
Um estudo apresentado na 13ª Conferência da IAS sobre Ciência do HIV, realizada em Kigali, Ruanda, revelou os efeitos alarmantes da suspensão do financiamento dos Estados Unidos sobre os serviços de HIV em Moçambique. O país africano, que abriga a terceira maior população de pessoas vivendo com HIV no mundo, já sente na prática o colapso progressivo da resposta à epidemia após a decisão do governo norte-americano de congelar recursos internacionais para saúde global.
A pesquisa foi conduzida por uma equipe técnica da International Aids Society (IAS) e apresentada por Anna Grimsrud, conselheira sênior da instituição. Utilizando dados do sistema distrital de saúde de Moçambique, o estudo comparou indicadores de fevereiro de 2024 com os de fevereiro de 2025 — antes e depois da interrupção do apoio financeiro dos EUA.
Os resultados são contundentes: houve uma queda de 25% no início do tratamento antirretroviral (TARV) entre adultos, passando de mais de 22 mil para pouco mais de 17 mil pessoas. Entre quem já estava em tratamento, os testes de carga viral diminuíram 38%, os resultados recebidos caíram 37%, e o número de pessoas com **supressão viral comprovada caiu 33%.
Os impactos foram ainda mais severos entre crianças vivendo com HIV. O número de testes de carga viral realizados nessa população caiu 44%, os resultados recebidos caíram 71%, e houve uma redução de 43% nos casos de supressão viral, evidenciando um risco grave à saúde infantil.
“O estudo mostra, com dados concretos, como o congelamento dos recursos norte-americanos desestrutura imediatamente os serviços e enfraquece os sistemas nacionais de saúde. Crianças são as mais afetadas, e os impactos continuarão a se agravar”, afirmou Grimsrud.
A projeção do estudo é preocupante: caso o congelamento persista, Moçambique poderá registrar 83 mil novas infecções por HIV (um aumento de 15%) e 14 mil mortes adicionais relacionadas ao HIV (alta de 10%) até 2030.
A sessão em que os dados foram apresentados, intitulada “A escolha dos co-presidentes: O impacto da interrupção do financiamento dos EUA nos serviços de HIV e na epidemia em Moçambique”, destacou como decisões políticas no Norte global têm efeitos imediatos e devastadores em países que dependem de cooperação internacional para garantir o acesso a direitos básicos como saúde, tratamento e prevenção.
O caso de Moçambique reforça o alerta feito por agências como o Unaids e a OMS: sem financiamento estável, os avanços conquistados em décadas de combate à epidemia podem ser revertidos rapidamente.
Redação da Agência de Notícias da Aids


