
O uso de esquemas intermitentes no tratamento do HIV — como folgas nos fins de semana — vem sendo avaliado como uma alternativa viável em tempos de crise no financiamento global da resposta à aids. Estudos apresentados na 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), em Kigali, Ruanda, indicam que a estratégia pode funcionar em adultos com carga viral controlada, mas não deve ser adotada por adolescentes vivendo com HIV, especialmente em países com acesso limitado ao monitoramento laboratorial.
A prática ainda não é recomendada por diretrizes nacionais ou internacionais, mas surgiu como resposta à escassez de medicamentos causada por cortes no financiamento norte-americano, como o do PEPFAR. Um levantamento do Unaids em 56 países afetados mostrou que 46% enfrentam interrupções no fornecimento de antirretrovirais e 14% têm menos de seis meses de estoque de ao menos um medicamento essencial.
Estratégia intermitente: eficácia e riscos
A ideia por trás do tratamento intermitente é que pequenas pausas no uso dos medicamentos, como dois dias consecutivos sem pílulas por semana, não seriam suficientes para permitir a replicação viral em pessoas com carga viral suprimida, desde que os níveis de medicamentos no organismo permaneçam adequados.
Uma revisão sistemática e meta-análise conduzida por pesquisadores de cinco países, incluindo Reino Unido, França e África do Sul, analisou oito ensaios clínicos randomizados com 1.346 participantes adultos. Os estudos testaram esquemas como cinco dias com tratamento e dois sem, ou três dias com e quatro dias sem.
Os resultados foram animadores: não houve diferença significativa entre os grupos intermitente e contínuo na manutenção da carga viral abaixo de 50 cópias/ml. A taxa de rebote viral foi de apenas 3% em ambos os grupos. Além disso, a análise de resistência mostrou taxas semelhantes entre os esquemas (1,9% vs 2,1%).
No entanto, especialistas alertam: esses estudos foram realizados em contextos com acesso regular a exames de carga viral. Em países de baixa e média renda, onde os exames são menos frequentes e o diagnóstico de falha pode demorar, o risco de falha virológica e resistência pode aumentar substancialmente, conforme destacou a Dra. Cassandra Fairhead, do Royal Free Hospital, em Londres.
Adolescência: faixa etária mais vulnerável
Em contrapartida aos dados positivos em adultos, o estudo BREATHER Plus, apresentado pela Dra. Adeodata Kekitiinwa, do Baylor College of Medicine em Uganda, trouxe um alerta importante: entre adolescentes vivendo com HIV, o tratamento intermitente foi significativamente inferior ao contínuo.
O estudo acompanhou 470 adolescentes de Quênia, África do Sul, Uganda e Zimbábue, com idade média de 16,5 anos. A maioria (97%) adquiriu o HIV por transmissão vertical e já estava em terapia antirretroviral havia mais de 11 anos, sendo os últimos 2,5 com esquema baseado em tenofovir, lamivudina e dolutegravir (TLD).
Ao longo de 96 semanas, o grupo que fez pausas no tratamento teve mais que o dobro de risco de rebote viral do que o grupo em esquema contínuo. A taxa de rebote no grupo intermitente foi de 10%, contra 5% no contínuo. A análise de sobrevida (Kaplan-Meier) mostrou razão de risco de 2,1 para falha no grupo intermitente.
Dos 33 adolescentes que apresentaram rebote viral, apenas 19 dos 23 no grupo intermitente conseguiram voltar à supressão, e três desenvolveram mutações de resistência aos medicamentos. Durante o estudo, 20 adolescentes que estavam no regime intermitente migraram para o tratamento diário, incluindo seis devido ao rebote viral, 13 por gravidez ou desejo de engravidar e um por escolha pessoal.
Apesar disso, um subestudo sobre adesão mostrou que a taxa de ingestão correta dos comprimidos foi de 92% nos dois grupos, sugerindo que a pior performance do grupo intermitente não se deve à adesão*, mas à própria estratégia de pausas em um contexto com exames de carga viral apenas a cada 6 a 12 meses.
Os dados da IAS 2025 indicam que o tratamento intermitente pode ser uma ferramenta útil para aliviar a pressão sobre os sistemas de saúde e garantir acesso mais amplo aos antirretrovirais em tempos de escassez, mas somente para adultos com HIV bem controlado e em contextos com monitoramento laboratorial regular.
Para adolescentes vivendo com HIV em países africanos e em outros contextos com infraestrutura limitada, a estratégia não é segura e aumenta o risco de falhas terapêuticas.
Os pesquisadores destacam a necessidade urgente de ensaios clínicos desenhados especificamente para realidades de baixa e média renda, considerando intervalos de testagem e protocolos de tratamento locais.
Redação da Agência Aids com informações


