
Um levantamento inédito apresentado por Meg Stevenson, da Escola de Saúde Pública Bloomberg da Universidade Johns Hopkins, revela os graves impactos da suspensão da ajuda externa dos Estados Unidos sobre a resposta ao HIV na América Latina e no Caribe. A pesquisa foi divulgada durante a 13ª Conferência da IAS sobre Ciência do HIV, realizada em Kigali, Ruanda, na sessão sobre financiamento global e sustentabilidade.
Segundo o estudo, 21 das 24 organizações que receberam financiamento norte-americano no último ano relataram cortes abruptos nos repasses — o equivalente a 87% das participantes da pesquisa. Em média, os cortes representaram quase metade do orçamento anual dessas instituições. Em alguns casos, os recursos perdidos correspondiam a 100% do financiamento total.
A pesquisa foi conduzida entre 18 de fevereiro e 14 de março de 2025, por meio de um questionário online respondido por 40 organizações comunitárias de serviços em HIV espalhadas por 13 países da América Latina e do Caribe. Os cortes começaram no fim de janeiro e atingiram diretamente programas de prevenção e tratamento do HIV voltados a adultos e crianças, além de serviços complementares de apoio psicossocial, educação em saúde e distribuição de insumos.
“Esses números revelam não apenas uma fragilidade no modelo atual de financiamento, mas um risco concreto à continuidade de políticas públicas e comunitárias que salvam vidas”, afirmou Meg Stevenson durante a apresentação dos dados no pôster.
A suspensão da ajuda financeira internacional afeta especialmente países de baixa e média renda da região, que há anos dependem do apoio técnico e financeiro dos Estados Unidos para manter suas respostas ao HIV em funcionamento. Organizações comunitárias, frequentemente responsáveis por alcançar populações mais vulneráveis — como pessoas trans, trabalhadores do sexo, usuários de drogas e homens que fazem sexo com homens — são as mais afetadas.
Embora o estudo ainda esteja em fase de pré-publicação, os dados reforçam os alertas feitos por ativistas e especialistas sobre os efeitos colaterais das decisões de política externa norte-americana sobre a saúde pública global.
A situação também levanta dúvidas sobre a sustentabilidade dos avanços conquistados nas últimas décadas no combate ao HIV na América Latina e no Caribe. “Sem financiamento estável e previsível, muitas dessas organizações podem fechar as portas, interrompendo serviços essenciais e colocando milhares de vidas em risco”, concluiu Stevenson.
A comunidade internacional agora se vê diante do desafio de buscar alternativas de financiamento e pressionar por políticas que garantam a continuidade da resposta ao HIV, especialmente em contextos marcados por desigualdades históricas.
Redação da Agência de Notícias da Aids



