ImPrEP Len Brasil ganha protagonismo no XVII Seminário de IST/Aids e reforça inovação na prevenção

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Um debate estratégico para o futuro da prevenção

Nesta sexta-feira (28), São Paulo se tornou o epicentro das discussões mais avançadas sobre inovação em prevenção ao HIV no Brasil. O XVII Seminário de Pesquisas em IST/Aids, realizado pela Coordenadoria Municipal de IST/Aids de São Paulo, reuniu pesquisadores, gestores públicos e ativistas para debater rumos da política de prevenção no país e no mundo.

Uma das palestras mais aguardadas foi da dra. Beatriz Grinsztejn, referência internacional em pesquisa em HIV, pesquisadora da Fiocruz e atual presidente da International Aids Society (IAS).

Ela apresentou os avanços e o desenho da implementação do ImPrEP Len Brasil, estudo que será responsável por viabilizar o uso do *Lenacapavir semestral* como alternativa de PrEP entre jovens HSH, pessoas trans e não binárias no país.

“Nós estamos agora na fase de sinalização final, e esperamos que ainda em dezembro já tenhamos aprovação do comitê de ética para todos os centros, e o estudo sendo iniciado em diferentes regiões”, afirmou.

Do comprimido diário às injeções semestrais

A profilaxia pré-exposição (PrEP) oral — tomada diariamente — é política pública brasileira desde 2017, fruto de uma decisão pioneira do Ministério da Saúde. No entanto, a adesão em longo prazo ainda é um desafio real, especialmente entre jovens e populações mais vulnerabilizadas.

A nova alternativa é o Lenacapavir, um medicamento de longa duração aplicado por injeção subcutânea a cada seis meses. Estudos internacionais demonstraram eficácia superior a 90% na prevenção do HIV.

A dra. Beatriz enfatizou: “O Lenacapavir demonstrou elevada eficácia na prevenção do HIV em uma população bastante diversa — homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, travestis e pessoas não binárias. Houve uma redução de 96% de incidência em relação à expectativa basal”.

O medicamento ainda não está aprovado para uso no Brasil — seu possível futuro uso depende exatamente das evidências geradas pelo ImPrEP Len Brasill. Mas ele já está autorizado para prevenção em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e Canadá, além de em alguns contextos específicos da Europa Ocidental.

O estudo ImPrEP Len Brasil e seu alcance

O projeto será implementado em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e outras cidades estratégicas. O foco é claro: não oferecer o Lenacapavir apenas para quem já está em PrEP oral — mas para quem não consegue aderir ao comprimido diário, seja por rotina, estigma, barreiras sociais ou instabilidade de acesso.

“A gente não quer ofertar para quem já está bem na PrEP oral. A gente quer avançar no acesso — principalmente para os mais vulneráveis”, afirmou a pesquisadora.

Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo/Reprodução

O estudo terá acompanhamento intensivo:

  • suporte digital para lembretes de doses
  • logística laboratorial estruturada
  • acompanhamento clínico guiado por sistemas inteligentes
  • treinamento das equipes
  • envolvimento da comunidade

Tudo isso procurando replicar condições da vida real, para que, caso aprovado, o modelo possa ser incorporado ao SUS com viabilidade técnica e orçamentária.

O CTA sobre rodas: o ônibus que encontra quem mais precisa

Um destaque especial da fala da dra. Beatriz foi o reconhecimento da estratégia paulistana de prevenção móvel.

“Aqui na cidade de São Paulo, além do CRT e dos serviços fixos, nós também vamos fazer essa iniciativa de oferta dentro do CTA da Cidade — que funciona em um ônibus e circula por todas as regiões do município. É fundamental estar onde as pessoas estão.”

Esse modelo é crucial para atingir

  • jovens fora do sistema formal de saúde
  • pessoas em situação de rua
  • usuários de substâncias
  • trabalhadores sexuais
  • migrantes
  • população negra periférica

A pesquisadora ressaltou: “A gente precisa fugir do padrão de acesso restrito às pessoas mais escolarizadas, brancas e que já possuem vínculo com o sistema de saúde.”

Essa busca ativa é a essência do novo paradigma de prevenção.

Desigualdades que moldam o acesso à saúde

O estudo também incorpora um componente qualitativo, avaliando os efeitos das desigualdades estruturais no acesso à prevenção — renda, escolaridade, território, raça, discriminação. “Não podemos ter uma nova tecnologia sofisticada que acabe priorizando quem já está mais integrado ao sistema. Temos que garantir que o Lenacapavir alcance as pessoas que mais precisam.”

Beatriz citou dados sobre o impacto de políticas sociais como o Bolsa Família e sua correlação com redução de mortalidade, pobreza extrema e indicadores de saúde — mostrando que política pública efetiva se faz olhando para a base.

A perspectiva comunitária e a formação das equipes

O ImPrEP Len Brasil será conduzido com participação ativa de

  • educadores pares
  • ativistas
  • lideranças comunitárias
  • organizações sociais

“As equipes são compostas por uma diversidade tremenda de agentes — incluindo educadores de bares, profissionais da rua, da comunidade — que conhecem o território e chegam realmente até as pessoas.”

Esse modelo rompe com a lógica tradicional biomédica verticalizada e coloca a comunidade como protagonista.

O Brasil diante de uma fronteira histórica

Se os resultados do ImPrEP Len Brasil forem favoráveis, o país poderá se tornar um dos primeiros do mundo a incorporar a PrEP semestral no sistema público universal.

Isso mantém a tradição brasileira de liderança em políticas de prevenção e acesso à saúde desde os anos 90.

Ao final da apresentação, a dra. Beatriz explicou o espírito do momento: “É muita paixão e muito amor que se faz. Porque, de fato, o olho tem essa ideia: estar onde as pessoas estão — e dessa vez levar também um estudo oferecendo uma nova tecnologia.”

A PrEP semestral não é — e não será — a única opção disponível. Ela será mais uma ferramenta no arsenal de prevenção. O Brasil agora entra em uma etapa decisiva — e São Paulo, com seus serviços, sua rede e seu ônibus CTA em movimento, vai ocupando um papel central na construção do futuro da prevenção do HIV.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Coordenadoria de IST/Aids de SP

E-mail: istaids@prefeitura.sp.gov.br

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