IAS 2025: Tratamento injetável contra o HIV mostra eficácia em pessoas com adesão irregular na África

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O tratamento injetável de ação prolongada com cabotegravir e rilpivirina (CAB/RPV) mostrou ser tão eficaz quanto os esquemas orais padrão com dolutegravir no tratamento de pessoas com HIV que enfrentam dificuldades para manter a adesão ao uso diário de comprimidos. Os resultados do estudo IMPALA, conduzido em três países africanos, foram apresentados esta semana na 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), em Kigali, Ruanda.

A pesquisadora Dra. Fiona Cresswell, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, afirmou que os resultados abrem caminho para que o tratamento injetável seja considerado uma alternativa realista e segura para populações que não conseguem manter a regularidade no tratamento oral, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social e estigma, como ocorre em muitas regiões da África Subsaariana.

O estudo IMPALA envolveu 540 pessoas vivendo com HIV em Uganda, Quênia e África do Sul, com histórico de controle inadequado do HIV, como carga viral persistentemente elevada, interrupções no tratamento ou atraso no início da terapia após o diagnóstico.

Antes de ingressarem no tratamento injetável, os participantes passaram por uma fase de triagem, na qual precisavam atingir uma carga viral abaixo de 200 cópias/ml com um esquema oral padrão (tenofovir, lamivudina e dolutegravir). Após essa fase, foram randomizados para continuar no esquema oral ou migrar para o CAB/RPV injetável, aplicado a cada dois meses.

Na semana 48, 91% das pessoas no grupo injetável e 89% no grupo oral apresentaram carga viral indetectável. Os resultados mantiveram-se consistentes inclusive entre pessoas com índice de massa corporal elevado, o que pode influenciar a absorção dos medicamentos.

Embora cinco casos de falha virológica tenham ocorrido no braço injetável, todos conseguiram retomar o controle da infecção com esquemas orais alternativos. Quatro participantes interromperam o tratamento por eventos adversos leves ou moderados, sem relatos de reações graves no local da injeção.

Privacidade e adesão: injetáveis reduzem o estigma

Segundo os pesquisadores, a preferência pelo tratamento injetável foi alta, em grande parte devido à discrição proporcionada pelas injeções, que dispensam o uso diário de comprimidos e evitam a exposição pública da condição sorológica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já recomendou o uso do CAB/RPV como opção de substituição para pessoas com HIV estável e sem infecção ativa por hepatite B. A expectativa é que os países de baixa e média renda incorporem esse regime às suas diretrizes nacionais, o que deve acontecer de forma gradual.

Barreira atual: acesso a versões genéricas

Apesar dos resultados promissores, o acesso à terapia injetável ainda enfrenta barreiras. A ViiV Healthcare, fabricante do cabotegravir, anunciou nesta semana, durante a IAS 2025, que ampliará o licenciamento voluntário por meio do Medicines Patent Pool, o que poderá viabilizar a produção de versões genéricas em países de baixa e média renda.

Contudo, a chegada dessas versões ao mercado deve levar pelo menos dois anos. A médio prazo, especialistas como a Dra. Cissy Kityo, de Uganda, veem com otimismo a possibilidade de combinar o cabotegravir (a cada dois meses) com o lenacapavir (a cada seis meses) para criar um regime injetável ainda mais conveniente. Um ensaio clínico será necessário para testar essa nova abordagem.

Risco da hepatite B exige atenção

O estudo IMPALA também observou a questão da hepatite B, já que nenhum dos dois medicamentos injetáveis protege contra o vírus. Cerca de 10% dos potenciais participantes foram excluídos por infecção ativa ou ausência de imunidade à hepatite B. Apenas 7% apresentaram imunidade vacinal.

Durante o estudo, um participante do braço CAB/RPV contraiu hepatite B, o que levou o comitê de segurança a recomendar a vacinação universal contra hepatite B para quem iniciar o regime injetável. Não houve casos de reativação do vírus.

O infectologista Dr. Ubaldo Bahemuka avaliou que, embora o risco de reativação seja baixo, é importante testar para hepatite B sempre que possível antes de iniciar o tratamento com CAB/RPV.

Os dados apresentados na IAS 2025 confirmam que o tratamento injetável com cabotegravir e rilpivirina de ação prolongada pode ser uma alternativa segura e eficaz para pessoas com dificuldades de adesão ao tratamento oral, inclusive em contextos de maior vulnerabilidade e estigma.

Para países africanos e regiões com desafios estruturais, como o Brasil e outras partes da América Latina, a expansão do acesso a esses regimes — especialmente com a chegada de versões genéricas — pode representar um divisor de águas na luta contra o HIV, oferecendo mais opções de cuidado e mais dignidade para quem vive com o vírus.

Redação da Agência Aids com informações

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