
Julho de 1989. No dia 26, a revista *Veja*, uma das publicações de maior circulação no Brasil, estampou em sua edição semanal uma manchete que se tornaria símbolo da forma como a mídia, na época, tratava a epidemia de HIV/aids e as pessoas que viviam com o vírus. Com um título sensacionalista, desrespeitoso, cruel e infeliz, a revista publicou: “Cazuza, uma vítima da aids agoniza em praça pública.”
Cazuza não estava agonizando “em praça pública”. Como todas as pessoas que haviam se infectado naquela década, buscou possibilidades de cura e condições para melhorar a saúde. Tampouco o poeta se deixou vitimizar pela doença: seguiu escrevendo, compondo, gravou mais músicas, resistiu como e quanto pôde.
“Tocado pela Aids”, disse o médico aos pais

Lucinha Araújo, mãe do cantor, relata ao podcast *Papagaio Falante*, apresentado por Sérgio Mallandro e Renato Rabelo, como foi a descoberta do diagnóstico e diz que saber sobre a infecção do filho “foi o dia mais triste da minha vida”.
Ao ler a manchete da Veja, Cazuza “começou a chorar e teve uma queda brusca de pressão, relatou
Júlio Ettore, jornalista, geógrafo e músico brasileiro, conhecido por seu trabalho no YouTube com o canal “Júlio Ettore Rock”, onde aborda temas relacionados ao rock nacional, especialmente o dos anos 1990, relata que, quando leu a manchete e viu a revista, o compositor estava com seus pais e a equipe que o apoiava para cuidados em Petrópolis. “Cazuza começou a chorar.

Teve uma queda brusca de pressão que fez com que a família voltasse imediatamente para a capital e ele acabou sendo internado.” A manchete causou indignação e repulsa na família, nos amigos, em muitos artistas e jornalistas.
A reportagem, publicada após a revelação pública do diagnóstico do cantor, apresentava Cazuza como um corpo em decadência, esgotado pela doença, e usava uma linguagem fria e alarmista. O texto o descrevia em tom de espetáculo, como se sua luta pela vida fosse um ato de exposição ou vaidade. Em vez de empatia, oferecia julgamento. Em vez de informação, reforçava o estigma.
A exposição do poeta e a resposta da família
Cazuza já havia assumido viver com HIV em uma emblemática conversa com o jornalista Zeca Camargo, publicada pela Folha de São Paulo. Ele vinha enfrentando a doença com coragem e franqueza — participando de shows, gravando discos e aparecendo publicamente mesmo com sinais visíveis do agravamento de sua saúde.
A forma como a Veja tratou o assunto foi vista por muitos como desrespeitosa, expondo o sofrimento do artista como se fosse um espetáculo mórbido.
Uma imprensa que contribuiu para a manutenção do estigma
A cobertura da Veja não foi um caso isolado. Nos anos 80 e 90, a Aids ainda era cercada de desinformação, preconceito e julgamentos morais. Pessoas vivendo com HIV eram frequentemente associadas à promiscuidade, à culpa e à morte. A mídia, em vez de humanizar essas histórias, muitas vezes ajudou a alimentar o medo e o isolamento social. Quatro décadas depois do surgimento do HIV, o trabalho de informar e auxiliar a ampliar o uso de profilaxias pré e pós-exposição, que dão a condição de barrar a cadeia de transmissibilidade do HIV, segue sendo um grande desafio para a mídia mundial.
A força com que Cazuza enfrentou o estigma — mesmo diante de manchetes como essa — ajudou a abrir um novo caminho. Sua decisão de viver e morrer publicamente, sem esconder os efeitos da doença, foi transformadora. Ele virou referência, símbolo e bandeira para milhares de brasileiros e pessoas em todo o mundo que, até então, viviam calados e envergonhadas por terem se infectado com o vírus que, sem adesão ao tratamento, pode virar Aids e tirar vidas como a do lúdico, irreverente, brilhante, amoroso e inesquecível Cazuza!



