IAS 2025 destaca Ruanda como modelo de sucesso na resposta ao HIV na África

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Sede da 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), Ruanda vem chamando atenção não apenas como anfitrião do evento, mas como um dos países que mais avançaram na resposta ao HIV em todo o continente africano. Com pouco mais de 14 milhões de habitantes, o país superou as metas 95-95-95 estabelecidas pelo Unaids e se consolidou como um exemplo de coordenação, inovação e engajamento comunitário.

Segundo dados divulgados durante a conferência, entre as cerca de 230 mil pessoas vivendo com HIV em Ruanda, 96% conhecem seu status sorológico, 98% estão em tratamento e 98% têm carga viral indetectável. Além disso, quase todas as gestantes vivendo com HIV recebem terapia antirretroviral, contribuindo para o esforço nacional de eliminação da transmissão vertical. Em 2024, o país registrou 3.200 novos casos de HIV.

“Alcançamos essas metas antes do previsto, construindo do zero por meio de liderança firme, parcerias estratégicas, inovação intersetorial e protagonismo comunitário”, afirmou o ministro da Saúde de Ruanda, Dr. Sabin Nsanzimana, em sua fala na conferência. “Agora, nosso desafio é fortalecer os sistemas de saúde para lidar com um novo cenário.”

Reconstrução e inovação após o genocídio

O desempenho de Ruanda se torna ainda mais impressionante ao se considerar sua história recente. Em 1994, o sistema de saúde do país entrou em colapso durante o genocídio contra os tutsis. Três décadas depois, Ruanda se tornou referência na integração de serviços, vigilância baseada em dados e descentralização do atendimento.

A Dra. Kathryn Anastos, fundadora da organização WE ACTx, que atua no país desde 2004, destacou que já naquela época Ruanda implementava estratégias de cuidado e adesão incomuns até em países de alta renda: sessões educativas de dois a três dias, sistema de “amigo de adesão” e forte atuação de agentes comunitários de saúde – que seguem como pilar da resposta nacional.

“Era uma abordagem inovadora, humanizada e estruturada, que colocava as pessoas no centro do cuidado”, destacou Anastos.

Tecnologia e vigilância avançada

Ruanda mantém desde 2004 um Sistema Aberto de Registros Médicos (OpenMRS), que permite a coleta e análise nacional de dados de saúde, servindo como base para o desenho de políticas e estratégias. Essa infraestrutura viabilizou não apenas a expansão dos serviços de HIV, mas também importantes pesquisas com base em coortes.

Outro destaque é a implementação da iniciativa TRACE, em parceria com a Universidade de Columbia, que utiliza testes de recência do HIV para identificar novas infecções e localizar redes de transmissão ativa. Os testes são oferecidos a todas as pessoas recém-diagnosticadas e seus contatos sexuais. A abordagem vem se mostrando eficaz para intervenções mais ágeis e direcionadas.

Ruanda também foi um dos primeiros países africanos a adotar, em 2016, a diretriz da OMS para iniciar tratamento imediatamente após o diagnóstico, registrando o maior aumento entre quatro países analisados no Leste da África.

Coordenação nacional e resposta integrada

Uma das forças da estratégia rwandesa está na centralização da gestão das parcerias e serviços relacionados ao HIV. Nenhum parceiro é autorizado a atuar em áreas onde já exista cobertura de outro agente implementador, o que evita duplicação de esforços e garante eficiência no uso de recursos.

Outros elementos considerados fundamentais para o sucesso da resposta são:

* forte compromisso político e governança participativa
* acesso gratuito e descentralizado aos serviços
* articulação com redes comunitárias e pares
* planejamento com base em dados concretos
* cobertura nacional de testes de carga viral
* integração entre serviços de HIV, tuberculose, saúde sexual e reprodutiva.

Desafios persistem

Apesar dos avanços, Ruanda ainda enfrenta desafios. Embora a prevalência nacional de HIV seja inferior a 3%, a epidemia afeta de forma desproporcional as populações-chave: 35% das mulheres trabalhadoras do sexo e 6% dos homens que fazem sexo com homens vivem com HIV.

A PrEP (profilaxia pré-exposição) foi introduzida nacionalmente em 2019, com prioridade para populações-chave. No entanto, as taxas de retenção variam. Após 12 meses, HSH apresentaram adesão de quase 60%, enquanto adolescentes, jovens e mulheres trabalhadoras do sexo ficaram entre 45% e 50%. O grupo “outros” teve queda para cerca de 40%, indicando a necessidade de abordagens mais personalizadas e sustentáveis.

Além disso, o país enfrenta a crescente carga das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), que desde 2015 já superam as doenças infecciosas como principais causas de morte. “Conseguimos reduzir as mortes por HIV, malária e tuberculose, mas agora enfrentamos um novo desafio: as pessoas estão vivendo mais, e precisamos responder às DCNTs”, alertou Nsanzimana.

Resposta aos cortes de financiamento

Como outros países, Ruanda foi impactado pelos cortes no financiamento internacional da saúde. Para contornar a situação, o governo reorganizou programas, priorizou atividades essenciais e ampliou o uso de mentorias virtuais. Também aumentou o financiamento nacional por meio do Tesouro.

“Financiar nossos programas de saúde não é um custo, é um investimento”, declarou Nsanzimana. “As ferramentas de ação prolongada precisam chegar às pessoas. Vamos seguir apostando em serviços liderados pela comunidade – porque sabemos que funcionam.”

Redação da Agência Aids com informações do Aidsmap

 

Apoios