
Na 13ª Conferência da Sociedade Internacional de Aids sobre Ciência do HIV (IAS 2025), realizada em Kigali, Ruanda, novos dados apresentaram um avanço importante para a prevenção do HIV entre pessoas grávidas e lactantes. Duas opções de profilaxia pré-exposição (PrEP) de longa duração — lenacapavir e cabotegravir injetáveis — demonstraram ser seguras, bem toleradas e eficazes durante a gestação e o aleitamento.
Além de oferecerem alta proteção contra o HIV, os medicamentos apresentaram baixo risco de transferência para bebês por meio do leite materno e não aumentaram a ocorrência de complicações gestacionais ou neonatais. Os resultados reforçam a importância de ampliar o acesso à PrEP injetável para pessoas em idade fértil, inclusive durante a gravidez e o puerpério.
Lenacapavir: segurança durante e após a gestação
No estudo PURPOSE 1, a PrEP com lenacapavir injetável manteve níveis sanguíneos estáveis mesmo durante a gestação, sem necessidade de ajuste de dose. A pesquisa liderada pela professora Linda-Gail Bekker, da África do Sul, mostrou que os desfechos obstétricos entre participantes que usaram lenacapavir foram semelhantes aos de pessoas em PrEP oral diária ou à média populacional.
Dos 2.140 participantes do braço com lenacapavir, 193 gravidezes foram registradas, com seis casos de malformações congênitas, dentro do índice esperado. Importante destacar que nenhuma das participantes contraiu HIV durante o estudo. Além disso, análises farmacocinéticas revelaram que cerca de 2% da substância presente no sangue materno chegou ao organismo dos bebês, apontando uma exposição mínima durante a amamentação.
As evidências sustentam o posicionamento da FDA (Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), que apoiam o uso de lenacapavir na gestação. A inclusão de gestantes e lactantes nos ensaios PURPOSE segue as diretrizes da OMS e do projeto PHASES, que recomendam uma abordagem mais inclusiva em pesquisas com tecnologias de prevenção.
Cabotegravir: tranquilidade para mães em aleitamento
Já o estudo Tshireletso, realizado em Botsuana, acompanhou 27 mulheres que iniciaram o uso de cabotegravir logo após o parto. As injeções de 600 mg foram administradas entre o primeiro e o segundo dia após o nascimento, com seguimento mensal. As participantes — em sua maioria com média de idade de 23 anos — amamentavam exclusivamente.
Os dados mostraram que 97% das mães mantiveram níveis protetores do medicamento no sangue ao longo do tempo, com concentração muito baixa de cabotegravir no leite materno. A dose relativa recebida pelos bebês foi de 5%, sem registro de infecção por HIV entre mães ou crianças.
Segundo os pesquisadores, os níveis do medicamento foram comparáveis aos observados em mulheres não grávidas, indicando que a gravidez e o parto não interferem na eficácia da PrEP com cabotegravir.
Estudo HPTN 084 também reforça eficácia na gravidez
Dados adicionais foram apresentados pela pesquisadora Sinead Delany-Moretlwe, com base na extensão aberta do estudo HPTN 084, que permitiu a continuidade do uso de cabotegravir por gestantes. Entre junho de 2023 e junho de 2024, foram registradas 433 gravidezes, das quais cerca de dois terços ocorreram entre mulheres que já faziam uso de cabotegravir.
A maioria das gravidezes resultou em nascimentos a termo, com peso médio de 3 kg. Não houve mortes maternas nem infecções por HIV, e os eventos adversos graves foram raros. Duas crianças apresentaram anomalias congênitas, o que também se manteve dentro da taxa de ocorrência esperada.
OMS atualiza diretrizes e defende autonomia das gestantes
Diante das novas evidências, a OMS atualizou suas diretrizes em 2025, recomendando que a PrEP não seja interrompida durante a gestação e amamentação em pessoas com risco de exposição ao HIV. A decisão de iniciar, continuar ou suspender a PrEP deve ser tomada de forma autônoma, informada e em diálogo com profissionais de saúde, respeitando o direito das pessoas gestantes a opções eficazes de prevenção.
A apresentação desses estudos na IAS 2025 marca um passo importante na inclusão de mulheres e pessoas gestantes em pesquisas científicas, rompendo com uma longa história de exclusão. Ao validar a segurança da PrEP injetável nesse contexto, os achados também reforçam o papel central da ciência na garantia de saúde e direitos reprodutivos em contextos de alta vulnerabilidade ao HIV.
Redação da Agência Aids com informações



