IAS 2025: Estudo mostra que mudar o tratamento antirretroviral não reduz peso em pessoas com HIV

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Trocar medicamentos antirretrovirais associados ao ganho de peso por outros considerados neutros não traz benefício significativo para pessoas com HIV que convivem com obesidade. É o que aponta um estudo apresentado na terça-feira (15), durante a 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), em Kigali.

Segundo os pesquisadores, a simples mudança no regime de tratamento não foi suficiente para provocar uma perda de peso relevante após 48 semanas de acompanhamento. O estudo destaca a necessidade de investir em estratégias complementares, como mudanças no estilo de vida, acompanhamento nutricional e incentivo à prática de exercícios físicos.

O estudo DO-IT foi apresentado pelo Dr. John Koethe, da Universidade Vanderbilt (EUA), e envolveu 145 pessoas com HIV, obesidade (IMC ≥30) e carga viral indetectável, que faziam uso de um regime contendo um inibidor da integrase (como dolutegravir ou bictegravir) e tenofovir alafenamida (TAF), medicamentos frequentemente associados ao ganho de peso.

Os participantes foram divididos em três grupos:

* Grupo 1: manteve o tratamento atual
* Grupo 2: trocou para doravirina e TDF (tenofovir disoproxil), que tem efeito supressor de ganho de peso
* Grupo 3: trocou para doravirina, mantendo o TAF

Após 48 semanas, os resultados mostraram pequenas perdas de peso em todos os grupos:

* Grupo 1 (sem mudança): perda média de 1,84 kg
* Grupo 2 (doravirina + TDF): perda média de 2,73 kg
* Grupo 3 (doravirina + TAF): perda média de 0,47 kg

Essas variações, no entanto, não apresentaram diferença estatística significativa, o que indica que nenhuma das mudanças foi eficaz como intervenção direta para a perda de peso.

“Fiquei até animado ao ver que todos perderam algum peso, mesmo que pouco”, disse Koethe. “Talvez o fato de participarem de um estudo sobre peso tenha motivado mudanças no comportamento, como dieta ou atividade física.”

Perfil dos participantes e implicações do estudo

A média de idade dos participantes era de 49 anos, com um IMC médio de 34,9. Cerca de 49% eram mulheres, 53% eram negros e 18% latinos. Nenhuma variável como idade, sexo, histórico de ganho de peso ou tipo de inibidor da integrase influenciou de forma significativa os resultados.

Para o Dr. Graeme Moyle, do Hospital Chelsea and Westminster de Londres, as evidências mostram que apostar apenas na mudança de medicamentos para controlar o peso pode ser um equívoco clínico.

“É hora de parar de buscar a troca de antirretrovirais como solução mágica. O ganho de peso envolve muitos fatores – biológicos, genéticos, ambientais. Precisamos identificar pessoas com maior risco e trabalhar com elas de forma mais ampla”, defendeu Moyle, durante debate na conferência.

Estudo nos EUA reforça que TARV atual não é o principal fator de ganho de peso

Outro estudo apresentado na IAS 2025 reforça essas conclusões. Em uma análise retrospectiva de 10.413 pessoas com HIV em tratamento nos Estados Unidos, o Dr. Rick Elion, da Trio Health, mostrou que o regime antirretroviral atual não está relacionado a ganho de peso significativo.

O levantamento focou em pessoas com ganho de peso igual ou superior a 10% em três anos, e revelou que os fatores mais associados a esse aumento foram:

* Ser mulher
* Ser negra
* Ter baixa contagem de CD4 no início do tratamento
* Ter entre 18 e 29 anos (nessa faixa, o risco foi até 80% maior que em pessoas com mais de 60 anos)

Mudanças no regime de TARV durante o período do estudo não influenciaram o ganho de peso. No entanto, mudanças anteriores ao início da análise, especialmente a substituição de TAF por TDF, mostraram algum efeito protetor contra o aumento de peso.

Por que isso ocorre ainda é uma questão em aberto. “Mais estudos são necessários para entender os efeitos de longo prazo de medicamentos diferentes na composição corporal das pessoas vivendo com HIV”, destacou Elion.

Os dois estudos apresentados na IAS 2025 indicam que o controle do peso em pessoas vivendo com HIV vai muito além da escolha do regime antirretroviral. A combinação de cuidados médicos, mudanças no estilo de vida e atenção a determinantes sociais da saúde é essencial para enfrentar o desafio do sobrepeso e da obesidade nessa população.

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