
Ativistas destacam que, para 2025, é essencial avançar na negociação de medicamentos como o Lenacapavir, ampliar o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e enfrentar o estigma e a discriminação que ainda cercam o HIV/aids. As expectativas incluem maior participação da sociedade civil, fortalecimento de políticas públicas inclusivas e mais investimentos em prevenção e tecnologias inovadoras, enquanto os desafios envolvem o diálogo com o governo e o impacto do conservadorismo político nas políticas de saúde. Confira:

Silvia Almeida, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: “Para 2025, eu penso que a gente vai ter um cenário, claro, de tudo que a gente precisa trabalhar, reconquistar, e que a gente consiga mesmo ter este olhar mais amoroso para tudo e para todos. Que haja mais afetividade nos programas, mais participação, sejamos nós a sociedade civil e os movimentos mais participativos nas decisões que devem ser tomadas. Então eu tenho muita esperança de que 2025 a gente dê um grande salto com relação à prevenção às ISTs, com relação à não discriminação, e com relação ao HIV e aids.”

Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil: “O país precisa avançar no combate ao estigma. Ainda são comuns os casos de pessoas que chegam aos serviços de saúde com aids avançada, por medo de perder o emprego, os amigos e a família. É fundamental que o tema seja debatido em todos os espaços – nas escolas, em casa, nos clubes, nas igrejas, por que não? O HIV/aids precisa estar no centro do debate político, sobretudo num momento em que se discutem cortes de gastos que fatalmente terão impacto no financiamento da saúde púbica. Na AHF, 2025 será um ano de desafios interessantes, como a expansão das nossas atividades em parceria com governos e prefeituras. Já no primeiro trimestre, começaremos a trabalhar em Brasília, juntamente com o Governo do Distrito Federal. Ao longo do ano, vamos fortalecer nossa presença nas 32 unidades do SUS onde já atuamos, nos estados de São Paulo (10), Pernambuco (9), Amazonas (6), Rio Grande do Sul (4) e Pará (3). Em alguns desses serviços de saúde, como Manaus, o paciente com diagnóstico positivo para HIV esperava meses até o início do tratamento. Hoje a média de espera está em até 14 dias e a meta é chegar a não mais que sete dias. Em Viamão (RS), segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, conseguimos reduzir bastante a mortalidade por aids. O caminho é longo, mas resultados com estes nos animam a seguir na luta por mais respeito, dignidade, políticas públicas e financiamento.”

Dan Mercês, da Rede de Jovens e Adolescentes Vivendo com HIV/Aids: “Eu percebo que aqui na região onde eu moro, em Paraty, pouco se é criado políticas públicas e pouco se é falado sobre educação sexual, sobre prevenção e sobre autocuidado. Eu acho que eu criei por um momento um gás na minha mente, que eu deveria estar atuando nessa parte, só que no meio do caminho essa energia foi se acabando, então na minha opinião isso ficou como um desafio. Sobre as minhas expectativas para 2025, eu vou me mudar para o Rio de Janeiro, então acredito que eu vou ter contato com muitas pessoas de movimentos sociais, então as minhas expectativas são as melhores de poder estar mais atuante, inclusive na Rede de Jovens do Rio de Janeiro.

João Geraldo Netto, influenciador digital e fundador do Instituto Multiverso: “As minhas expectativas para 2025 incluem tanto aspectos positivos quanto negativos. Expectativas nem sempre são voltadas apenas para coisas boas. Entre as positivas, espero que continuemos evoluindo, principalmente na negociação do preço dos medicamentos de longa duração. Acredito que esses medicamentos não serão para todos, mas sim para as pessoas mais vulnerabilizadas, que realmente precisam, como pessoas em situação de rua, adolescentes em transição para a vida adulta e outras que enfrentam dificuldades de adesão. Essa fase de transição para a vida adulta é desafiadora, e é importante que esses medicamentos integrem nossas políticas públicas, ao menos para essas populações. Outra expectativa positiva é a melhoria no diálogo com o governo federal, que tem sido muito difícil, mesmo após a posse do novo governo. Não conseguimos manter contato fora das comissões que foram reativadas. Então, é fundamental fortalecer esse diálogo, especialmente porque existem pessoas engajadas na luta, como Jair Brandão, que entende nossas necessidades e está disponível para dialogar. Espero também que se fortaleça a luta contra a aids e que a comunicação melhore. Apesar de o departamento de aids não ter mais uma área de comunicação, seria importante que o governo federal pelo menos investisse em organizações que trabalhem de forma eficaz com comunicação, especialmente aquelas que conseguem alcançar populações específicas, como homens gays falando para homens gays, mulheres falando para mulheres, e assim por diante. O governo não possui essa diversidade interna nem a liberdade necessária para esse tipo de comunicação, mas pode apoiar organizações que já fazem esse trabalho. Também espero que os grupos sociais melhorem a forma de se relacionar internamente. Muitas vezes somos reativos uns com os outros, o que enfraquece nossas lutas. Precisamos de mais respeito e objetivos comuns, para que possamos avançar. Entre as expectativas negativas, vejo o Congresso, as câmaras estaduais e municipais cada vez mais conservadores. Isso dificulta a execução de políticas públicas para minorias e populações vulnerabilizadas, já que leis municipais podem barrar ou restringir essas políticas. Esse será um grande desafio nos próximos anos. Por fim, acredito também que mudanças no Ministério da Saúde são necessárias. Algumas coisas não estão funcionando bem, e seria importante tentar novas perspectivas para ver como essas mudanças podem impactar positivamente.”

Nair Brito, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: “Os pontos altos deste ano de 2024, assim como já acontecia desde 2023, são os avanços na tecnologia de medicamentos, tanto em potência quanto na redução do número de comprimidos. Hoje temos medicamentos mais poderosos, mais eficientes, juntos em um só comprimido. Isso facilita muito a adesão e apresenta poucos efeitos colaterais, o que é muito positivo. O principal ponto alto é que, com isso, temos maior adesão e menos mortes por aids. Outro ponto relevante é que estamos vivos para continuar lutando para que mais pessoas tenham acesso a tratamento e diagnóstico, garantindo o controle da infecção e reduzindo o sofrimento. Para 2025, uma expectativa importante é que os governos municipal, estadual e federal incluam no orçamento recursos financeiros para a pesquisa da cura da aids. Sem investimento em pesquisa, não há expectativa de cura no Brasil. É necessário direcionar uma parte significativa do orçamento para esse objetivo, especialmente porque as novas drogas, embora eficientes, têm um custo elevado. Além disso, entre os avanços de 2024, houve indícios de progresso no desenvolvimento de uma vacina para o HIV. A expectativa é que, em 2025, essa vacina avance para aplicação e ofereça resultados concretos. No Brasil, o sonho da vacina para o HIV frequentemente fica no campo experimental, e o desejo é que finalmente tenhamos boas notícias nesse sentido. Outra expectativa é que a sociedade civil se fortaleça cada vez mais. A luta pelo enfrentamento da aids ainda é longa e exige união. Hoje, o que sustenta o Brasil em questões de tratamento, prevenção, combate ao preconceito e garantia dos direitos humanos é a participação ativa da sociedade civil. Contudo, ela se enfraquece com a redução de recursos para projetos e a falta de estímulo. O desejo é que haja mais investimentos para que o trabalho essencial dessa rede continue, especialmente o protagonismo das pessoas que vivem com HIV, que têm enfrentado essa luta ao longo de quatro décadas. Essa é uma luta atual, tanto contra o preconceito quanto contra a discriminação das pessoas que vivem com HIV.”

Jenice Pizão, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: “Entre os desafios e expectativas para 2025, destaco resolver a questão da PrEP injetável, que facilitaria a adesão com menos efeitos colaterais. Conseguir negociar com os laboratórios a compra do Lenacapavir, negociar para reduzir o valor, como estará acontecendo em países mais pobres, afinal, temos uma enorme população de pessoas vivendo com HIV/aids, o que inviabilizaria a compra, ou se não conseguir, ter vontade política para iniciar o processo do Licenciamento Compulsório, afinal já fomos muito bem sucedidos antes com o Efavirenz. Outro ponto é voltar o Projeto de Saúde e Sexualidade nas escolas. Dar maior visibilidade à epidemia de aids, trazendo informações objetivas e seguras para a população e com isso, reduzir o preconceito e a descriminação.”

Evalcilene Santos, redutora de danos e do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas: “É isso que eu espero para 2025: que haja mais diálogo com a sociedade civil, in loco, nos estados, nos municípios. Que o departamento saia de lá de Brasília e venha conversar e venha ver a realidade dos estados. E nós queremos a cura da aids. Cadê a pesquisa mais para isso? Chega de gente que está dizendo que a gente está todo bonitinho, que está bem vivendo com a aids, porque não está bem. Não está tudo bem em viver com o HIV e a aids. Tem muitas coisas ainda que faltam na prevenção. Falta mais investimento em outras tecnologias também de prevenção. E também na cura do HIV, da aids, na cura da aids. Então, assim, é importante que tenhamos mais apoio para os municípios, para os estados, para os municípios, para o movimento social, que é super importante para 2025. Nós vamos ter a COP30 na região norte, e que o movimento esteja lá, que seja apoiado para estar lá para falar também da eliminação do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis. Nós queremos a cura da aids. Nós queremos ser curados e queremos uma política melhorada para as mulheres. Nós mulheres estamos sendo esquecidas.”

Adriana Galvão, presidente da ONG Projeto Criança Aids: “HIV/aids não é assunto só para dezembro vermelho ou carnaval, é tema pra todos os dias! Informação é poder e temos que falar desse assunto para todos, todas e todes! Não existe grupo de risco e somos todos vulneráveis, então é necessário investir em informações de qualidade, sem preconceitos, sem tabu, com clareza e transparência. Que 2025 seja um ano de mais informação e menos preconceitos. Precisamos romper as bolhas e parar de falar de nós para nós. Vamos ultrapassar os muros e desmistificar os estigmas. Que 2025 tenhamos muito mais a comemorar.”

Américo Nunes, presidente do Instituto Vida Nova: “Os desafios são grandes para 2025, como enfrentar novos candidatos da centro direita, combater o estigma e discriminação, ampliação do conceito I=0 transmissão, junto a população em geral e claro, incorporar novas drogas a exemplo do Lenacapavir, e por fim a reorganização de estratégias e engajamento no Foaesp e MOPAIDS.”

Rodrigo Pinheiro, presidente do Foaesp: “Então, para 2025, acho que a gestão, o DATHI, tem que começar a apresentar resultados. Já teve dois anos de gestão, onde o que foi mais apresentado foi desafios e discutido propostas. Eu acho que agora chegou o momento da implementação, de fato, das políticas públicas. Como a questão já de começar a apresentar alguns resultados na questão dos determinantes sociais, começar a apresentar alguns resultados na questão da incorporação de medicamentos de longa adoração, começar a apresentar alguns resultados também e discussão de como podemos fortalecer os serviços especializados e como podemos fortalecer o trabalho das organizações não governamentais. O que ficou no meio do caminho foi a dificuldade do financiamento para as organizações não governamentais. Além disso, a dificuldade de financiamento para ONGs. O Ministério da Saúde soltou edital para ações focadas em enfrentamento, agora no final desse segundo ano de gestão. A gente percebe que em vários estados existe uma dificuldade de se fazer o repasse para as organizações não governamentais. O Estado de São Paulo demorou mais de um ano para fazer o repasse para as organizações não governamentais fazerem a sua atuação no enfrentamento da epidemia de aids. Então isso foi um grande dificultador que nós tivemos, não somente neste ano, mas eu vi isso desde o ano passado. Também como perspectiva para 2025, é que se tenha um olhar para a importância das organizações não governamentais no enfrentamento da epidemia de aids, e que se tenha também disponibilização de mais recursos para que as ONGs possam continuar atuando neste importante trabalho realizado aqui no Brasil.”
Redação da Agência de Notícias da Aids
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