15/03/2007 – 15h35
Integrantes da mesa de abertura do III Seminário Destaque Mulher, promovido pelo Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo
Uma das metas do “Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização de Aids e outras DST”, a que trata da eliminação da sífilis congênita até o próximo ano, não será cumprida, ao menos no prazo estipulado no texto apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na manhã da última quarta-feira (07/03). Quem garante é Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo. O plano é de autoria do governo federal, mas, como o próprio documento indica, os “executores” da iniciativa de eliminação da sífilis congênita (quando ocorre a transmissão da moléstia da mãe para o bebê na fase de gestação ou durante o parto) serão, ao lado do Ministério da Saúde, as “secretarias estaduais e municipais de saúde”. “Os casos de sífilis congênita não tem um registro adequado”, avaliou Maria Clara Gianna durante a mesa de abertura do III Seminário Destaque Mulher, ocorrida na manhã desta quinta-feira (15/03). Na opinião da coordenadora, a eliminação total da doença será realidade quatro anos após a data estipulada no plano lançado na semana passada, ou seja, apenas em 2012.
Cássio Figueiredo, psicólogo da Coordenação de Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde (ligada à Secretaria Municipal de Saúde da capital paulista), revelou que a terceira causa de mortes do estado de São Paulo, entre mulheres de 15 a 45 anos, é a Aids. “Eu vejo mulheres jovens. Mulheres que já nasceram no contexto da Aids e que estão se infectando”, lamentou.
Também fizeram parte da mesa de abertura, que começou exatamente às 9h29 da manhã de hoje, Maria Cristina Abbate, coordenadora do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo, e Ana Lúcia Cavalcanti, médica da Coordenadoria da Mulher. “A coordenadoria articula políticas para as mulheres dentro de cada secretaria”, explica Cavalcanti, ao discorrer sobre o funcionamento do órgão ligado à prefeitura paulistana.
“Hoje, uma em cada cinco mulheres se declara vítima de violência”, revela Cavalcanti. “É importante que a gente fale de direitos sexuais e reprodutivos”, completa. Em seguida, Maria Cristina Abbate encerrou a mesa de abertura do evento promovido pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, por meio do Programa de DST/Aids do maior munícipio do país.
Abbate parabenizou as agentes de prevenção e profissionais de saúde presentes a um dos auditórios do Centro de Formação Dr. Antonio Guilherme de Souza, localizado na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, lembrou do processo de feminização da Aids e avaliou que “ainda” existe uma “relação de poder [na qual a mulher é submetida aos desígnios masculinos] que precisa ser trabalhada.”
“As mulheres obedientes vão para o céu, as mulheres desobedientes vão para onde quiser”, brincou Maria Cristina Abbate no encerramento de sua fala. Em seguida, teve início a segunda mesa do dia, na qual seriam discutidos os seguintes temas: “Mulher e Televisão” e “Direitos e Cidadania”.
A primeira palestrante, Heloísa Buarque de Almeida, antropóloga e professora da Universidade de São Paulo (USP), explicou “como a televisão constrói essa cultura” patriarcal. Em sua tese de mestrado, intitulada “Telenovela, consumo e gênero”, ela entrevistou telespectadores comuns, que destacaram os três aspectos mais importantes em relação aos meios de comunicação visuais. De acordo com os pesquisados, as TVs estimulariam o sexo e o consumismo e, além disso, não seriam imparciais quando os temas tratados envolvem alguma questão política.
A antropóloga Heloísa Buarque de Almeida também reuniu entrevistas concedidas por autores de telenovelas, que reveleram seu objetivo com o trabalho realizado para concretizar os folhetins. “Eles [os autores] querem modernizar o mundo do consumo, não os do direito. O que interessa é fazer a roda do consumo rodar”, explica Almeida. Ela pede que a televisão eduque não “apenas para o consumo”, mas para a “cidadania e igualdade”.
Após a palestra da antrópologa, as espectadoras reclamaram do personagem soropositivo da novela “Páginas da Vida” (Rede Globo), que, na avaliação das presentes, não foi retratado de uma maneira fiel à realidade.
Na seqüência, a advogada Claudia Patrícia Luna Silva, do Conselho Estadual da Condição Feminina (OAB), explicou conceitos como “cidadania” e contou a história do movimento feminista. “São cinco mil anos de dominação do homem pela mulher”, disse.
“Se eu conquisto direito, eu conquisto poder, mas eu conquisto poder através da informação”, explicou, didaticamente, para as presentes. No evento, que se encerra por volta das 16h00, ainda vão acontecer, entre outros, debates sobre “raça” e “mulheres presas”.
Léo Nogueira



