IAS 2025: Especialistas alertam para risco de resistência antimicrobiana com uso crescente da doxiPEP

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Com a expansão do uso da profilaxia pós-exposição com doxiciclina (doxiPEP) para prevenir infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), cresce também a preocupação com a resistência aos antibióticos. O tema foi destaque de um simpósio na 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), em Kigali, onde especialistas discutiram os benefícios e os riscos da estratégia, que se tornou uma das mais recentes ferramentas de prevenção no campo da saúde sexual.

A doxiPEP consiste na ingestão de uma dose de 200 mg do antibiótico doxiciclina até 72 horas após a relação sexual sem proteção. Estudos realizados em São Francisco e Seattle com homens que fazem sexo com homens e mulheres trans mostraram eficácia significativa da estratégia contra clamídia, sífilis e, em menor grau, gonorreia. Porém, ensaios clínicos na França mostraram resultados menos animadores para gonorreia, devido à prevalência já alta de resistência à tetraciclina, a classe de antibióticos à qual a doxiciclina pertence.

Já entre jovens mulheres cisgênero no Quênia, a doxiPEP se mostrou ineficaz – resultado atribuído principalmente ao uso inconsistente. A professora Elizabeth Bukusi, do Instituto de Pesquisa Médica do Quênia, explicou que sua equipe trabalha em novos estudos com administração supervisionada da medicação, presencialmente ou via telemedicina, para avaliar a eficácia em condições mais controladas.

Expansão global e diretrizes divergentes

Desde a divulgação dos primeiros resultados positivos, diversas cidades e países passaram a adotar diretrizes para o uso da doxiPEP. São Francisco foi pioneira em 2022, com recomendações amplas, incluindo pessoas que praticam sexo sem preservativo mesmo sem histórico recente de ISTs. “Não podemos esperar até que o cavalo saia do estábulo”, argumentou a professora Annie Luetkemeyer, da Universidade da Califórnia em São Francisco.

Por outro lado, países como Bélgica e Holanda não recomendam oficialmente a doxiPEP, embora muitos homens relatem uso informal da medicação. O Reino Unido publicou em junho sua primeira diretriz, com foco na prevenção da sífilis. Já a Austrália tem adotado uma abordagem mais cautelosa.

Resistência antimicrobiana

A principal preocupação levantada pelos especialistas é o risco de aumento da resistência bacteriana, especialmente da Neisseria gonorrhoeae, bactéria causadora da gonorreia. O professor Jean-Michel Molina, do Hôpital St. Louis em Paris, foi direto: “Precisamos ser cautelosos. Não é para todos. Acho razoável limitar o uso a uma ou duas doses por semana.”

Na semana anterior à conferência, um estudo publicado no *New England Journal of Medicine* revelou dados preocupantes. Entre 2018 e 2024, a proporção de amostras de gonorreia com o gene *tetM* – que confere alta resistência à tetraciclina – saltou de menos de 10% para mais de 30% nos Estados Unidos. A pesquisa mostrou ainda que duas dessas linhagens também apresentavam resistência reduzida à ceftriaxona, um dos últimos antibióticos eficazes contra a infecção.

Seattle, uma das cidades que primeiro adotou a doxiPEP, viu a resistência de alto nível à tetraciclina entre homens gays com gonorreia subir de 2% (em 2021) para 65% (em 2024). O uso frequente da doxiPEP – mais de três vezes por mês – foi associado ao aumento da resistência. Também foram observadas taxas mais altas de resistência à tetraciclina em bactérias como Staphylococcus aureus e Streptococcus do grupo A entre usuários da profilaxia.

Um desafio global

A resistência à tetraciclina não é novidade. Uma meta-análise recente publicada na JAC-Antimicrobial Resistance, com dados anteriores à disseminação da doxiPEP, mostrou que a resistência da gonorreia ao antibiótico já chegava a 27% na América do Norte, 50% na Europa e mais de 80% na África Subsaariana e no Leste Asiático.

Durante o simpósio, Molina citou dados do estudo DoxyVAC, em que a resistência à tetraciclina foi três vezes mais comum entre usuários da doxiPEP. Ainda que todas as cepas tenham permanecido suscetíveis à ceftriaxona, houve aumento na resistência à cefixima, outro antibiótico da mesma classe.

Apesar dos riscos, os especialistas concordam que a doxiPEP tem benefícios claros – especialmente na prevenção da clamídia e sífilis. “É bem tolerada, acessível e barata”, disse Molina. Mas enfatizou que novas estratégias são necessárias para lidar com a gonorreia: “A profilaxia antibiótica claramente não é a melhor solução. Uma vacina seria ideal. Ensaios estão em andamento, e esperamos por resultados melhores no futuro.”

O impacto na saúde das mulheres

A professora Bukusi ressaltou que mulheres jovens na África enfrentam riscos desproporcionais de ISTs, com consequências graves como infertilidade. Ela alertou para o perigo da hesitação em emitir diretrizes específicas para essa população. “Adiar respostas tem consequências reais para as mulheres. Precisamos ouvi-las e entender o que funciona para elas”, afirmou.

Enquanto isso, especialistas recomendam monitoramento contínuo da resistência antimicrobiana e o uso responsável da doxiPEP, combinando ciência, precaução e escuta ativa das comunidades mais vulneráveis.

Redação da Agência Aids com informações do Aidsmap

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