IAS 2025: Viagem de ativista à conferência em Ruanda gera controvérsia e pedidos de explicações ao Ministério da Saúde. Governo informa que foi procurado por Rede Lusófona e contribuiu com a participação do brasileiro

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A participação do ativista Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo (Foaesp), na 13ª Conferência da IAS sobre Ciência do HIV (IAS 2025), realizada em Kigali, Ruanda, provocou reações de diferentes setores da sociedade civil organizada brasileira. Fóruns e redes de luta contra a aids encaminharam cartas de repúdio ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, cobrando explicações sobre os critérios que definiram o apoio oficial à presença do ativista no evento.

As manifestações questionam a falta de transparência no processo de seleção e indicam que a escolha de Rodrigo não teria passado por instâncias coletivas ou nacionais do movimento. Segundo os documentos recebidos pela Agência Aids, o ativista estaria representando apenas o Foaesp, sem respaldo das demais redes nacionais. A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+Brasil) protocolou uma solicitação formal ao Ministério da Saúde, destacando a preocupação com o uso transparente de recursos públicos e o respeito à representatividade das organizações nacionais.

Em nota enviada ao ministro Padilha, a RNP+Brasil afirma:

“Solicitamos informações sobre os critérios adotados pelo Ministério da Saúde e pelo Dathi(Departamento de HIV/aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs) para inclusão de um representante do Foaesp, uma organização estadual, na referida comitiva. Tal questionamento se fundamenta, inclusive, no fato de que o Foaesp já está sendo representado pela Anaids”.

O Fórum Paraense de ONGs/Aids (Fopaids), o Fórum Amazonas de OSC HIV/Aids, a Coalizão Brasile a Rede Brasil de Pessoas Idosas Vivendo com HIV (RBPI-VH) também publicaram notas. Todas criticam a escolha de um representante estadual em uma delegação que deveria refletir a diversidade nacional e ser construída de forma democrática.

Em sua carta, o Fórum Amazonas afirma que a inclusão do Foaesp “levanta dúvidas sobre a coerência e justiça do processo seletivo” e reforça a importância da diversidade regional, principalmente diante dos desafios enfrentados pelas populações do Norte e Centro-Oeste no acesso a políticas públicas.

Já o Fórum Paraense sustenta que “o que está em pauta é a validação ou a negação de uma história construída coletivamente ao longo de décadas”, e adverte sobre os riscos de concentração de poder e exclusão política: “Não se constrói uma ponte sólida com apenas uma viga central. É preciso sustentar cada extremidade para que todos possam atravessar juntos”.

A Coalizão+Brasil, articulação nacional de redes e fóruns, solicitou publicamente os critérios de escolha e recomendou que futuras delegações tenham seus processos de indicação publicizados com antecedência, incluindo listas e justificativas.

A Rede Brasil de Pessoas Idosas Vivendo com HIV (RBPI-VH) também manifestou perplexidade diante da duplicidade de representação do Foaesp: “A inclusão do mesmo representante pela via estadual e nacional fere os princípios de equidade e levanta questionamentos sobre o uso dos recursos públicos”.

A polêmica também envolve o diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, Dráurio Barreira, que teria confirmado que o apoio à viagem de Pinheiro partiu de um pedido direto ao gabinete do ministro Padilha. O governo brasileiro incluiu na delegação da IAS representantes de todas as principais redes nacionais de pessoas vivendo com HIV, além da Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids).

O que diz Rodrigo Pinheiro

Em entrevista à Agência Aids, Rodrigo rebateu as críticas e explicou que sua presença na IAS 2025 está vinculada à Rede Lusófona de Saúde Comunitária (RLSC), da qual é uma das lideranças. Segundo ele, a rede articulou um conjunto de ofícios solicitando apoio institucional e governamental para viabilizar a presença de seus representantes na conferência, com o objetivo de fortalecer a atuação da sociedade civil dos países lusófonos na resposta à epidemia.

“Foi uma solicitação dentro da articulação da rede lusófona. A gente está aqui com um trabalho que vai além da participação no congresso. Estamos organizando para que o Brasil sedie, em 2026, o Congresso da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em paralelo à próxima edição da IAS. O ministro Padilha conhece nosso trabalho desde quando esteve em São Tomé e Príncipe conosco e decidiu apoiar”, afirmou Pinheiro.

O ativista também criticou a reação negativa de setores do movimento social:

“Esse movimento enlouquece por viagem e representação. Não sabem nem o porquê da coisa. Não foi o ministro Padilha que acordou e decidiu bancar uma viagem. Houve uma solicitação formal, baseada em ações concretas da rede lusófona.”

Documentos apresentados

Para justificar sua participação, Pinheiro compartilhou com a reportagem dois documentos enviados pela Rede Lusófona. A Carta-Convite propõe a organização de uma delegação da RLSC à IAS 2025, com foco na articulação internacional, troca de experiências e construção da agenda do próximo Congresso da CPLP sobre HIV e saúde comunitária.

Já a Nota de Participação detalha os objetivos estratégicos da presença da rede na conferência: mobilização de recursos, promoção de boas práticas e articulação política internacional. O documento reforça o papel da rede como espaço de diálogo entre representantes da sociedade civil dos países de língua portuguesa, incluindo o Brasil.

Ministério  da Saúde se manifesta e informa que foi procurado por uma das entidades que compõe a Rede Lusófona de Saúde Comunitária, que foi o Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo (Foaesp), e resolveu contribuir com a participação de um representante da entidade no evento

A Agência Aids entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde na última quinta-feira (10) solicitando um posicionamento oficial sobre o caso. Nesta quarta-feira  (16), o Ministério encaminhou uma nota explicando sua posição:

“A Rede Lusófona de Saúde Comunitária (RLSC), com vista a aprimorar o enfrentamento do HIV/Aids e outras condições relacionadas a saúde comunitária nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), remeteu em 05 de maio de 2025, um convite as entidades da sociedade civil que compõe a referida Rede, para participarem da IAS 2025 (Conferência Internacional de Aids), de 13 a 17 de julho de 2025, em Kigali, Ruanda. A RLSC destacou no referido convite que as entidades convidadas deveriam buscar apoio institucional para suas respectivas participações no evento. Neste sentido, o Ministério da Saúde foi procurado por uma das entidades que compõe a Rede Lusófona de Saúde Comunitária, que foi o Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo, e resolveu contribuir com a participação do Senhor Rodrigo Pinheiro, que foi convidado para o evento.”

O IAS 2025, considerado o principal encontro internacional sobre ciência do HIV, reúne entre os dias 13 e 17 de julho pesquisadores, profissionais da saúde, representantes de governos e ativistas do mundo todo. A conferência acontece este ano em Kigali, capital de Ruanda.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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