais para as mães e seus bebês”, concluem as pesquisadoras da Universidade de Washington.

Com as novas evidências, a ciência reforça que alcançar a supressão viral plena continua sendo a ferramenta mais poderosa para proteger mães e filhos do HIV.

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

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