
Uma combinação inovadora de anticorpos amplamente neutralizantes (bnAbs) com um medicamento imunomodulador demonstrou potencial para manter a carga viral do HIV controlada mesmo após a interrupção do tratamento antirretroviral (TARV), segundo dados apresentados na IAS 2025, realizada em Kigali.
O estudo, liderado pela professora Marina Caskey, da Universidade Rockefeller, avaliou 28 pessoas com infecção crônica pelo HIV que estavam com a carga viral indetectável graças à TARV. Dessas, 24 interromperam voluntariamente o tratamento antirretroviral para participar da pesquisa e receberam a infusão de dois bnAbs – 3BNC117-LS e 10-1074-LS – e até oito aplicações subcutâneas do imunomodulador N-803 (Anktiva), em um protocolo inédito.
Os resultados surpreenderam: 58% dos participantes permaneceram sem necessidade de retomar a TARV por pelo menos seis meses. Quase um terço manteve o controle viral por mais de um ano, e um participante segue sem antirretrovirais há mais de 30 meses, sob acompanhamento contínuo. “Estamos vendo padrões diversos de rebote viral e, em alguns casos, uma viremia persistentemente baixa por longos períodos”, destacou Caskey durante a conferência.
O que são bnAbs e o que é o N-803?
Enquanto a TARV suprime a replicação viral, o HIV permanece latente em reservatórios celulares, o que impede sua erradicação completa. Os bnAbs são anticorpos produzidos por uma minoria de pessoas que conseguem neutralizar regiões mais conservadas do vírus, sendo promissores para estratégias de cura funcional.
O N-803, por sua vez, é um “superagonista” do receptor de interleucina-15 (IL-15), capaz de ativar células de defesa como as células NK (natural killer), células T CD8 citotóxicas e células T auxiliares CD4. Originalmente aprovado para o tratamento de câncer de bexiga nos Estados Unidos, o medicamento também demonstra efeitos de reversão de latência viral – um passo essencial na estratégia de “acordar e matar” o HIV oculto nos reservatórios.
Detalhes do estudo e acompanhamento
Os participantes haviam sido diagnosticados com HIV há, em média, 10 anos e estavam com o sistema imunológico estável. Após receberem os anticorpos e o N-803, iniciaram a interrupção analítica do tratamento, sob monitoramento rigoroso. O reinício da TARV era indicado caso a carga viral ultrapassasse 1.000 cópias em quatro semanas consecutivas, ocorresse queda acentuada na contagem de CD4 ou surgissem sintomas relacionados à infecção.
Durante o acompanhamento de 72 semanas, três pessoas não precisaram retomar o tratamento por mais de um ano e, em um caso, o controle viral foi mantido por mais de 125 semanas. “Esses dados são animadores e podem indicar que estamos nos aproximando de uma estratégia de remissão sem TARV em determinados perfis de pacientes”, avaliou Caskey.
Segurança e limitações
A combinação foi bem tolerada, com poucos efeitos adversos, como inchaço e vermelhidão no local da aplicação de N-803. Não foram registradas reações graves ou descontinuações devido a efeitos colaterais.
No entanto, o estudo tem limitações importantes. Os participantes não foram testados previamente para sensibilidade aos anticorpos, o que pode ter impactado os resultados, já que muitos apresentaram resistência viral ao 10-1074-LS no momento do rebote. Além disso, não houve grupo controle com apenas os bnAbs, o que dificulta avaliar o efeito isolado do N-803.
Próximos passos e pesquisas correlatas
Pesquisas semelhantes estão em andamento. No estudo FRESH, realizado na África, 30% das mulheres que iniciaram TARV durante a infecção aguda e receberam dois bnAbs diferentes com o imunomodulador vesatolimod permaneceram com a carga viral suprimida por 12 meses sem TARV. O vesatolimod, assim como o N-803, também atua na ativação de células do sistema imune.
Já o estudo ACTG A5386, ainda em andamento, é um dos poucos ensaios randomizados que avaliam a eficácia do N-803 isoladamente ou combinado com bnAbs. Os resultados desse tipo de estudo comparativo serão fundamentais para entender o real papel do imunomodulador no controle do HIV sem TARV.
Esperança cautelosa
Apesar dos avanços, os pesquisadores reforçam que ainda é cedo para falar em cura. “Estamos tentando entender os mecanismos por trás desses resultados. Pode ser atividade antiviral residual, modulação imune ou adaptação viral. A grande pergunta agora é: o N-803 realmente fez a diferença?”, questionou Caskey.
A expectativa é que, com a comparação entre estudos e o avanço dos ensaios clínicos, seja possível identificar quem são os melhores candidatos a essas novas abordagens e como combiná-las para alcançar uma remissão duradoura do HIV sem medicamentos contínuos.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações do Aidsmap



