Identidades Trans: Crianças trans precisam ter acesso a cuidados de saúde abrangentes, adequados ao desenvolvimento, defendem ativistas

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Parametrização, performance e medicação foram os temas abordados na conversa da última quarta-feira (8), no “Seminário Identidades Trans e Travestis: Cidadania, Memória e Coletividade”, que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo. A saúde integral de crianças trans foi o tema central das discussões. 

Apesar de hoje em dia haver uma maior compreensão em relação ao assunto, crianças e adolescentes com variação de gênero ainda são alvos de bullying, rejeição, preconceito, violência física, verbal e ostracismo social que afetam sobremaneira seu bem-estar psicológico e muitas vezes causam ansiedade e depressão. Pais e familiares também são criticados ou rejeitados por isso. Como os médicos e a medicina podem auxiliar as transições?

O cientista político e ex-deputado federal Jean Wyllys, mediou a conversa e disse que acha importante o debate sobre a infância de pessoas LGBTs, frequentemente marcada por agressões e crueldade. “Muitas pessoas acham que nós não tivemos infância, que já nascemos adultos, mas se não fosse a violência e o silêncio da infância, nós não seríamos quem somos.”

A oficial de igualdade e direitos no Unaids Brasil, Ariadne Ribeiro, compartilhou sua trajetória enquanto pessoas trans. Ela não teve uma infância fácil, vivenciou uma série de estigmas e sofreu violências por não estar no padrão cisnormativo. “Fui uma criança trans, vivi essa transição muito cedo, saí de casa aos 13 anos de idade, é importante para mim lembrar todo o processo de vulnerabilização que foi feito inclusive porque eu não cabia na norma que foi estabelecida, que se estabelece até hoje e é difícil de romper.” 

Ariadne comenta que sua transição foi um fator importante de autoconhecimento e perseverança. “A transição não me deu somente a liberdade de ser quem eu sou, ela foi minha grande curiosidade e que despertou uma esperança de viver. Sou a mulher trans com o cargo mais alto das Nações Unidas, quando falo para 152 nações, em Genebra, que crianças trans existem e que se faz necessário o investimento para que vidas de trans e travestis sejam protegidas, enxergo o aspecto que muitas vezes a psiquiatria não consegue perceber, que é o da manipulação psicológica”, explica. 

“Sou a pessoa que sou graças ao SUS, aos 18 anos minha avó me levou ao Hospital das Clínicas, quando a resolução que possibilita o cuidado experimental de pessoas trans saiu, obtive a compreensão dos profissionais de saúde que me atenderam e que me deram empoderamento, se não fosse por eles não estaria aqui”, compartilha. 

Renée Cessel, que é médique, fala sobre ser uma pessoa trans não-binária e sua representatividade nas pautas que são discutidas. “Eu represento o não gênero, a possibilidade de nos vermos [trans e travestis] como um quadro branco, que faz uma ruptura epistemológica em toda ciência médica.”

Renée comenta como os ambulatórios para trans e travestis são separados dos demais e como a medicina ainda precisa abranger a comunidade dentro da sociedade. “Por que não podemos ir em ambulatórios que todos vão? Não queremos segregação no meio médico, queremos ser tratados iguais as pessoas cis.”

A psicóloga Sofia Favero, do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul, traz uma reflexão sobre como é trabalhar com crianças trans e como é a abordagem. “Penso como direcionar meu trabalho na perspectiva terapêutica, como fazer com que as falas e discursos das crianças circulem para que o trabalho possua um senso de comunidade. Meu objetivo é infantilizar os métodos de pesquisa para que tenha o entendimento da comunidade trans e travesti.” 

A especialista diz que a abordagem das crianças gira em torno do dia a dia em que vivem, trazendo reflexões e conversas que se encaixem no meio infantil. “Semanalmente faço a pergunta do que elas gostariam que fossem diferentes na escola, sobre os assuntos que desejariam que os adultos soubessem.”

“Tratamos, observamos e cuidamos do presente da criança, não do futuro, pois não sabemos o que irá se passar com ela daqui alguns anos”, esclarece.

Sofia ainda ponderou sobre a existência das crianças trans, como suas vozes e desejos precisam ser ouvidos pelos adultos. “Não se trata de dizer se crianças trans existem ou não, pois elas existem, não se trata de ouvir se elas falam ou não, pois elas falam, se trata de criar condições para que suas mensagens sejam mais ampliadas.” 

O ponto da medicação foi incluído como um agente importante para o auxílio das pessoas trans e travestis, desde a infância até a fase adulta. Entender como a assistência médica ajuda a moldar o futuro e o conhecimento de vidas, faz com que pessoas trans se sintam encorajadas a encontrar na medicina uma forma de empoderamento e perseverança. 

Lygia Cavalcante (lygia@agenciaaids.com.br)

 

Dica de entrevista

Ariadne Ribeiro 

Instagram: @ribeiroariadneoficial 

Renée Cassel

Instagram: @drereneecessel

Sofia Favero

Instagram: @sofiafavero

Jean Wyllys

Instagram: @jeanwyllys_real

 

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